Ganhar, perder, sofrer: por que é preciso chorar tanto?

Ganhar, perder, sofrer: por que é preciso chorar tanto?

Jogadora da seleção brasileira de vôlei feminino chora após derrota para a China (Foto: Agência Estado)

Pelas imagens que vemos nas arquibancadas, o torcedor brasileiro na Olimpíada é, acima de tudo, um sofredor. Sofre quando perdemos e sofre quando ganhamos.

Assim como os torcedores, nossos atletas também choram quando ganham e choram quando perdem. É um sofrimento danado, um choro só… Basta ver as fotos durante e depois das disputas, tanto de quem torce como de quem compete.

Por que precisamos sofrer tanto? Afinal, os Jogos do Rio não deveriam ser uma grande festa do esporte em que o importante é competir e não só ganhar medalhas?

Desde o começo da Olimpíada, o primeiro comentário da minha mulher, a incansável Marinha, ao me ver de manhã, é sempre o mesmo, antes mesmo de dizer bom dia: “Nossa, que sofrimento foi ontem!”.

Ela fica acordada até de madrugada, eu durmo cedo, ainda bem. Não sofro tanto. Deixo para ver os resultados no dia seguinte no jornal (ainda sou do tempo do café com jornal).

“Perder, ganhar, viver”: este foi o título de uma antológica crônica de Carlos Drummond de Andrade publicada no Jornal do Brasil, após a derrota da gloriosa seleção brasileira de Telê Santana contra a Itália, que nos eliminou da Copa do Mundo de 1982, na Espanha. Está reproduzida no livro Quando é dia de futebol, da Companhia das Letras, e estampada numa camiseta que o Ancelmo Gois mandou fazer quando trabalhava no velho JB, e eu usei até ficar puída.

Para responder à pergunta do título, inspirada no grande poeta da língua portuguesa, nada melhor do que transcrever o começo e o final da crônica dele.

Começava assim:

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio nos plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo (…). 

E terminava assim:

A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de todos nós. 

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano está na segunda metade?

Deixo a pergunta do Drummond para vocês responderem. 

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16 thoughts on “Ganhar, perder, sofrer: por que é preciso chorar tanto?

  1. Concordo que a choradeira é exagerada, mas essa coisa de “o importante é competir” é lorota ensinada no prézinho. Vai falar isso pra um russo, americano ou japonês, vai?

    1. Caro João Paulo,
      claro que para competir tem que ter garra, vontade de vencer, sangue nos olhos, mas por que é preciso sofrer tanto na vitória como na derrota?
      abraços,
      Ricardo Kotscho

  2. O que percebi foi que, aquele Brasil cordial morreu. O que vemos é o nosso ódio sendo transmitido para todo o planeta…Gritar igual uns loucos em esporte que requer silêncio, Vociferar “Vai morrer!!” para um concorrente, Berrar “Puta” e “bicha” para atletas adversários e a inédita vaia para entrega de medalhas, traduz a mudança do nosso perfil. É o ódio que deixaremos como herança para a próxima geração.

  3. Prezado grande repórter RK, li a crônica do Drummond no JB e, naquela época, eu era repórter da Rádio Excelsior, a CBN de hoje. Claro que fiquei inconsolável, mas fiquei menos triste ao ler o trecho em que Drummond lembrava que “outras Copas virão”. Com futebol vistoso, a Seleção do Telê Santana encantou o mundo, mas lembro o comentário sarcástico do técnico Rubens Minelli após o Brasil entrar bem contra a Itália: “Era uma Seleção para se apresentar no Jockey”, ironizou o treinador que, salvo engano, trabalhava no São Paulo à época. E mais não disse nem lhe foi perguntado.

  4. O povo brasileiro costuma chorar apenas onde não tem motivos. Aposto que vão vestir camisas amarelas da CBF, guardar as panelas, continuar trapaceando e vivendo de “espertezas” e torcer para voltar a escravidão. Não vão chorar para a quadrilha do Temer com seus ministros corruptos livrarem-se da justiça que vive de ministro tucano do STF falando besteiras e protegendo a outra quadrilha de políticos. Não vão chorar pela entrega aos banqueiros internacionais do nosso Pré Sal. Não não deixar cair uma lágrima pela desconstrução da maior empresa brasileira Petrobras e pelas maiores construtoras brasileiras pela República de Curitiba, que solta os ladrões empresários e políticos e arruína as empresas porque são nacionais. Não vão chorar pelo desemprego que aumenta dia a dia e pelas falcatruas do nosso acordão de Brasília,

    1. Desculpe, Kotscho….até entendo o choro na vitoria ou na derrota….afinal são QUATRO ANOS de muito sacrifício e esforço desses atletas, para ganhar ou perder em minutos….

  5. Olhando de fora, talvez a gente tenha dificuldade em perceber que o que se acaba com uma derrota olímpica é o sonho almejado durante 4 longos anos. Só haverá nova oportunidade igual depois de outros 4 longos anos. Para mim, o choro é compreensível e, até mesmo, esperado.

  6. Vc está certíssimo, caro Kotscho! É um chorôrô sem fim, revelando a ausência de um indispensável trabalho psicológico com os nossos atletas. A apatia e, claro, o choro posterior das duas duplas femininas de volêi de praia ontem, com a derrota dupla, mostra com exatidão essa lamentável e cansativa característica dos olímpicos integrantes tupiniquins.

  7. Boa noite meu amigo RK e a todos os comentaristas. Vejo os comportamentos dessas olimpíadas pelo seguinte prisma: Primeiro, que é um bom caminho para a nossa juventude, sadio, esperançoso, com uma real emoção de patriotismo, pois, se prepararam por um longo tempo para esse evento. (seja em que país for). É um exemplo para todos, educação, cultura, instrução, vontade de vencer. O choro faz parte dessas emoções, cuja finalidade principal é participar, vitória ou derrota é consequência. O choro dos participantes e dos espectadores é uma contradição se comparado àqueles que sem derramar um pingo de suor, apenas se auto beneficiam cuidando do próprio umbigo, apenas restringindo (com o poder que tem em mãos) os direitos dos trabalhadores que com seus impostos viabilizam seus recheados contracheques, corrompendo-se e deixam-se fotografar às sarcásticas gargalhadas, alheios à vida da sociedade. Essa juventude está no caminho certo, bem diferente dos ex governantes que somaram forças nos movimentos para a liberação das drogas. A propósito, o Uruguai, após liberar o uso da maconha, qual foi o êxito nessa competição saudável? Me desculpem aqueles que não concordarem, é apenas minha humilde opinião.

  8. Que coisa….. convido o Kotscho e alguns colegas que comentaram, passarem 4 anos treinando, incansavelmente, horas e horas a fio, todos os dias, para que num único dia, coloquem todo esse esforço a prova em alguns minutos……
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    Teve uma jornalista perguntando ao nadador brasileiro Bruno Fratus;….”o que você esta sentindo com o 6o lugar?”, ….Bruno respondeu…”Estou muito feliz”….e os jornalistas acharam que ele foi irônico….. piada né?……
    Menos gente…menos, se não, não caminhamos pra frente.

  9. Puxa, esqueci de dizer sobre os espectadores que nem sabem assistir à uma competição e considerá-la como tal, gritando palavrões, vaiando o adversário, alguns até atirando objetos…isso não faz parte do evento, apenas a exposição da educação (ausente) que recebeu de berço. E ainda falam em fechar escolas…!!!

  10. Nosso povo é passional mas esses dramas de alguns atletas não é característica única só dos brasileiros. Vi chineses chorarem, franceses reclamarem, russos, alemães, holandeses e britânicos se emocionarem, americanos aprontarem besterias etc. Teve de tudo. Agora o melhor é adotar sua sugestão final: Ao trabalho porque o ano precisa ser salvo. Abs.

    1. Johnny,
      a sugestão não é minha, mas do Carlos Drummond de Andrade na crônica que escreveu em 1982, após a derrota do Brasil contra a Itália na Copa da Espanha. Continua bastante atual, como se vê…
      Ricardo Kotscho

  11. Chê Kotscho, tem dois detalhezinhos determinantes nessa tese do melhor não vence, a seleção de 1982 tinha um timaço, porém o único erro do Telê foi o Valdir Peres.
    Essa seleção feminina das olimpiadas, tem um personagem que fez de tudo para perder, o Vadão, então, nossas seleções não perderam por serem inferiores, perderam em detalhes que deveriam ser melhor analisados.
    Teve seleção que o Tafarel ganhou sozinho, a Bárbara classificou o Brasil nos penaltis, em outras ocasiões o Pelé quase ganhou sozinho, portanto quando o coletivo falha, algum iluminado aparece, nossa grande Marta aparentemente não estava jogando satisfeita, não estava alegre, não estava relaxada, portanto não rendeu e aí falhou o Vadão.
    Mas quem merece mesmo e muito uma medalha de Ouro é o Gilmar Mendes Dantas Abdelnasif, esse Cuera é o mais inescrupuloso Ministro do STF de toda história recente do Brasil, duvido que o Kotscho tenha visto ministro do STF pior que este.
    Tenhamos uma boa noite porque amanhã tua mulher vai te contar no café a grande vitória do Brasil frente teus conterrâneos Russos e mais choro, desta feita do Serginho, hehehehehehe

  12. Hoje, dia 20/08/2016 nossa seleção olímpica de futebol, ganhou medalha de ouro. Assim como em outras modalidades esportivas, estão de parabéns. Bom exemplo para nossa juventude que está trilhando pelo caminho certo. Seguindo esse exemplo, os governantes devem construir mais escolas, (principalmente), mais hospitais públicos,(quantas pessoas morrem aguardando socorro até dentro de hospitais), mais segurança (pois é uma vergonha termos logradouros públicos, onde só tem acesso quem os criminosos permitem. Vejam a viatura que foi atacada no RJ e seus ocupantes, simplesmente metralhados), outros atos como o uso já costumeiro de explosivos na prática de crime como em SP, roubos diversos onde as famílias não estão seguras nem em condomínios fechados, imaginem nas ruas. É uma olímpiada que o Estado tem de participar e ganhar pelo menos medalhas de lata para chegar ao tolerável.

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