Tempo que passa muda nosso modo de ver a vida

Tempo que passa muda nosso modo de ver a vida

Ao ler por estes dias Entre a lagoa e o mar (Editora Bem-Te-Vi, 2016) , o belo livro de reminiscências do jornalista carioca Fernando Pedreira, que comandou a redação do Estadão e com quem tive a honra de trabalhar nos turbulentos anos militares da década de 70 do século passado, fui me dando conta de como o tempo que passa vai mudando nosso modo de ver e sentir a vida.

Embora o velho Pedreira seja de uma geração anterior à minha, já beirando os 90, em várias passagens do livro identifico-me com ele, como nesta reflexão sobre a mudança de rumos da sua longa carreira na passagem do século XX para o XXI:

“Mas meu caso era outro, eu estava cansado; havia escrito, quantos? Talvez, somando tudo, entre ensaios e artigos, alguns bons milhares, pelo menos. A política, o governo, o entendimento da coisa pública (a res publica), que eram minha paixão, haviam virado, para mim, rotina; repetiam-se; parecia um bagaço mastigado, descolorido e desbotado, insosso; o país crescia, progredia; mudavam as moscas, mas a merda era a mesma. Pior, as novas moscas mostravam-se (ou me pareciam), medíocres, tacanhas, grosseiras, ignorantes.

A consequência foi que mudei, ou fui mudando, de assunto; já durante a última década do século passado, escrevi mais crônicas da Europa e impressões de viagem e de leituras, do que artigos políticos (…)”

O que diria Fernando Pedreira hoje?

Pensei nisso ao reparar no que tenho escrito ultimamente, achando-me cada vez mais repetitivo e desesperançado, ao contrário do que acontecia no meu quase meio século de reportagem, viajando pelo Brasil e pelo mundo para ir ver e depois contar o que estava acontecendo.

Como acontece com muitos jogadores de futebol que penduram as chuteiras quando as pernas já não ajudam, virei comentarista de TV e internet, lidando com as commodities informativas produzidas por terceiros, o que é sempre um risco.

Por isso, vocês já devem ter reparado, tenho falado mais sobre a família e os amigos ultimamente, o que é natural, pois agora trabalho mais tempo em casa e meu mundo se restringe quase somente aos quarteirões da vizinhança.

Para mim, o que de mais importante aconteceu esta semana foi quando viajei até o aeroporto de Cumbica para encontrar a filha mais velha e três dos meus netos que estavam voltando de viagem. O que parecia ser uma grande roubada _ pegar a estrada para Guarulhos num fim de tarde de sexta-feira, final de férias, véspera de Olimpíada, com excursões de turistas chegando _ acabou sendo um compromisso de avô muito gratificante.

Com o transito todo parado desde a hora em que saímos de casa, levamos exatas duas horas e meia para chegar ao aeroporto, tempo suficiente para voar até Fortaleza ou Buenos Aires, mas valeu a pena.  A alegria do reencontro com as crianças, beijos e abraços apertados, todos falando ao mesmo tempo, não há o que pague.

Já era tarde, mas ainda fomos comer uma pizza na casa da filha, ficamos ouvindo histórias de pura felicidade das crianças, vimos vídeos e fotos sem fim, pode ter coisa melhor? Sim, sinto que estou ficando velho _ e que mal há nisso?

Só fica velho quem continua vivo, e isso é o que importa, ainda mais quando a gente tem muitas histórias para contar, como o Fernando Pedreira.

Vida que segue.

 

 

 

4 thoughts on “Tempo que passa muda nosso modo de ver a vida

    1. Agradeço a sugestão, caro Cesar T., mas também já cometi um livro de memórias chamado “Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter” (Companhia das Letras, 2006), que você pode encontrar ou encomendar nas boas livrarias…
      Bom domingo,
      abraços,
      Ricardo Kotscho

  1. Caro Kotscho, este meu comentário está bem atrasado. É que só hoje estou olhando seus últimos posts. Mas foi só para dizer que achei bonito o que você escreveu. Bonito, não apenas por ser bem escrito, mas por traduzir, com simplicidade, este seu novo capítulo da vida. Sim, para a imensa maioria das pessoas, o círculo de relacionamentos vai se restringindo, com o passar do tempo, ao núcleo mais íntimo de familiares e amigos. É porque estamos envelhecendo, como você constata. Envelhecer faz parte. No entanto, nem todos sabem valorizar o lado bom desse momento. Que ótimo poder curtir pessoas queridas, sem a pressa dos tempos passados, mais corridos em função dos compromissos profissionais. Que bom estar vivo para dar e receber carinho com calma e compartilhar momentos de alegria e descontração, vendo fotos, comendo pizza e dando boas risadas ao lado de quem amamos.

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