A fiel que ficou trancada na igreja só com Deus

A fiel que ficou trancada na igreja só com Deus

Era perto da hora do almoço, e a senhora sexagenária já tinha terminado suas orações e meditações, um ritual quase diário ao final da sua caminhada pelo bairro.

Desta vez, porém, ao querer sair, encontrou a porta da igreja fechada _ e trancada. A zeladora que toma conta do templo tinha saído para almoçar. Não percebeu que ainda restava uma solitária fiel num dos bancos a rezar. Não só a principal, mas todas as portas estavam trancadas.

Que fazer? Ligou para o marido, contou o que estava acontecendo e, ao constatar que não tinha como sair dali, ficou só com Deus, esperando que a mulher voltasse para libertá-la do confinamento compulsório.

O pobre marido ficou sem saber como poderia ajudá-la nesta emergência absolutamente insólita. Ir lá na Paróquia Nossa Senhora Mãe da Igreja, na alameda Franca, quase esquina com Padre João Manoel, no Jardim Paulista, e derrubar a porta? Chamar a polícia? Queixar-se ao bispo? Pedir auxílio ao papa Francisco?

Sem ter o que fazer, o também sexagenário companheiro conformou-se em ficar ligando no celular da mulher trancada na igreja para prestar-lhe ao menos sua solidariedade, e foi almoçar com um amigo.

À mulher, só restava continuar rezando para que a zeladora voltasse logo do almoço e nada de imprevisto lhe acontecesse que a impedisse de retornar ao serviço.

Mais de uma hora depois, sem perder a tranquilidade e o bom humor, ouviu o barulho da porta sendo aberta e avisou logo o marido aflito. Os dois riram da insólita situação, que até pode parecer inverossímil aos eventuais leitores deste blog.

Também não acreditaria nessa história, se aquela senhora trancada só com Deus não fosse a minha mulher e eu seu pobre marido. Ainda bem que ficou em boa companhia…

“Não vi que ainda tinha gente na igreja…”, limitou-se a dizer a cuidadora do templo ao reparar que alguém ficou preso lá dentro quando ela saiu. Acontece.

No site da paróquia, encontra-se o horário das missas e demais celebrações, mas não se informa que a igreja fecha para o almoço nem até que horas suas portas permanecem abertas.

É sempre bom telefonar antes.

Vida que segue.

17 thoughts on “A fiel que ficou trancada na igreja só com Deus

  1. Ainda bem que a Mara é tão zen !!! Me lembro de um dos nossos “Encontrões” de leitores para comemorar mais um aniversário do Balaio aqui em Santana, quando em meio a tantas, acaloradas e infrutíferas discussões sobre política ela só estava interessada em saber se por perto havia alguma loja que vendesse PEÇAS PARA FOGÃO.
    Mas Kotscho, eu sou do tempo (e creio que tu também) que ao dirigir-mo-nos a uma e qualquer igreja, fosse a hora, o dia ou a noite que fosse, sabíamos sempre quem lá encontraríamos para nos salvar…. Um padre !!! Hoje em dia não, eles devem ter muitas e mais coisas importantes para fazer.

    1. Caro Kotscho, não posso deixar de comparar com a tua sorte. Fosse a Sonia, minha mulher, ela teria arrancado o crucifixo do altar e quebrado um daqueles seculares “vitraux” da igreja e só já do lado de fora teria me telefonado não para chamar mas para ajuda-la a fugir da polícia !!! Vida que segue…

  2. Prezado Kotscho: Belíssimo conto, crônica ou sei lá que classificação tem esse seu artigo de hoje. Acho que você poderia partir mais vezes para uma narrativa desse tipo de situação que, nesse caso, se passou com você e a esposa, com um final feliz. Material é que não falta e quem sabe um dia não teremos outro livro seu para lermos. Parabéns.

  3. Ganhou a mega cena, hein, Mestre? Com a fé, a paciência e o bom humor da patroa, não apenas viu reforçado o saldo das indulgências, como a impensável e reveladora estória, que escancara o tempo que vivemos, caiu-lhe ao colo artesão por obra da providência, no caso não divina, da zeladora, para transformar nessa jóia. Há muito, observo, estranho, comento e não aceito, certos sinais desse tempo: Igrejas do nosso credo, primeiro com o padre ausente, depois trancadas por dentro, agora por fora, forçando fiéis ao relento ou a clausura obrigatória, da alma, Casas de Repouso para “idosos”, como se o “idoso” desejasse apenas repousar e longe da família, ao invés de viver e próximo, e para completar, o tal Assento Preferencial em tudo quanto é lugar, substituindo a velha, humana e saudável, Educação, desaparecida. Será o Benedito comunista do Lula o culpado, Mestre?

  4. Vamos consultar o Gesiel, para ver se isto não foi obra do PSDB ou da midia golpista que mandou fechar a igreja no horário do almoço e trancou a coitada da Beata lá dentro.

    1. José Antonio,
      você pode achar que é muito engraçadinho nos teus comentários, mas é apenas grosseiro.
      Se você ler meu texto até o fim, vai ver que a “beata” é minha mulher.
      Publico teu comentário apenas para mostrar o baixo nível a que estão chegando alguns participantes deste blog _ e nas redes sociais em geral.
      É desanimador este quadro, mas é o retrato do momento que estamos vivendo no país.
      Ricardo Kotscho

    2. Obra do PSDB aqui em São Paulo, ainda mais num lugar como uma igreja, onde se prega questões proximas a teorias maxistas, como valorização do ser humano e distribuição de renda aos mais humildes, seria muito dificil. Mas fechar a porta da casa do senhor, é no minimo tirar um dos poucos direitos que os paulistas ainda têm, que é o de ter esperança numa força superior, que possa fazer com que os bandidos que tomaram conta do nosso estado, nesses mais de 20 ANOS em que o PCC: Nasceu, cresceu e dominou São Paulo; possa pelo menos ter um pouco de piedade; com quem ja tem tantas portas fechadas no seu direito de ter do estado de São Paulo: saude, educação, saneamento basico, segurança e transporte. E por falar em igreja, essa semana, li um livrinho muito legal, que ha muito tempo eu estava esperando um tempo para lê-lo, que se chama “Santo Expedito Um show de graças”, escrito por um senhor chamado Renato Tadeu Geraldes. Leiam que é muito legal.

      1. Gesiel,
        tentar politizar e partidarizar qualquer assunto é o caminho mais curto para perpetrar bobagens como estas do teu comentário.
        Nada tem a ver a igreja trancada na hora do almoço com o que você escreveu.
        Ricardo Kotscho

    1. Cesar T,
      os netos já estão se divertindo e eu não estou desanimado. De onde você tirou isso? No fim, também achei a história engraçada.
      Estou é indignado com os novos números do desemprego que acabaram de ser divulgados (ver post que escrevi hoje), sem que ninguém faça nada para enfrentar esta tragédia.
      Ricardo Kotscho

  5. …quando vejo as dificuldades que uma senhora como dona Mara encontra pra ir pro cèu, fico imaginando as dificuldades que terão os coxinhas golpistas, mesmo para entrarem no inferno.Um capeta amigo meu, me disse que: pior do que entrar no inferno é ficar em sua porta pedindo pra entrar e ninguém lhe dá ouvido.O que tem de coxas nesta situação, não está no gibi.

  6. Caro Kotscho, durante a leitura, fiquei imaginando qual seria o desfecho. Adorei saber que foi com você e sua querida Mara. Muitas vezes também adoro ficam em silêncio dentro da igreja, fixo o meu olhar no altar, e fico presa e liberta, ao mesmo tempo, nas minhas meditações e orações. Já pensei também nessa possibilidade de me esquecerem dentro da igreja. Fica o alerta. Que bom que vocês deram boas risadas juntos. Abraços e Obrigada.

  7. Caro Kotscho,aqui em Tietê,após vários acontecimentos desse tipo,agora alguns minutos antes das portas serem fechadas, soa uma sirene de aviso. A única diferença é que não é na igreja e sim no Cemitério…

  8. Sem dúvidas, uma situação inusitada.
    Mas o fato é que este post entra para a lista dos melhores publicados até agora.
    Peça, por favor, à dona Mara que reze por mim, pecador.

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