Por que tanta pressa para legalizar cassinos?

Por que tanta pressa para legalizar cassinos?

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Com a enxurrada de gravações clandestinas e delações premiadas dominando o noticiário político nestas duas primeiras semanas do governo interino de Michel Temer, corre celeremente por fora o movimento pela reabertura dos cassinos e legalização dos jogos de azar, como se esta fosse a solução para os grandes problemas nacionais. Quais seriam os motivos de tanta pressa?

Neste cada vez mais estranho e assustador Brasil de Brasília, nada acontece por acaso. Como temos eleições municipais em outubro, com os tradicionais financiamentos de campanhas asfixiados pelo STF, que proibiu as doações empresariais, e pela Operação Lava Jato, detonando os esquemas público-privados de “caixa dois” e lavagem de dinheiro, a volta da jogatina legalizada pode ser a salvação da lavoura para partidos e candidatos.

Parece que seus defensores estavam apenas aguardando a troca da guarda para avançar no pudim. Logo nos primeiros dias do novo governo, o ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, que ocupou o mesmo cargo na gestão anterior, voltou a defender abertamente  a legalização dos jogos de azar no Brasil.

“Temos de ter coragem para enfrentar de forma séria, profissional e republicana a legalização dos jogos. Atualmente, as pessoas jogam de forma clandestina, sem gerar qualquer arrecadação para o país”, afirmou o ministro no último dia 18, ao discursar na abertura de uma feira de turismo em Porto de Galinhas, Pernambuco. Alves ressalvou que essa é sua opinião pessoal e pretende levá-la para ser discutida por toda a equipe de governo.

Não está sozinho. Na mesma linha, o senador Ciro Nogueira (PP-Piauí), autor do projeto de lei que tramita no Senado para regulamentar a exploração de jogos de azar, que fizeram a fama de Carlinhos Cachoeira (por onde andará?), escreveu artigo sob o título “Uma aposta no Brasil”, publicado pela Folha na edição de sábado:

“O projeto de legalização de jogos de azar, em discussão no Congresso Nacional, é uma aposta que vale a pena para o país. Essa questão precisa ser debatida sem preconceitos, de maneira profunda e pensado exclusivo (sic) no interesse nacional. Devemos evitar que o atual momento de eletricidade  no ambiente político contamine uma discussão que o Brasil, mais cedo ou mais tarde, precisará enfrentar”. Por qual razão?

Sabemos bem agora, pelas gravações feitas pelo delator Sérgio Machado com os grandes caciques do PMDB, quais são as razões republicanas em defesa do interesse nacional que os move. E não por acaso, também, o ministro de Turismo dos governos Dilma-Temer aparece como um dos principais alvos da Operação Lava Lato, e o PP de Ciro Nogueira é o partido com maior número de parlamentares envolvidos nas denúncias.

Na mesma edição da Folha que publicou o artigo de Henrique Alves, o contraponto foi dado por José Augusto Simões Vagos, procurador-chefe da Procuradoria Geral da República _ 2ª Região, sob o título “Cartas marcadas”:

“As coisas mudaram nos últimos 14 anos. A atividade clandestina foi asfixiada pelas operações policiais em quase todos os Estados da Federação. Como as apreensões dão prejuízo _ é caro investir em caça-níqueis _, o melhor negócio para o contraventor passou a ser brigar pela legalidade. O lobby do grupo é pesado”.

Se fossem bons para o país, não seriam chamados de jogos de azar, mas de sorte, e Las Vegas seria a cidade mais rica do mundo. A sorte, geralmente, é da banca e dos políticos que ela financia, e o azar é nosso. Para fazer lavagem de dinheiro e caixa dois, é a sopa no mel.

Antes de encerrar este assunto sobre gravações e jogatinas legalizadas, que têm tudo a ver, abro espaço para reproduzir duas cartas de leitores publicadas pelos jornalões paulistas, resumindo o que pensa sobre tudo isso o chamado cidadão contribuinte.

Antonio do Vale, de São Paulo, na Folha: “Como sempre acontece, o argumento favorável é só a possibilidade de arrecadação financeira. A moralidade, a criminalidade, a infelicidade potencial das famílias, o vício, a prostituição, não são nem sequer levados em consideração”.

Natalino Ferraz Martins, de São Paulo, no Estadão: “Horas de gravações e não se encontra, nas conversas de importantes próceres da Nação, nenhuma menção a qualquer ação para ajudar o Brasil nem sombra de alguma preocupação com a população brasileira. Apenas tramas e tramoias, dignas de gângsteres. Não surpreende, mas deixa um gosto triste e amargo de desesperança”.

E vamos que vamos.

8 thoughts on “Por que tanta pressa para legalizar cassinos?

  1. É meus caros Balaieiros… parece que não temos mais nem galinhas,nem galinheiros.O que sobrou,foram só as raposas, que com medo de morrer de inanição, estão ávidos por buscar novos alvos, nem que seja a galinha substituida pelo urubu. Nesta zona não tem virgem.

  2. Um país com o potencial turístico do Brasil já deveria, há muito tempo, ter legislação específica para exploração de jogos em cassinos. Hoje quem monopoliza jogos no país é o governo com as inumeras loterias operadas pela Caixa. Claro que me refiro a jogos legalizados. Não consigo enxergar problemas sérios na possível legalização. Prostituição no Brasil está quase institucionalizada. Nas regiões mais carentes e turísticas são os próprios pais que acabam por colocar seus filhos na prostituição. Famílias ressentidas já existem pois o “jogador viciado” acaba por satisfazer seu vício nos inumeros bingos e casas de jogos clandestinas. Se tudo isso vai continuar ocorrendo, é melhor que, ao menos, o governo cobre um imposto pesado sobre os jogos. Mas, com certeza, a intenção de V.Excelências é possuir mais um campo pra “morder já que a coisa ficou preta com as empreiteiras e outros prestadores de serviços de estatais.

  3. O que mais me preocupa não é a abertura de jogos de azar no Brasil, o que me preocupa de verdade é o povo votar nesses canalhas novamente, e olhe eu garanto que a maioria deles seriam reeleitos novamente, se não forem impugnados. Infelizmente somos ignorantes por natureza, nos abraçamos as bravatas e a corruptos que é uma beleza……..As únicas coisas que fazem esse povo pensar é o carnaval e o futebol……..e como os políticos sabem disso e se usufruem disso……

  4. Depois da ‘repatriação’ de capitais, uma expressão edulcorada para ‘branqueamento de capitais’ na lavanderia da evasão de divisas, contrabando, sonegação e demais ilícitos fiscais, a ‘legalização’ dos cassinos (que já estão repatriando capitais a essa hora e até o final de outubro), simplesmente é a mesma face da moeda, apenas levada a efeito dentro do país. Se a ‘repatriação’ foi avalizada por Levy et Caterva, não será o princípio da moralidade que estaria a dar suporte ao combate à jogatina. Aliás, o país haverá de se entender sobre o que, realmente, significa o ‘princípio da moralidade’, no tocante à dinheirama circulante jorrando de todos os dutos, seja para dentro das campanhas, dos governos e dos negócios privados. O discurso oficial contra a jogatina resultou enfraquecido após a aprovação da ‘repatriação de capitais’ que transformou o Brasil na maior lavanderia a céu aberto da América Latina.

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