Uma vida feita de belas lembranças e boas histórias

Uma vida feita de belas lembranças e boas histórias

Foto: Divulgação/STF

Bom de garfo e de copo, era acima de tudo um grande contador de histórias da vida real.

Mesmo nos dias mais alvoroçados, seus amigos da tabacaria do Beto Ranieri faziam silêncio obsequioso para ouvir os causos de processos polêmicos, personagens inusitados e viagens pelo mundo afora.

Dono de uma memória de elefante e vasta cultura, contava tudo nos mínimos detalhes, e nunca precisava consultar o Google.

“Se já contei essa, me avisem…”, costumava advertir, mas mesmo quando a história era repetida a gente gostava de ouvir de novo, só pelo prazer de acompanhar sua narrativa de fatos antigos como se tivessem acontecido ontem.

Pois este bom amigo e comparsa de boas mesas, o grande criminalista Arnaldo Malheiros Filho, foi-se embora na tarde desta sexta-feira, aos 65 anos, depois de enfrentar dois transplantes de fígado.

Deixou para trás uma vida de bons momentos, belas lembranças e um caminhão de admiradores do seu estilo bonachão.

Vai fazer falta nos nossos almoços das sextas-feiras, em que ele sempre escolhia o vinho, e das plenárias das manhãs de sábado na tabacaria, regadas a cerveja preta e cachaça.

Nesses encontros, aos quais só faltava quando estava em viagem, falava de Paris com a intimidade de quem conhecia seus segredos mais recônditos.

À sua volta, com ele sentado sempre à mesma cadeira, tinha de tudo, de ex e atuais ministros do STF ao grande pianista, do banqueiro ao fazendeiro, do artista global ao diplomata, charuteiros e vagabundos em geral, dedicados nestas horas apenas à arte de jogar conversa fora.

Trabalhava muito e nunca reclamava da vida que escolheu. Demos boas risadas juntos.

Defendeu de ex-presidentes da República a grandes empresários e também amigos anônimos sem recursos para os quais trabalhava “pró-bono”.

Era uma espécie de oráculo ambulante de jovens advogados, como ele também tinha sido um dia, no escritório do seu mestre José Carlos Dias, onde o conheci, nos anos 1970, na época da ditadura militar, quando defendia presos políticos.

Na nossa pobre paisagem humana dos dias atuais, é cada vez mais difícil encontrar alguém como Arnaldo Malheiros Filho, meu velho e animado parceiro de prosa e de bar, e de tantas lutas pela reconquista da democracia.

Como não vou mais a enterros e velórios (não gostaria de ir nem ao meu, e meus amigos também estão dispensados), deixo aqui meu forte abraço à família e aos muitos amigos em comum, guardando apenas as boas lembranças dele.

Valeu, Arnaldo, boa viagem.

Para quem fica, vida que segue.

2 thoughts on “Uma vida feita de belas lembranças e boas histórias

  1. Por vossas referência, tem a minha admiração e votos de paz para a família, que num momento como este é quem sabe o quanto dói perdemos alguém dos nossos!
    Descanse em paz..Que Deus acalente os corações daqueles que com ele conviviam e o amavam!

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