"Felicidade foi-se embora?" é tema de livro e debate

"Felicidade foi-se embora?" é tema de livro e debate

_ Boa tarde, tudo bem?, pergunto ao motorista como sempre faço quando entro no táxi.

_ Tudo ótimo!!!, respondeu ele, com ponto de exclamação e tudo.

Estranhei a reação de felicidade dele porque já estou acostumado a ouvir um rosário de queixas assim que faço a pergunta, e resolvi saber-lhe o motivo.

_ Estou respirando e estou vivo… O que mais eu posso querer?

Cada um sente felicidade por razões e em circunstâncias diferentes, mas é a primeira vez que ouço alguém atribuir este sentimento ao simples fato de estar vivo. No breve trajeto da praça Oswaldo Cruz à minha casa, o taxista só falou de coisas boas do trabalho, da família, dos seus planos de vida.

Deveria até ter perguntado seu nome, pois se trata de um personagem raro de encontrar em São Paulo, onde todo mundo, principalmente os motoristas de táxi, se queixa do trânsito, do prefeito, do tempo, dos políticos, da crise, da corrupção, da inflação, com todo aquele repertório a que já nos acostumamos.

Tinha acabado de ler o livro Felicidade foi-se Embora?, de Frei Betto, Leonardo Boff e Mario Sergio Cortela (editora Vozes Nobilis), que será lançado na noite desta segunda-feira com um debate entre os três autores no Teatro da Universidade Católica, o velho Tuca (rua Monte Alegre, 1024), a partir das 19h30.

Assim como acontece com a água e a luz, a felicidade é um bem de que a gente mais fala quando está em falta. Em suas respostas à questão levantada no título, meus velhos amigos Betto, Boff e Cortela parecem três tenores afinados num ponto: toda felicidade é passageira e a duração e a intensidade dela depende da postura de cada um de nós diante da vida e dos seus desafios permanentes.

“Não existe a felicidade como perenidade. A ideia da felicidade como um estado permanente é uma impossibilidade, à medida que uma boa parte dos nossos sentimentos é vivenciada pela ausência (…) Felicidade não é um estado contínuo, não pode e nem deve sê-lo.E nem seria possível, pois isso colocaria a pessoa próxima do estado de demência”, resume o filósofo, educador e escritor Mario Sergio Cortela logo na abertura do seu texto.

Em outras palavras, se você encontrar por aí alguém que demonstra muita felicidade o tempo todo, tome cuidado pois o cara deve ser doido.

Outro ponto em comum apontado neste pequeno livro de 130 páginas é a importância da boa convivência familiar e o papel dos amigos para tornar mais frequentes e duradouros estes nossos momentos de felicidade. Ou seja, ninguém consegue ser feliz sozinho.

Escreve Frei Betto: “Sou feliz por pertencer a uma família afetuosa, e considerar suficiente o necessário. A razão principal da felicidade reside, porém, em dois fatores: as amizades conquistadas ao longo da vida e o sentido que imprimo à minha existência. As amizades me suscitam amor e me fazem sentir amado. É um privilégio saber que posso bater, sem aviso prévio, à porta de amigos e amigas às três da madrugada, em cidades do Brasil e do exterior, com a certeza de que serei bem-acolhido”.

Leonardo Boff completa: “A felicidade e a paz não são construídas pelas riquezas materiais e pelas parafernálias que nossa civilização materialista e pobre nos apresenta (…)Nós nos esquecemos que aquilo que nos traz felicidade é o relacionamento humano, a amizade, o amor, a generosidade, a compaixão e o respeito, realidades que têm muito valor mas não têm preço”.

Escrever este texto, por exemplo, me deixou feliz.

E como o caro leitor responderia a esta singela pergunta: o que deixa você feliz?

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

14 thoughts on “"Felicidade foi-se embora?" é tema de livro e debate

    1. Pois é, Marcia, não está fácil a vida de blogueiro.
      Por mais que eu queira mudar de assunto, o pessoal só quer saber da guerra política, que eu já não suporto mais.
      Será que estamos ficando masoquistas? Como podemos ver na nossa imprensa, parece que só o que dá ibope é desgraça…
      Abraços,
      Ricardo Kotscho

  1. Caro Kotscho, faltou mencionar a SOLIDARIEDADE. Tem gente no mundo que só fica feliz quando o outro ou os ostros se ferram. Aqui mesmo no Balaio tá cheio dessa gente. Tu sabe que por tudo o que já passei nessa VIDA e ainda passo, pela lógica deles, eu deveria ser a pessoa mas infeliz do mundo, MAS NÃO !!! Decidi levar a VIDA me dedicando a torcer pelos outros, e a VIVER pelos outros !!! Não digo que a felicidade está todo dia estampada em mim, pelo contrario, tenho mais dias tristes do que alegres, porém SORRIO !!! O sorriso e a alegria de ser um coletivista é que me incentiva a seguir adiante sem rancores, sem ódios, sem remorsos e sem medo… “sem medo de ser feliz” !!! Vou te deixar aqui, meu amigo, um “Mestre Cartola” pra ti —> “A sorrir, eu pretendo levar, a VIDA, pois chorando eu vi essa e a minha mocidade…Perdida”

  2. Como diz a música do Gonzaguinha…”Viver, e não ter vergonha de ser feliz… Cantar, cantar, a certeza de ser um eterno aprendiz..Eu sei que ela podia ser bem melhor, e será?!!
    Bem, é claro que ser feliz não depende só “acordar vivo e respirar”. Seria se contentar com muito pouco do que a vida lhe oferece. Encontramos momentos felizes em nosso ciclo familiar, e de amigos. também no trabalho, principalmente quando acertamos mais que erramos. Não devemos ignorar que a vida, ou o percurso dela tenha tantos desafios e perdas. Não podemos desconsiderar, que muitas coisas que nos causa transtorno, pode ser necessário para alguém ser feliz. Quando demoramos no sinal, muitos bem próximos de nós estão felizes pq ele se abriu. Até um carroceiro e/ou catador, em nossa frente, (dificultando o trânsito), certamente estará lutando para levar algo para os seus sorrirem. Claro que a desonestidade das adm públicas tem corrompido muitos de nossos momentos felizes. Mas até na política (ou principalmente), quando tem um lado feliz, outra parte está triste. Difícil mesmo é quando o lado que deveria estar feliz, também sofre de suas tristezas. Assim…
    “E a pergunta roda
    e a cabeça agita
    fico com a pureza da resposta das crianças
    é a vida, é bonita e é bonita,,,”
    Por favor caro Kotscho, sem essa de…(você não consegue falar de outra coisa sem citar e/ou dá conotações políticas?) Pois é, nem você conseguiu neste mesmo post, que por sinal, está muito bom!

  3. “felicidade foi-se embora”, não é verdade, ela está sempre ao nosso lado, quem se afasta dela somos nós.
    Os autores do livro são da pesada, todos tem uma dialetica que impressiona, pode-se ficar horas ouvindo suas palestras sem se mover do lugar.

    1. Cesar T,
      se você for reler o que escrevi, vai ver que o título do livro é uma pergunta _ “Felicidade foi-se embora?” _, e não uma afirmação.
      Ricardo Kotscho

  4. Apesar dos problemas do dia a dia, tenho a possibilidade de viver com a esposa que amo. Tenho saúde e condições de sonhar com um futuro melhor, e buscar trabalhar e lutar por ele. Estas são as razões que me fazem feliz.

  5. Estamos todos a serviço por aqui. A serviço da nossa própria evolução espiritual. De maneira geral, a felicidade não é deste mundo mas, temos sempre muitos momentos felizes, principalmente quando temos a sensação do dever cumprido com nossa família e com o próximo. A sensação de felicidade é um estado de espírito interno de cada um de nós. A cura de todos os nossos males está em nós mesmo. Muitas vezes nos surpreendemos nos indignando com tudo que ocorre a nossa volta e, no fundo, deveríamos saber que cada evento tem seu tempo certo, cada problema será resolvido na sua hora e que muitas coisas devem ser deixadas nas mãos de Deus para que a solução venha por seu intermédio. O que não devemos parar nunca é com nosso trabalho seja ele para prover nosso sustento ou seja ele para ajudar o próximo. Quem não trabalha já começou a morrer. Eu me sinto muito feliz com tudo que a vida me proporcionou e não me refiro a coisas materiais e sim a minha família, o meu trabalho, os meus amigos, as minhas lembranças, as minhas realizações e principalmente com os momentos difíceis que me possibilitaram aprendizado, humildade e evolução. Abs

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