Civilidade é o novo desafio das redes sociais

Civilidade é o novo desafio das redes sociais

Metade da população brasileira, segundo o IBGE, já tem acesso às redes sociais em suas diferentes plataformas _ e esta é uma notícia muito boa. Estamos cada vez mais conectados ao mundo digital que provocou a maior revolução nas comunicações humanas deste a criação da imprensa, mais de 500 anos atrás.

O grande desafio que se coloca agora é discutir de que forma utilizamos este fantástico instrumento de interação e democratização, em que todos nos tornamos ao mesmo tempo emissores e receptores de informações e opiniões.

Qualquer meio de comunicação pode ser usado para o bem ou para o mal _ e, não, ser considerado um bem ou um mal em si mesmo.

Como se trata de fenômeno relativamente recente em nosso país, muita gente ainda não sabe exatamente para que serve a internet e de que forma pode ajudar ou não a nos tornarmos um país mais civilizado.

Civilidade: acho que esta é a palavra certa para definir o que devemos buscar agora nas redes sociais que se multiplicam sem parar, fora de qualquer regra ou controle. Há tempos não ouvia falar nesta palavra, que revi num texto do repórter Vinícius Mendes, publicado na revista “Brasileiros” de abril, sobre o engenheiro Michel Friedhofer, criador da página Um Convite à Civilidade no Facebook.

Friedhofer trata da civilidade não especificamente na internet, mas de uma forma geral das relações com os outros no nosso comportamento cotidiano. “Indignado com atitudes incorretas incorporadas ao dia a dia, o engenheiro Michel Fiedhofer convida as pessoas a praticarem civilidade. Para ele, pequenos desvios de comportamento são elementos vitais para a corrupção em larga escala”, escreveu Mendes na abertura da matéria, que vale a pena ler.

Achei ótima a ideia. Está na hora de resgatarmos antigos valores no relacionamento humano que nada têm a ver com novas tecnologias. O lado negativo da rápida expansão das redes sociais é que elas servem também para mostrar o baixo nível cultural e educacional dos seus usuários. E neste ponto o quadro revelado pela internet é bastante preocupante.

Basta dar uma navegada nos comentários publicados por internautas em toda parte, dos grandes portais jornalísticos aos blogs pessoais. Sem qualquer moderação ou cuidado por parte de seus responsáveis, boa parte dessas mensagens lembra mais as portas de banheiros em locais públicos, onde se despejam ofensas e baixarias oferecendo o que o ser humano pode produzir de pior, da intolerância ao racismo, da ignorância à total falta de civilidade.

Nestes dez anos de trabalho na internet, não tenho do que me queixar pessoalmente, pois melhorou muito o nível dos comentários enviados ao Balaio, que leio um por um antes de publica-los. Cada vez menos sou obrigado a utilizar a tecla “delete”, única forma de evitar que o ambiente fique contaminado, afastando leitores mais interessados em refletir sobre os temas propostos pelo blog e menos em agredir os que pensam de forma diferente. Sou muito grato por isso aos que me acompanham diariamente.

Aqui e em outros espaços, às vezes tenho a impressão de que muitos nem se dão ao trabalho de ler os textos antes de enviarem suas opiniões definitivas sobre qualquer assunto. Dão uma rápida olhada nos títulos e já começam a digitar qualquer coisa, mais rápido do que conseguem pensar, escrevendo sempre as mesmas coisas, a favor ou contra os mesmos alvos, sem muita preocupação com a gramática, a lógica e o bom senso.

São os prazeres e as dores desse crescimento da internet que, se de um lado, oferecem um formidável e rápido acesso a tudo o que a humanidade já produziu de melhor em todas as áreas, de outro, liberam os piores instintos dos que ainda têm dificuldades para conviver com o pensamento alheio e a democracia, ainda mais num clima de alta beligerância como o que vivemos atualmente no Brasil.

Como dotar as redes sociais de mais civilidade é um bom tema para refletirmos neste feriadão. Vai fazer bem para todos nós, cidadãos internautas.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

23 thoughts on “Civilidade é o novo desafio das redes sociais

  1. Prezado Kotscho: Sobre esse tema da civilidade, que você aborda com muita propriedade no seu artigo de hoje, acho que se encaixa muito bem um trecho do artigo de Leonardo Boff intitulado “Francisco de Assis: o ser humano tem jeito”, publicado no portal Carta Maior em 29/04/2015. Lá vai: “Considerando os cenários mundiais, a violência bélica em várias nações com terríveis matanças de vidas humanas, ou a violência de estudantes que, ensandecidos, invadem uma escola e abatem a tiros dezenas de colegas, sem falar das torturas e dos abusos que se fazem a inocentes, nos surge, espontânea, a pergunta: o ser humano tem jeito? Não somos uma excrecência do processo da evolução?
    Custa-nos identificar figuras exemplares que nos desmintam desta tétrica impressão. Mas, graças a Deus, elas existem como um Dom Helder Câmara, uma Irmã Dulce, a Irmã Tereza de Calcutá, um Chico Mendes, um José Mujica, ex-presidente do Uruguai, um Ganhdi, um Dalai Lama e um Papa Francisco, entre tantos. Mas quero me deter numa figura seminal em que a humanidade de modo convincente teve jeito: São Francisco de Assis. Um dos legados mais fecundos do “Sol de Assis” como o chama Dante e atualizado por Francisco de Roma é a pregação da paz, tão urgente nos dias atuais. A primeira saudação que dirigia aos que encontrava pelas estradas era desejar “Paz e Bem”, que corresponde ao Shalom bíblico. A paz que ansiava não se restringia às relações inter-pessoais e sociais. Buscava uma paz perene com todos os elementos da natureza, tratando-os com o terno nome de irmãos e irmãs.”

  2. O Kotscho tem razão. Se aqui no Balaio, em tese, os comentaristas possuem maior vivência, e em muitas vezes gozam de boa formação intelectual, já vimos tantas dessas incivilidades, os fora daqui é um ringue sem regras. Levando-se em conta o nosso momento, muito se deu pelo momento político. Para muitos as redes sociais são as culpadas por esse acirramento de ânimos, e de ânimos acirrados fica difícil encontrar espaço para a civilidade. Não me coloco fora do contexto, seja por indignação e/ou, como no ditado popular…”em terra de sapos, de cócoras com eles”. O que não deixa por si só, de também ser lamentável. Como se defender, sem atacar, neste momento que passamos a ser golpeados a todos instantes seja por ações nocivas dos agentes públicos ou por seu defensores? Mas vale a reflexão…Particularmente até já não respondo mais a um certo balaieiro, e tenho procurado ter a maior celeridade. O problema que o sangue não é de barata…rss

  3. Que é isso companheiro?
    O tucano beto Richa e seu pitbull Francischini senta a porrada nos professores, manda 150 mestres pro hospital e você falando de “civilidade nas redes sociais”????
    Esperava um belo texto de sua lavra mostrando a incivilidade de um governador mimado, irresponsável, violento, da mesma safra do Aécio Neves.
    Lamentável mestre. Lamentável.

  4. Como sempre, belíssimo texto Kotscho … Infelizmente juntamente com o crescimento do acesso a internet houve também o crescimento do que podemos chamar de lixo opinativo e/ou de conteúdo!!!

  5. “Ricardo, *fugindo do tema* que é proposto por ti,*eu* estou assustada com o excesso de confiança,isto é, se realmente for excesso de confiança, da facção do PMDB liderada pelo Sr.Cunha.”
    Quando *ele* diz alto e em bom som e *sem medo de ser feliz*,que o Partido dos Trabalhadores só ganha alguma coisa quando o PMDB *quer e tem pena*,e os companheiros dele gargalham debochando, também sem medo de ser feliz.
    Enfim…”o que eu quero é te dizer:que a coisa aqui tá preta…”
    “E *olha que o PMDB* faz parte da base aliada da Senhora Dilma e do Partido dos Trabalhadores.”

  6. Grande sacada a analogia com “as portas de banheiros públicos”, pois está lá, em decúbito dorsal, a realidade refletida e estendida no chão virtual: “Basta dar uma navegada nos comentários publicados por internautas em toda parte, dos grandes portais jornalísticos aos blogs pessoais. Sem qualquer moderação ou cuidado por parte de seus responsáveis, boa parte dessas mensagens lembra mais as portas de banheiros em locais públicos, onde se despejam ofensas e baixarias oferecendo o que o ser humano pode produzir de pior, da intolerância ao racismo, da ignorância à total falta de civilidade.” O triste nesse todo, para nosotros, que civilidade é luz que emana da vanguarda de elite ampla, visionária e generosa, e a “nossa” elite monolítica, patrimonialista e mesquinha, tem à vanguarda, o atraso, a conduzi-la com a luz apagada na desigualdade, fonte de todas as nossas incivilidades.

  7. É isso aí Kotscho. Alguns anos atrás eu postava muito mais comentários. Hoje muito raramente. E olha que fui “pioneiro” online, quando – ainda em 1995, um ano antes da chegada da grande rede ao Brasil – participei de um BBS (Bulletin Board System), modesta rede com pouco mais de uma centena de usuários, de todas as idades, que promovia encontros quase semanais em botecos. Como chats eram complicados de se lidar, os usuários eram quase todos ligados à informática, TI nem existia como sigla. O nível era altíssimo, fiz grandes amigos e nenhum inimigo. Se por um lado a popularização de acessos permitiu muitos avanços, também chegaram os retrocessos. A civilidade sem dúvida é um destes últimos, ou melhor, a falta dela trouxe o pior. Cheguei até a cunhar um rótulo – “comentarista de blog” – e na grande maioria deles nem corro a página até os comentários, pois nem leio e não gosto. O teu é rara exceção. Uma pena, com a devida vênia do seu copyright, vida que segue…

  8. …estava ali fora agora observando o sol se pondo no poente e a lua quase cheia se elevando no leste, de lambuja, júpiter um pouco ao norte quase explodindo de alegria com a sua luminosidade reflexa, e pensando comigo: o problema da humanidade é que os homens se contentam em ser apenas homens e mulheres, humanos.Sobre esta questão da civilidade vejo um pouco diferente, costumo “passear” anônimamente pelas páginas do facebook, e encontro neles belas mensagens compartilhadas pelas pessoas, agora…quando chegamos nos espaços onde se debatem política infestados por este bando de “neovagabundos denominados coxinhas”, aí a coisa pega, pois estes “imprestáveis”, “maucaráteres”, disseminadores de mentíras, perdedores incoformados, levam a gente deixar de lado a nossa alma poética, que só os de esquerda conhecem, e como atos de solidariedade descemos-lhes o cacête pois eles adoram recebar chicotadas. ( kkkkkkkkk )…

  9. Nos blogs desabafamos ou comentamos o que não podemos fazer nas redes de rádios e tvs quando ouvimos muitos absurdos e temos que engolir a seco. A internet é um descanso para a nossa alma.

  10. Prezado Ricardo, é muito lisonjeiro ver o “Um Convite à Civilidade” ganhando menção no “Balaio do Kotscho”! Aproveito para deixar um convite, a você e aos teus leitores, para darem uma olhadinha lá na página e conferirem os “convites da semana” publicados até hoje. Aguardo vocês por lá!
    Um fortíssimo abraço 🙂

    1. Caro Michel,
      parabens pelo teu trabalho. Se cada cidadao como voce ajudar um pouco, em vez de ficarmos so reclamando, o ar vai ficar mais respiravel.
      Abracos,
      Ricardo Kotscho

  11. “”Educação vem de casa!”” Isso é um ditado que vem de muito tempo. A escola errou, quando assumiu esse encargo de “educadora”, pois é na realidade “instrutora”. A TV também assumiu esse papel mais recentemente, e isso definitivamente não fez bem nem à ela e nem ao povo, pois a TV era pra ser veiculo de informação e de entretenimento. Não podemos agora jogar essa responsabilidade de educação também para a internet. A escola não é culpada da iniciação sexual precoce, por mostrar no livro a anatomia humana, afinal como dizer aos cachorrinhos vira-latas, que coito não deve ser feito em publico? Da mesma forma, a TV não pode ser culpada, por mostrar golpes comuns nas cidades grandes e esses chegarem ao conhecimento dos malandros dos mais distantes rincões. – Civilidade então, se faz necessaria, até mesmo na internet e não somente na internet. Redes sociais, não são territorios sem Lei, pois como você mesmo disse Kotscho, existem varios mecanismos que podem conter o desrespeitos na rede. O que todos os cidadãos têm que ter, é a responsabilidade pelos seus atos, seja na vida real ou na virtual. Por isso, é preciso que tenhamos logo Leis especificas sobre os crimes na internet, para que os crimes da rede não sejam julgados pelos artigos do codigo penal. No entanto, nada, absolutamente nada, será mais eficaz do que o trato familiar. -Esses avós que mimam demais os netos, e os transformam em “pequenos ditadores”, precisam “tomar vergonha na cara”, pois estão criando cidadãos pilantras, que “batem na esposa”, que se “apropriam de dinheiro publico para fazer obras de infraestrutura em suas propriedades”, que pedem “as demissões de pais de familia que lhes cobra explicações de seus atos”; “que não respeitam as Leis de transito, dirigindo embriagados ou Drogado”, e etc. -Não são as redes sociais, que criam estes “”esquizofrênicos””, e sim a conivência e a ambição de quem os cercam. -E’ preciso que estes pilantras sejam impedidos “também” de participarem de manifestações nas redes sociais, porque Civilidade é saber ganhar e perder. Saber respeitar as regras, as Leis e a superioridade do oponente. “”A incitação ao crime, deveria ser punida sempre, seja ela feita onde for””. A imunidade parlamentar e o julgamento diferenciado para politicos, é o mau exemplo para a impunidade nas redes sociais.

  12. Foi lendo os comentários nas fanpages dos jornais no Facebook (vale dizer, que algumas postagens passam de mil comentários), que percebi como o povo brasileiro – se não o todo, mas, pelo menos, uma grande e considerável parcela – é incapaz de se unir em um momento de crise, e de brigar ferozmente por causa de politicagem: quem é pró governo hostiliza quem é contra, e quem é contra faz o mesmo. É uma guerra virtual deprimente e muito, muito danosa ao país. Se você, Kotscho, tivesse elogiado o Ricardo Setti em um desses espaços – pelo simples motivo de o jornalista trabalhar na Veja -, teriam te tripudiado além dos limites inimagináveis. E se tivesses postado as boas notícias sobre o país – que com certeza seria entendido como elogio ao governo -, a baixaria dos comentários iriam na mesma direção.

    Amanhã começa maio, o 4º mês dessa crise que sabe Deus quando vai chegar ao fim…

  13. Excelente texto, Sr. Kotscho! Pena que muitos não o apreciarão na sua essência, e preferirão abordá-lo sob aspectos que em nada condizem com a verdadeira civilidade mas sim com a cega ótica do individualismo mais exacerbado.

  14. Sr.Kotscho.
    Como é de conhecimento de todos, os sindicatos ligados aos partidos de esquerda são violentos por natureza ,pois lutam, segundo a teoria comunista, contra o grande mal que, na concepção deles é a burguesia que ,também, no entendimento dos comunistas devem ser ”exterminadas” ,assim como fizeram na União Soviética e no Camboja. Os burgueses e as classe dominantes do capitalismo não merecem respeito ,nem pena e nem respeito. Esta é regra. Tanto é Kotscho, que Marx e Engels ,teóricos fundadores do comunismo. nunca se preocuparam em refutar os oponentes com argumentos, mas os insultavam, ridicularizavam-nos e os denegriam difamando-os. Deixaram este legado aos seus seguidores. Suas polêmicas não são contra argumentos do oponente, mas contra a pessoa.

  15. Marcuse tratou da “automatização psíquica” que costuma condicionar as manifestações “instantâneas” nas redes. O pensamento exige reflexão, que raramente costuma ocorrer quando se penetra na rede para o comentário. Claro que, se o próprio pensamento expresso não dispõe do tempo necessário à maturação, que dirá a simples manifestação?! Evidentemente que a “civilidade” seria o acompanhamento adequado, mas nem sempre as paixões e idiossincrasias permitem aos comentaristas buscar o melhor uso da “culta e bela” de Camões. O aprendizado da civilidade e a urbanidade são uma estrada, muito assemelhada ao longo e espinhoso caminho que levava à Galiléia.

  16. Hoje mesmo mandei uma msg. INBOX enorme para uma pessoa que fez um comentádio indelicado numa matéria que publiquei no meu site. E no final da tarde, vi que um amigo havia publicado algo também sobre isso. Por isso peço seu Ok – publicar sua matéria junto com o comentário deste amigo. Pois é um processo educativo e infelizmente não somente para os jovens – mas população em geral. Fraternalmente, http://www.blogdobruxo.com.br

  17. Olá Ricardo! Voltei aqui para te convidar para uma palestra sobre o trabalho do “Um Convite à Civilidade”, que apresentarei na Escola São Paulo na terça-feira, 1/9, às 19:30h. A Escola São Paulo fica na R. Augusta, 2.239. Estão todos convidados — mas ficarei especialmente honrado com a tua presença!

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