O dia em que fui a Roma e não falei com Francisco

O dia em que fui a Roma e não falei com Francisco

ROMA _ Quarta-feira, 12 de novembro de 2014. Agora, no final da tarde, parou de chover e os turistas voltam a ocupar a Piazza Navona. É hora de tomar um cappuccino no Café Bernini e fazer minhas anotações de viagem.

Este é o dia da semana em que o papa Francisco, religiosamente às 10 da manhã, sempre aparece ao vivo na Praça São Pedro para a audiência pública. É a chance de poder ver de perto esta figura que, com sua simplicidade e simpatia, logo reconquistou os fiéis que andavam arredios com a igreja carrancuda de Bento 16.

Cheguei uma hora mais cedo para garantir um bom lugar. Será que ele vai me ver no meio desta gente toda? Já tem umas 10 mil pessoas amontoadas diante da Basílica de São Pedro, e não param de chegar mais peregrinos, vindos de todas as partes do mundo, circulando entre as mil colunas que circundam a praça.

O clima é de festa, apesar do céu plúmbeo e do chove-não-chove deste meio de outono em Roma. O vento frio bate cada vez mais forte e me faz buscar abrigo, enquanto o papa não vem. Sentado ao pé de uma coluna, vou me lembrando das várias semanas que passei aqui em 1978, quando era correspondente do Jornal do Brasil em Bonn, capital da então chamada Alemanha Ocidental (isto foi antes da queda do Muro, que reunificaria o país).

Naquele ano, acreditem, morreram dois papas. Primeiro, foi o Paulo 6º. Estava passando pela Itália, na volta para casa, depois de alguns dias de folga, em que aproveitei para levar a família a conhecer Portugal. Fomos de carro, mas folga é modo de dizer: assim que chegamos a Lisboa, estourou uma crise federal no governo português, que levaria à queda do gabinete do socialista Mario Soares poucos dias depois, e fui obrigado a voltar ao batente.

Com a ajuda do meu velho amigo Flávio Tavares, correspondente do concorrente Estadão, entrei de cabeça na cobertura e só reencontrava a mulher e as filhas tarde da noite no hotel. Finda a cobertura, pegamos a estrada e um dia resolvemos pernoitar em Turim. Ao acordar, encontrei a cidade deserta e silenciosa, e não era feriado nem fim de semana. Nas bancas de jornal, as manchetes davam o motivo: “O Papa morreu!”.

Deixei a família em casa e voltei de avião a Roma para me encontrar com Araújo Neto, o eterno correspondente do Jornal do Brasil na Itália, um comunista que se especializou na política vaticana. Entre os funerais de Paulo 6º e o conclave que elegeu João Paulo 1º, foram semanas sem descanso, indo todos os dias à praça de São Pedro, onde agora já começa a movimentação para a entrada triunfal do papa Francisco.

Pouco mais de um mês depois da posse de João Paulo 1º, estava novamente em Bonn, com a família e as malas prontas para voltarmos ao Brasil, como acertei com o JB, por não suportar mais a saudade e o banzo longe do meu país e dos meus amigos da padaria da esquina.

De madrugada, toca o telefone: “Volta pra Roma que o papa morreu!”. “De novo???”, perguntei espantado, sem entender o que estava acontecendo. Sim, morreu outro papa, o pacato cardeal Luciani, nascido em Canale d´Agordo, vilarejo próximo a Veneza, que não tinha suportado o peso de ocupar o trono de São Pedro, como previra seu irmão Francesco numa longa entrevista que fiz com ele. Após uma dura discussão com os cardeais que mandavam lá, João Paulo 1º recolhera-se mais cedo aos seus aposentos, e não acordou no dia seguinte.

Com minha família abrigada no modesto Albergo Cèsare, perto da Fontana de Trevi, enquanto não saía da chaminé do Vaticano a fumaça branca anunciando a eleição de João Paulo 2º, o papa polonês, que ficaria por mais de duas décadas no trono, Araújo e eu tínhamos que mandar matérias todos os dias para o jornal, mas a vida não era tão dura assim. Na “Stampa Estera”, a sala reservada aos jornalistas estrangeiros, tinha até garçon servindo vinho e cerveja. Quem nos abastecia de informações secretas e exclusivas era um cardeal brasileiro, meu velho amigo Paulo Evaristo Arns, que neste domingo agora comemora 69 anos de sacerdócio.

Quando finalmente vi Francisco nos quatro telões espalhados pela praça, na hora me lembrei de João Paulo 1º _ o mesmo jeitão de pároco do interior, acenando alegremente com ambas as mãos, bem ao contrário do seu antecessor, que mais parecia comandar um império, não uma igreja. Não fossem o manto e o solidéu brancos, o homem que ziguezagueava no papamóvel, desfilando entre o público, seria apenas mais um no meio daquela pequena multidão de fiéis, em boa parte crianças e idosos, agitando bandeirinhas das suas escolas e dos seus países. O cenário estava mais para uma alegre Disneylândia da fé do que para uma exibição de poder religioso.

Entre os peregrinos, destacavam-se três noivas vestidas a caráter, uma delas de botas e de xale, para enfrentar o frio. Músicas populares de vários países, com direito a Roberto Carlos e Cielito Lindo, animavam a plateia.

Como nos programas de auditório, auxiliares do papa vão anunciando em diferentes línguas a presença de comitivas de todos os continentes. Seis delas eram do Brasil. Tem de tudo: pessoas elegantes de chapéu e bem encasacadas, ao lado de jovens de bermuda e camiseta, todos caprichando nos selfies.

Lá vem ele, olha lá, cutucou-me a mulher, mas não teve jeito, a distância era grande. Assim passei o dia em que fui a Roma e não falei com Francisco, nem consegui tirar uma foto com ele. Fica para outra vez.

Vida que segue.

 

 

 

 

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