Botequim de 1927 mantem clima de antigamente

Botequim de 1927 mantem clima de antigamente

Fazia tempo não ia ao Botequim do Hugo, relíquia da São Paulo de antigamente, que resiste no mesmo lugar do Itaim-Bibi desde 1927, nas mãos da mesma família Cabral _  uma raridade nesta cidade sempre mutante.

Como ninguém aguenta mais falar e escrever sobre a “nova seleção” de Dunga e desta safra de pesquisas eleitorais, nem eu, quero convidar os caros leitores a embarcarem comigo numa viagem pelo túnel do tempo e assim partilhar o belo final de tarde que tive nesta quarta-feira.

Hugo é destes taberneiros por vocação, sem nenhuma vontade de aumentar a clientela e o faturamento. Para começar, o horário de funcionamento é bem limitado: abre às quatro da tarde e fecha às dez da noite, nem antes, nem depois, sem choro nem vela. Ninguém é de ferro.

Às cinco da tarde, o dono estava sentado à entrada, conversando com dois fregueses habituais. O papo sobre pescarias estava tão bom que ele nem repara quando chega mais alguém. Quem atende às mesas é sua inseparável irmã Emiliana, ambos netos de Marcelino Cabral, um português do ramo de secos e molhados.

Na cozinha, famosa pelos pasteis, só de carne, queijo e palmito, e do fantástico sanduíche “‘buraco-quente”, com carne-moída e gorgonzola, ficam a mãe, Zizi, e uma tia, Débora. É o que se chama literalmente de negócio familiar. Os Cabral nunca tiveram empregados.

Apresentados os personagens principais, vamos começar esta viagem do começo, como diria o velho Marcelino. Nos tempos em que no Itaim-Bibi só tinha conjuntos de casas geminadas, cinemas de rua e o pequeno comércio de bairro, ele abriu o Empório Cabral, onde vendia um pouco de tudo, como até hoje vemos nas cidadezinhas do interior.

As casas foram caindo e os prédios subindo naquele que se tornou um dos mais chiques, valorizados e modernos bairros de São Paulo, com suas torres de alumínio e vidro. E o portuga lá firme, tocando a vida, sem dar bola para a torcida, enquanto os filhos iam crescendo e os netos chegando. Em 1986, dois deles resolveram mudar o nome para Botequim do Hugo, mas mantiveram tudo como era, as mesmas prateleiras e balcões, só acrescentando algumas mesas e cadeiras.

O contraste entre a antiga venda e o entorno nova-iorquino foi cada vez se tornando mais chocante. Não é fácil achar o lugar, que não tem nem placa na porta e se esconde atrás de modesta fachada. O que chama a atenção para quem passa pela calçada da rua Pedroso Alvarenga é o cenário de filme mudo que se descortina por trás das duas portinhas.

Está tudo lá no mesmo lugar: gramofones, radiolas, máquinas de escrever, fotos e faixas do São Paulo Futebol Clube campeão, o time do dono e meu, uma roca, santos de todo tipo, velharias variadas, petiscos no balcão e cerveja de garrafa na geladeira, enfeitada, claro, pelo indefectível pinguim.

Nem me lembro a primeira vez em que entrei lá. Até hoje, garanto, nada mudou, a não ser a paisagem humana. À freguesia antiga, formada por vizinhos e trabalhadores mais humildes da região, jornalistas, publicitários, boêmios e vagabundos em geral, juntaram-se nos tempos mais recentes executivos engravatados, moças finas que estudam ou trabalham por perto, casais de namorados.

Como nunca morei nem trabalhei por ali, só ia ao boteco de vez em quando. Passei a ir com maior frequência quando comecei a fazer um tratamento dentário na clínica do amável casal Paula e Edgar Bastos, que fica do outro lado da calçada. O tratamento é interminável e não tenho pressa que acabe: é sempre uma boa desculpa para voltar à cidade da minha infância sem sair de São Paulo. Se você não bebe nem está com fome, vale a pena ir lá só para ouvir as histórias do Hugo e admirar o cenário.

Ficha técnica:

Botequim do Hugo. Rua Pedroso Alvarenga, 1014, Itaim-Bibi. Fone – 3079 6090. De segunda a sexta das 16 às 22 horas. Mais informações no www.botequimdohugo.com.br

Não pare na pista

Por falar em coisa boa, não percam o filme Não Pare na Pista _ A melhor história de Paulo Coelho, a cinebiografia do escritor brasileiro com mais livros vendidos em todos os tempos (165 milhões de exemplares), mais do que o Frei Betto, o Heródoto e o Chalita juntos. O filme estreia dia 14 de agosto em todo o país e prova que Paulo Coelho é, de fato, o melhor personagem de Paulo Coelho.

Tive a oportunidade de assistir à pré-estreia na abertura do Festival de Paulínia, na noite de terça-feira, e saí de lá impressionado com a qualidade do filme, um dos melhores a que assisti nos últimos muitos anos. A cachorrada  vira-lata vai dizer que é tão bem feito que nem parece filme nacional…

Mais não digo porque se trata de uma produção da minha filha Carolina Kotscho, que trabalhou mais de três anos neste projeto, e também é a autora do roteiro. Vão achar que é nepotismo _ e não é, como vocês poderão ver em breve com os próprios olhos. Carolina, como a sua irmã, a jornalista Mariana, são uma prova da evolução da espécie.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13 thoughts on “Botequim de 1927 mantem clima de antigamente

  1. Por isso que não desapego de “nosso” Balaio, Mestre, é único. Percebida praticamente encaminhada a parada política nos entre fatos, sem perder tempo, avança-se a outras coisas boas da vida, o boteco presente do passado que resgata o simples viver, seguido do orgulho saudável da melhor herança aprimorada, garantia de futuro. E “vida que segue”, mesmo tendo um Emburricy no meio do caminho, vivas ao Botequim tricolor do Hugo e ao Cinema Nacional de tua Guria, por também nos resgatarem à vida, que de fato é o que interessa.

  2. Arriscado é (tem que ter coragem), afirmar com convicção:parece até filme argentino!
    Bom,o melhor mesmo está acontecendo por trás dos bastidores. Parece que a Coudelaria Tucanos Unidos,vai ensaiar seu arriscado número circense jamais tentado:trocar de ginete em pleno galope. Parece barbada de “bookmaker”.Quem paga para ver?

    1. Tambem acho, caro Sidnei, mas como voce pode ver pelo rarefeito numero de comentarios, os leitores preferem que eu so escreva sobre politica…
      E este teclado esta com problemas, nao entram acentos…
      Abracos,
      Ricardo Kotscho

    2. A vida passa!! O tempo nos modifica em algumas coisas, porém a nossa essência permanece!! A sensibilidade de admirarmos e recordamos das coisa que tornam a vida menos chata e corrida!! As coisas que acalmam e alegram o coração!! O que realmente alimenta nossa alma de boas sensações é tão simples e não custa tanto!!

  3. Essa fotografia me deu uma saudade da venda do Nho Dito Nunes no bairro da Americana, município de Tatui. Era desse jeitinho. Hoje não existe mais.

  4. Que coisa linda Ricardo!!! Mesmo catando letras em um celularzim chines made in paraguai, perdido no litoral de Alagoas, não poderia deixar de manifestar o meu prazer em ler este testículo. É o que eu sempre disse: o Balaio é o único blog que tem alma. Tal filhas, tal pai…né não Vítor Hugo? ??

  5. “Ah!Ricardo nem tanto,*EU* não faço parte da turma que *só quer que tu fales sobre política*.”
    Sinceramente:fiquei surpresa e satisfeita que tu *também sabes falar de flores*(ou seja coisas amenas) e tambem do carinho que falas das tuas *crias*.
    Um abraço…ah! uma vez ou outra *falas de flores *também*.

  6. Car Ricardo,

    O Hugo é um clássico… por motivos anti etílicos achei que não voltaria mais, mas depois de ler seu texto vi que mesmo um abstêmio pode ser bem-vindo por lá! Abração!

    Paulo

  7. Caro Kotscho, me chamou a atenção a frase do terceiro parágrafo; Hugo é destes taberneiros por vocação, sem nenhuma vontade de aumentar a clientela e o faturamento. Esta frase espelha nitidamente a vida moderna, aquele ímpeto de que se alguem monta um negócio, a coisa tem que crescer senão não está dando lucro. Este é um aspecto economico que as pessoas citam se não há mudança no aspecto fisico do empreendimento. Prá citar que tambem não falo de coisas bucólicas portanto de flores, devo confessar que este aspecto de coisa antiga me faz voltar ao passado e tanto é que certa vez me indicaram uma pizzaria ali no Braz, exatamente na Rua Monsenhor Andrade que tem o mesmo aspecto da bodega do Hugo, pena que nào lembro o nome dela mas foi onde saboreei uma pizza bem no ponto. Este aspecto conservador, me leva a pensar que toda a mercadoria que alí é oferecida à venda, tem uma qualidade bem superior à que é oferecida num estabelecimento moderno, cheio de treque-treques como estes bares ditos lucrativos. Estes lugares me faz voltar a São Paulo dos idos de 60, quando por aqui me aportei ainda rapazinho recem chegado do interior. São Paulo daquela época me parecia bem menos poluida apesar da Av. Celso Garcia, por onde sempre passava , com seus bondes barulhentos, sempre via as fachadas dos prédios cinza por causa da poluição das centenas de onibus diesel que por ali transitava. Interessante notar que hoje, apesar de termos linha de metrô, ferrovia, e ainda onibus circulando por lá, temos ainda dificuldades de locomoção. Quem consegue subir num onibus com lugares para se sentar no horário de pico? Às vezes se conseguia sentar naqueles tempos. Muitos vão dizer; é que a população triplicou de lá até hoje e Itaquera era como uma fazenda. Sempre se culpa prefeitos por causa de transporte mas por mais que se faça nunca se vence a demanda, sempre o que é feito não resolve em definitivo o problema. A solução é descentralisar, aliás é o que tem se feito e muitas empresas deram um tcháu prá metrópole e se estabeleceram no interior mas a coisa continua num crescente, sempre aumentando o povão. Este meu comentário acabou-se por enveredar para o caminho das preocupações politicas e não adianta, ficamos como galinhas ciscando dando voltas e sempre no mesmo lugar. Bem dizem alguns filósofos, a vida é politica e vivemos sempre sob a batuta dela, não tem como fugir. Ao sairmos dela, damos um descanso e mesmo não querendo voltamos a ela. O Lula disse; gosto de politica e quem não gosta eu não gosto. Caro Kotscho e colegas, não adianta fugir, ela nos persegue onde quer que formos.

  8. Infelizmente Kotscho, pelas asneiras que andou falando antes da Copa, eu, que já não lia nada desse cara, nem passo perto dos cinemas que mostrarão sua “estória”. De mentiras e cascatas já chega as que sou obrigado a degustar…

    1. Colega Pardalzinho a sua impressão foi a mesma que eu senti sobre o Paulo Coelho, a bem da verdade não sou muito ligado a livros de biografia, romances e coisas parecidas. Como dizem alguns que o uso do cachimbo é que faz a boca torta, eu que acostumei a ler livros técnicos por causa da profissão que abracei só tenho lido ficção, futurologia e obras do gênero como hobby. Se o Paulo Coelho já escreveu sobre futurologia e congeneres me desculpe mas não sabia, não é ignorancia mas é puro desinteresse e inclusive ele passa por desconhecido prá mim. Certa vez um colega de trabalho, andando comigo pelo centro, numa travessa da Rua Conselheiro Crispiniamo me apresentou um artista de cinema e teatro de nome José Leuwgói e eu lhe disse que não o conhecia. Meu colega admirado insistiu no nome mas se assim era eu pensei ser ele um figurante e só depois de algumas citações como aquele filme do Roberto Carlos, Diamante cor de rosa me lembrei por causa dos cartazes que sempre tem na porta de entrada dos cinemas mas este filme não assisti. Mas por falar em filme bem feito apesar de ser chamado de chanchada os filmes brasileiros da Vera Cruz em matéria de qualidade de visual são imbativeis e sempre quando são anunciados eu procuro assistir principalmente comédias. O nosso grande amigo Kotscho deu a dica do filme que ela trabalha como roteirista e vou querer assistir o filme que na certa saberemos o titulo para apreciarmos a sua performance. Parabens pelas suas meninas, elas são atuantes, essas pessoas eu admiro e valorizo muito.

  9. Entre as relíquias que nos lembra o antigo botequim, um detalhe: O telefone sobre o balcão. Uma chance para que os jovens façam uma visita e fotografe os tempos dos antepassados. É lindo! Quando em Ribeirão Preto, na Av Mogiana, está uma locomotiva (maria-fumaça) com seus vagões, inclusive, um para transporte de gado, onde eu tirei umas fotos, lembrando as vezes que viajei com meus pais aquele trem da E.F. Mogiana, no vagão restaurante onde bem me lembro, havia formas fixas nas mesas suportes para se colocar as garrafas e copos. Sessenta anos atrás. Outra curiosidade é o Teatro Pedro II naquela cidade que é conservado da mesma maneira de quando estacionavam charretes e carroças enfeitadas trazendo os espectadores. Vale a pena conhecer.

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