Notícias engasgadas nos 30 anos das “Diretas Já”

Notícias engasgadas nos 30 anos das “Diretas Já”

Reforma ministerial com o PMDB querendo mais boquinhas e chantageando o governo; a polêmica dos “rolezinhos” e “rolezões” agitando a polícia e os sociólogos; mais mortes no presídio macabro de Pedrinhas; a corrupção sem corruptos nas investigações sobre o cartel do metrô paulistano; as obras inacabadas da Copa; o time do São Paulo dando vexames em diferentes categorias; o cai-não-cai da Portuguesa: antes de completar um mês de vida, 2014 já está parecendo um ano velho, começando exatamente como 2013 terminou, sem novidades capazes de emocionar os caros leitores.

É um festival daquilo que o brilhante Tutty Vasques, o Zé Simão do Estadão, chama de “notícias enguiçadas”, aquelas que giram sempre em torno do mesmo eixo e não saem do lugar. Sem que tenha surgido até agora sequer a musa do verão carioca, em sua coluna de hoje Tutty constata, sob o título “Agenda positiva”, que “o banho de espuma é a grande novidade das praias cariocas”. Descobrir a origem da espuma branca passa a ser nos próximos dias o desafio dos pauteiros do  jornalismo investigativo.

O quadro é tão desalentador para quem vive de contar novidades que o principal fato político do ano até agora foi a nomeação de Aloizio Mercadante para a Casa Civil, o que não chega a ser propriamente uma novidade. Meu amigo Aloizio desta vez ganhou por W.O., quer dizer, não tinha concorrente.

Outro coleguinha, Ilimar Franco, do Globo, garimpou esta pérola para preencher o espaço da sua coluna diária: “As reformas que o Brasil anseia (…) melhor ambiente trabalhista, maior sustentabilidade para a Previdência”. A autoria é do Instituto Teotônio Vilela, que provocou este comentário do colunista: “Texto enigmático (Reforma do Nada) distribuído pelos tucanos”.

Você pode percorrer todo o noticiário impresso ou navegar pelos portais que não sai muito disso: mais do mesmo. Agora, pelo menos vamos ter uma trégua na novela da reforma ministerial, já que a presidente Dilma vai passar uma semana fora do país e só volta no meio da semana que vem. Como os poderes Legislativo e Judiciário continuam gozando de suas merecidas férias, a tendência só é aumentar o vazio e deixar o espaço livre para as tais “notícias enguiçadas”.

Procurado por vários colegas para falar sobre os 30 anos da campanha das Diretas Já _ você percebe que está ficando velho quando dá mais entrevistas do que faz… _ me dei conta da grande diferença do clima que vivemos neste 2014 daquele que marcou a passagem de 1983 para 1984.

Mais de 70 entidades da sociedade civil e partidos políticos de oposição ao regime militar haviam se reunido durante vários meses para organizar o evento do dia 27 de novembro de 1983, em frente ao estádio do Pacaembu, que deveria marcar o lançamento da campanha das Diretas Já. Mas este primeiro ensaio fracassou, com apenas 15 mil pessoas reunidas na praça Charles Miller. Entre outros motivos, porque os partidos de oposição estavam e o movimento pelas eleições diretas para presidente da República dividiram as atenções com um ato no mesmo local contra a intervenção americana na Nicarágua e o clássico Santos e Corinthians, disputado na mesma tarde.

Apenas um mês depois, no dia 25 de janeiro de 1984, que foi um divisor de águas na nossa História, marco da redemocratização do país, agora com a oposição unida, mais de 300 mil pessoas lotaram a praça da Sé no primeiro grande comício das Diretas, que deu início ao maior movimento cívico já visto em nosso país. Com 30 anos a menos no lombo, vibrei com  o que vi e comecei deste jeito minha matéria, sob o título “Na Sé, um brado retumbante pelas diretas”:

 

“Ouviram do Ipiranga, às margens plácidas/De um povo heroico o brado retumbante.”

Nunca, antes, em sua história de 430 anos completados ontem, São Paulo viu algo igual _ centenas de milhares de pessoas, transbordando da praça da Sé para todos os lados, horas debaixo de chuva, num grito uníssono: eleições diretas para presidente.

Nunca, antes, foram tão verdadeiros os versos do nosso Hino.

O brado engasgado na garganta durante vinte anos explodiu na praça da Sé. O pranto travado correu pelos rostos de gente muito vivida, os braços se ergueram, dando-se as mãos uns aos outros, toda gente cantando junto o Hino Nacional, no encerramento deste festa pelas eleições diretas _ a maior manifestação pública a que o Brasil já assistiu”. 

 

A história completa deste e dos outros comícios que varreram o Brasil de ponta a ponta está no meu livro Explode um Novo Brasil _ Diário da Campanha das Diretas, lançado pela Editora Brasiliense, poucos dias após a derrota da Emenda das Diretas no Congresso Nacional. Naquele 21 de abril de 1984, faltaram apenas 22 votos para que os brasileiros voltassem a eleger diretamente seu presidente da República. A ditadura agonizou ainda por cinco anos, mas ali começou um novo momento da vida brasileira, o nosso mais longo período de democracia plena, Estado de Direito e respeito às liberdades públicas.

Dentro de alguns meses, teremos a sétima eleição direta para presidente após a redemocratização e nada melhor do que aproveitar esta entressafra de notícias para lembrar como tudo começou. O consagrado jornalista e escritor Laurentino Gomes (autor de 1808, 1822 e 1889)  situa neste momento de afirmação do povo brasileiro a verdadeira fundação da República, 95 anos após a Proclamação. Ali, pela primeira vez, o povo tomou o destino em suas mãos, foi o protagonista da História.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6 comentários em “Notícias engasgadas nos 30 anos das “Diretas Já”

  1. Kotscho, foram momentos inesquecíveis, uma jornada épica de um povo amordaçado que se levantou contra os generais de plantão. O ‘gigante adormecido’ acordou na emocionante campanha das diretas-já, que começou com um pequeno comício em janeiro, em frente do estádio do Pacaembu, puxado pelo PT, Viração (PCdoB), Libelu etc. O mote vista amarelo pelas diretas ganhou as ruas do Brasil. Quem viveu aqueles “dias de luta” se arrepia sempre que recorda aquela monumental mobilização nacional – e ri dessa turma reacionária que tem sempre um discurso moralista da UDN a tiracolo, mas nem desconfia qual é o significado da palavra democracia. Um viva a todos que foram às ruas pela redemocratização do Brasil!

  2. Realmente não só engasgadas, mas, empacadas, encalhadas…Estamos vendo a destruição se tornando sinônimo de protesto, vandalismo furtos e roubos se tornando motivos de diversão de jovens, lúdicos modelos de se extravasar por falta de espaço…etc. Se queima ônibus como se nada de mal estivessem cometendo, … temos uma polícia formada em direita, esquerda volver, ordinário marche…Parece que os responsáveis pela ordem pública estão ”dando corda” para que a coisa se banalize e ter motivos para que se volte à era da ditadura, para que o direito da força se sobreponha à força direito…esse direito, licenciosidade, já está mostrando o triste retorno que vai proporcionar. Destruição, imoralidade, corrupção, não constrói nada.

  3. Este povo lutou tanto pela democracia e agora que a tem não dá o devido valor. Quando digo ”povo”, estou inserindo todas as classes sociais, inclusive autoridades.

  4. “Mas este primeiro ensaio fracassou, com apenas 15 mil pessoas reunidas na praça Charles Miller.” Fracassou, como assim, mestre balaieiro? Esse comício, tendo por palanque a carroceria de um caminhão e o povo (substancialmente formado por petistas) de costas à entrada do estádio, foi realizado praticamente com esforços apenas do PT, pois havia um movimento na oposição (praticamente o PMDB) para resolver o assunto nas indiretas, sem o povo, contando com a cooptação de setores do PFL para elegerem Tancredo (o que acabou acontecendo), e mesmo sem grande divulgação reuniu uma multidão que assustou essa turma do PMDB, que engajou-se no movimento a partir do comício de Curitiba, alguns dias depois, quando 50.000 pessoas confirmaram que a largada no Pacaembu tinha sido um sucesso. O movimento das diretas, com o PT na linha de frente, prosseguiu e no decorrer da campanha a turma das indiretas (percebendo a vontade autônoma das massas e não desejando trocar o certo pelo improvável) puxou a solução para os bastidores, esvaziando o movimento, a ponto de cancelarem o último comício no Anhangabaú, que só foi realizado graças a insuportável pressão exercida pelo PT e sua militância. No final eles venceram nos bastidores e nos gabinetes, garantindo a transieleição indireta, sem sobressaltos e com garantias, de Tancredo, que apressado comeu cru, não conseguindo concretizar o sonho de ser presidente do Brasil. Acabou “sendo”, sem nunca ter sido, por sinal merecidamente. Agora vem o neto tentar a mesma vaga e, repetindo o avô, morrerá sem nunca ter sido, também merecidamente.

  5. Se for indagar a cada brasileiro a respeito das diretas já, ouviremos muitas opiniões controversas, principalmente agora que assistimos a esta politica onde ficou desmistificado que foi naquela época e quem é agora em 2014. Naquela época subiram no palanque improvisado dancarroceria de um caminhão um Lula, na época um sindicalista, um FHC na época um sociólogo e hoje um elitista, um Ulisses Guimarães, um Franco Montoro e outros. Interessante é que o tempo este dismistificador infalivel tratou de derrubar as facetas de muitos viras-folhas. Quem diria que o pedaço do PMDB se transformaria neste PSDB reconhecido como um membro da antiga UDN, PFL, ARENA? Fieis à ideologia com caracteristica mais sobria só sobrou o PT, até o PSB está tombando para o lado da elite, quem diria! Um fato novo e relevante foi saida dos irmãos Cid e Ciro Gomes provando que estão inrraizados dentro da sua formação trabalhista. Do outro lado, só para cintrariar, fivemos um citado comunista no seu PPS totalmente descaracterizado do comunismo embora não exista mais nem na ilha dos irmãos Castro, do Chê Guevara a Cuba tão odiada, o Sr. Freire, hoje na mesma trilha do PSDB da elite fascista. Aí está caro Democrata Kotscho muitas duvidas como perguntas que esta comemoração dos 30 anos das Diretas Já, faz. É….vivendo e aprendendo com o tempo!

  6. talvez precisemos de mais tempo que os 30 anos decorridos desde 1984 ou os 23 passados desde 1989. Pra solidificar bem a cultura democratica. o vizinho Chile, que teve mais ‘sorte’ historica, antes de Pinochet ja tinha mais de 100 ininterruptos.

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