De Barra do Chapéu a Diamantina, um outro Brasil

De Barra do Chapéu a Diamantina, um outro Brasil

Manhã de sábado, começo de primavera. De volta a São Paulo após uma maratona de viagens, que me levaram à pequena e pacata Barra do Chapéu, no Vale do Ribeira paulista, e depois  a Diamantina, a histórica cidade onde nasceu JK, porta de entrada para o mineiro Vale do Jequitinhonha, dou-me conta, mais uma vez, de como o Brasil é não só muito grande, mas nele coabitam vários países, povos e costumes, que são a grande riqueza da nossa terra, longe dos gabinetes, dos tribunais e das redações.

Rodei mais de 1.600 quilômetros de carro por estradas quase todas boas, algumas em obras e outras precisando delas. Por coincidência, o Ribeira e o Jequitinhonha são duas terras que já foram conhecidas no passado por sua extrema pobreza, chamadas de “Vales da fome”, nos tempos em que escrevia longas reportagens para o “Estadão”, nos anos 70 do século passado.

Não que agora tenham se transformado de uma hora para outra em “vales da fartura”, onde jorram mel e dinheiro, mas pelos lugares por onde passei não encontrei mais gente faminta e vestida com andrajos, ao contrário. Encontrei a maioria das pessoas felizes com a vida que estão levando e orgulhosas dos lugares onde moram. Diamantina, para mim a mais bela e bem conservada das chamadas cidades históricas de Minas, embora fique a meio caminho entre Belo Horizonte e Brasília, cuida de assuntos bem diversos.

Na quarta-feira, por exemplo, para saber o resultado do voto de Celso de Mello, que não surpreendeu a ninguém e reabriu o julgamento do mensalão, tive que perguntar para muita gente que não tinha o menor interesse no assunto até descobrir o que fora decidido em Brasília.

Nem mesmo nos dois debates de que participei no 2 º Festival de História em Diamantina no dia seguinte, diante de seletas plateias de historiadores, pesquisadores, professores e jornalistas, os participantes me indagaram a respeito, preferindo tratar de outros temas da nossa história recente, como as relações da mídia com a ditadura militar.

Tampouco a não ida da presidente Dilma Rousseff para a viagem oficial aos Estados Unidos em outubro, outro assunto que dominou o noticiário nos dias em que estive fora, entrou na pauta das minhas conversas neste outro Brasil, que continua levando sua vida sem maiores atropelos, muito mais preocupado com a organização da “vesperata”, uma nova versão das célebres serenatas da terra de JK, agora com os papéis invertidos: nas tardes de sábado, os menestréis aparecem cantando nas janelas dos velhos casarões coloniais e o público fica lá embaixo, nas ruas de calçamento com pedras capistranas, junto com o maestro.

Estas pequenas mudanças na vida nacional, tão importantes para quem habita o Brasil real, a gente só descobre indo lá, assim como é zero este ano, até agora, a taxa de mortalidade infantil em Barra do Chapéu, a cidade do Estado de São Paulo que proporcionalmente mais tem famílias beneficiadas com a Bolsa Família.

Na viagem de volta, fiquei pensando se não seria o caso de organizar uma excursão dos principais jornalistas de Brasília por estas novas realidades do Brasilzão velho de guerra, para ver se muda um pouco o disco do permanente clima de crise do fim do mundo que assola o país nas novas e nas velhas mídias, como se fosse impossível vivermos amanhãs mais venturosos e calmos, em que as crianças tenham saúde e os seresteiros possam cantar sem medo nas janelas das nossas cidades.

Bom final de semana a todos.

 

 

16 thoughts on “De Barra do Chapéu a Diamantina, um outro Brasil

  1. Veja caro Kotscho que o Brasil “real” não está tão longe, pode-se vê-lo em São Paulo mesmo… Na pesquisa feita pela sua Datafolha para gerar uma manchete anti-PT (que gritava na Capa da quinta passada que a maioria dos paulistanos era contra os embargos…) a própria Folha reconhecia (no corpo da matéria…) que apenas 16% deles tinha pleno conhecimento sobre o assunto. Ou seja, nobre repórter…Nem precisa ir até a Barra do Chapéu para ver que o universo midiático é uma grande mentira e que, no duro mesmo, como outros “mundinhos”, gravitam em torno do próprio umbigo e dos próprios interesses.

  2. Estava com saudades desses textos de quando vc escreve sobre suas viagens. Eles são tão arejados e cheios de “bons ventos” (e boas novas).

    Para o pessoal da capital paulista, um jeito de descobrir um pouco da riqueza do país sem sair da cidade é visitar o “Revelando São Paulo”, que vai até este domingo.

    Bom fim de semana pra vc!

  3. Porque o Lula é querido pela maioria da população?Exatamente por conhecer esse Brasil que vc “visitou”. Esse Brasil que os repórteres de aquários e os que “pesquisam” por telefone para fazer reportagens,não conhecem.Jornais do interior,a maioria deles,se tornaram papagaios da grande mídia,por isso estão morrendo a mingua. Ao assistir pela NBR a Dilma inaugurando trecho da Ferronorte, me veio a mente as viagens do Lula Brasil afora para falar direto coma população. Se a Dilma continuar fechada dentro do Palácio do Planalto, evitando ir as ruas falar com a população como fazia o Lula, sua campanha pela reeleição será muito mais dificultosa.

  4. Quanto a SP do Sul ( Barra do Chapéu à bordo), porém, o velho “Ramal do Fome”, para o qual vc, heroicamente, ajudou a chamar atenção através de memoráveis reportagens, inclusive via “Jornal do Brasil”, o governo tucano (32 anos mandando em SP, desde Montoro, 1982/2014), não obstante pressionado pelo heróico Movimento SP do Sul, ainda está deixando muito a desejar ( Serra da Macada continua intransitável, Apiaí/Ribeirão Branco continua sem asfalto, Campina do Monte Alegre/Burí continua intransitável, Raposo Tavares de Ourinhos a Itapetininga continua uma lástima, abandonada e nem sequer duplicada, e por aí vai, o descalabro administrativo do PSDB em SP). No mais, diz o povo que de médico e de louco todo o mundo tem um pouco, e que cada louco tem as suas manias e delírios. Eu, com a minha maluquez, como disse o “Maluco Beleza”, Raul Seixas, respeitando as maluquices do Lula Miranda, do Leonardo Attuch (servindo a dois senhores ao mesmo tempo), e Josias de Souza Marineiro, entre muitos outros articulistas que já têm as suas candidaturas preferidas, prefiro continuar Sonhando e acreditando que o HoMeM do Mapa a Mina do bem comum do povo brasileiro ( se o Companheiro Ivan Valente ajudar, como o HMM o ajudou desde a sua primeira eleição), ainda vai conseguir virar o jogo, dar a volta por cima, e vencer o velho continuísmo da mesmice das velhas heranças malditas, e nos convencer de que o melhor a fazermos neste momento histórico, é optarmos pela paz, amor, perdão, conciliação, união e mobilização em torno da Mega-Solução (RPL-PNBC-ME), A Revolução Pacífica do Leão, o Novo Caminho de Verdade para o Novo Brasil de Verdade, porque evoluir é preciso, por 100 anos de prosperidade, alegria e felicidade para o sofrido povo brasileiro, que, com a RPL-PNBC-ME, pode mais, muito mais, inclusive conquistar o IDH número 1 do Planeta Terra. Conheça você tb A Revolução Pacífica do Leão. É Nova, é Boa, é a Número 1, desce redonda e sobe lúcida. Tudo isso porque acredito no MMilagre da multiplicação dos pães, dos peixes e das oportunidades à moda brasileira, porque o Papa Francisco é Nosso, porque Deus é brasileiro, porque os excluídos e humilhados serão exaltados, porque os últimos serão os primeiros , porque sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor e não desisto nunca, e, sobretudo, porque se o Bicho não pegar em 2014, nada irá mudar de Verdade neste país. E quem viver verá. Tenho dito.

  5. O PSDB pensa que o povo é retardado, querem empurrar goela abaixo dos brasileiros, com o devido apoio de uma mídia golpista, o retrato de um Brasil pobre e fracassado. Os números não mentem, e todos eles apontam que na gestão do PT o país só cresce. Quem lê a Veja, Folha, Estado ou assiste a Globo tem a impressão que o Brasil é um dos países mais miseráveis do mundo, onde as pessoas morrem de fome e no abandono. E as declarações do pateta do Aécio? Parece que aquele lá vive constantemente bêbado, é impressionante só fala asneira! Dilma tem que ir mais a tv mostrar o quanto o país evolui e o quanto ainda pode evoluir, dá um basta nesses urubus, presidenta!!!

  6. Não tem jeito Kotscho, como já dizia o saudoso Antônio Carlos Brasileiro, eles invejam o sucesso alheio, não querem que o Brasil de certo para todos e não apenas para eles. O Brasil acaba com a Casa Grande ou a Casa Grande acaba com o Brasil. Simples assim!

  7. …e é porque voce não conheceu o Xibiu, um gaguinho que conheci lá em Itaparica, mas vai conhece-lo.
    Há uns dezessete dias, deixei aqui num comentário que ia dar um rolé ( rally abaianado ) pelo nosso querido nordeste. Faço isto vez por outra
    para sentir o Brasil descoberto por LULA, só um besta sacramentado deixa da andar por nosso lindo país, conversar com nossa bela gente, para ir a Miami ou Nova York, comer rotidog e cheirar peido de gringo em elevador. O caba pode até ser besta, de graça, mas, pagar pra sê-lo, e em dólar, é ser besta demais.
    Pois é, voltando ao Xibiu.
    Na Ilha de Itaparica há dois municípios. o de Itaparica e o de Vera Cruz. Fiquei numa pousadinha maneira, a Fundo de Quintal, em Mar Grande município de Vera Cruz. Na quarta-feira resolvi passar o dia em Ponta de Areia, em Itaparica. Ao ir almoçar no restaurante do Negão, peguei uma ruazinha sem saída e, ao parar o carro para dar meia-volta, surge o Xibiu.Figuraça, magro, uns dentes bonitos, fisonomia de quem não vê a rede Globo e nunca ouviu falar de Merval ou Azevedo. Chegou na janela do carro e:
    -Dotô ! Pode me dar uns minutim ?
    -Pois não meu fii
    -É que minha mulé quer ir em Salvador e eu preciso de cinco real pra ela pegá o ferry boat. Não sou pedinte. O sinhô não quer me comprar a metade de uma rapadura ???
    …o que não faz um homem pra agradar uma mulher, quando ele me propos vender a metade de uma rapadura, conclui que, depois de sua nega, o que ele mais gostava era de rapadura, pois só queria vender a metade. Olhei pro Xibiu e me deu uma vontade imensa de dar um abraço naquela linda criatura.
    -Rapaiz eu tô com os dentes moles, posso acabar ficando banguela comendo esta rapadura !
    -Tem nada não. O sinhô rapa com uma faca joga num copo d´agua gelada, que o sinhô vai tê uma ótima garapa. Se o sinhô quizé eu lhe entrego rapada.
    Pensei, ser petralha é uma beleza, só quem tem a alma de petralha consegue ver a poesia que há nestes encontros. Pensei, não vou doá-lo o dinheiro porque êle não é um necessitado, é um lindo brasileiro, vendendo a metade de sua rapadura, para agradar a sua prêta.
    Derrepente me surgiu uma idéia…
    – Rapaiz…vou comprar a sua rapadura, e vou dar dez real, pois você não vai entregá-la para mim, mas, para um véim por nome de Ricardo Kotscho que a qualquer dia vai aparecer por aqui lhe procurando para pegá-la…falô ??? Pra você saber quem é, ele vai chegar perto de você e dizer: – Xibiu ! Cadê a minha rapadura ???
    – Pode ficar tranquilo dotô…diga a ele que estou na porta da igrejinha de São Lourenço o esperando…escuta aí… será que ele gosta de farinha ??? Farinha de Nazaré ( terra do Vanpeta ), a melhor farinha do muuuundo.
    Realmente, como a farinha de Nazaré não há igual. Acho que o papa Francisco, deveria adotar uma colherada da farinha de Nazaré em lugar das hóstias.
    -Feito Xibiu…toque aqui, peguei em sua mão calejada, e dei-lhe um grande abraço. A fisionomia do Xibiu ficou marcada em minhas memórias.
    Tá vendo porque eu disse que que tú vai ter que conhecê-lo. Tú não vai deixar o Xibiu, morrer de cócoras na porta da igreja de São Lourenço te esperando !!! Com a metade de uma rapadura e um saco de farinha !!! Né não ???
    Vitor Hugo !!! Bom dia meu nêgo !!!

  8. Ricardo…tô procurando um investidor, um caba que queira ficar ainda mais rico, para nos associarmos em um investimento, êle se chama Daniel. O Daniel é um moleque que tem doze anos, e vende cocada na praia de Mar Grande, só que não é um vendedor qualquer.
    Olha só a técnica do Daniel.
    Êle chega numa mesa, procura logo as mulheres, intuitivamente sabe que as mulheres é que mandam nos homens, pega em suas mãos, dá um beijo respeitoso , e só depois oferece suas cocadas. É quase impossível resistir.
    Vendo a criatividade do moleque, o chamei para um canto e disse:
    -Rapaiz, você já é o máximo, mas…vamos melhorar, falô ??? Seguinte…logo que tu beijar as mãos das mulheres, tu oferece as tuas cocadas e diz:” Mais doce que os lábios da pessoa amada”. Até diabéticas vão comprar tuas cocadas.
    Ricardo, o moleque né besta nâo, em menos de dez minutos êle voltou com apenas uma cocada na bandeja, tocou em minhas costas e disse:
    -Dotô esta é pro sinhô, ” mais doce que os lábios da pessoa amada “. Pode ???
    Me veio agora, lágrimas nos olhos, ao lembrar do Daniel.
    VIVA O BRASIL….de LULA e DILMA…é claro. Xô urubus…

  9. Kostcho, pois é. Essa semana, foi um verdadeiro BOMBARDEIO, da imagem do Aecio Neves na TV. Não sei se o Aecio, até o final da campanha, vai ter superado o Lula ou não, em numero de viagens; mas dá pra ver que ele está viajando demais. Meu chamou a atenção nas inserções do PSDB na TV, em que o Aecio aparece falando do nordeste. Seria bom então o Aecio neves dizer o que ele fez no Vale do Jequitinhonha-MG, quando era governador de Minas Gerais, que o faz pensar que ele tenha experiencia pra resolver os problemas lá do nordeste, visto que o Vale do Jequitinhonha, apresenta os mesmos problemas da região nordeste do País?

  10. Caro Ricardo Kotscho. Fico muito contente quando leio uma noticia como esta. Realmente os povos das regiões pobres do país já não passam fome e as crianças são robustas e bem vestidas. Me lembro que numa de suas ultimas crônica no jornal Estadão a escritora cearense Raquel de Queiros. Escreveu… Da pena ver a pobreza em que vive o povo nordestino. Antigamente o povo plantava algodão. Hoje nem algodão eles plantam mais. Eles não precisam plantar. em cada residência pelo menos um da família recebe aposentadoria rural. Os filhos recebem o bolsa escola. recebem cestas de alimentos doadas pelas igrejas e instituição de caridade. Moram em uma casa caindo aos pedaços. O mato chega até a porta. Nem um pé de frutas no quintal eles plantam. cada família tem vários filhos, todos magrinhos, sujos e maltrapilhos que eles fazem questão de coloca-los a frente das câmeras para chamar a atenção do povo…. Essa situação realmente mudou. Hoje ninguém passa fome e as crianças são saudáveis mas. A pobreza continua. Não houve investimento para melhorar a economia das regiões pobres. Os jovens nordestinos continuam vindo para São Paulo para ganhar um pouquinho mais e. Muitas vezes sacrificam suas próprias vidas como aconteceu a alguns dias em São Paulo onde aquele prédio em construção caiu e matou oito jovens nordestinos, do Piaui e Maranhão. É preciso investir no desenvolvimento econômico e social de todas as regiões pobres do país. Só assim as desigualdades realmente desaparecem.

    1. Caro J. Leite,
      lamento te dizer mas a tua afirmação de que os jovens nordestinos continuam vindo para São Paulo não é verdadeira. Só diz isso quem não vai ao Nordeste há muito tempo. Não só cada vez menos jovens nordestinos vêm para São Paulo, porque agora lá tem escola e trabalho, mas muitos nordestinos daqui estão voltando para as suas terras. Você não vai ler isso na imprensa, mas esta é a realidade que encontramos ao ver de perto a realidade brasileira. Os tempos mudaram e só a nossa mídia não viu.
      Abraços,
      Ricardo Kotscho

  11. Caro Ricardo Kotscho. Realmente eu não vou ao nordeste com tanta frequência quanto a você. E quando vou é em viagem de turismo. Só vejo as coisas maravilhosas do nordeste mas. Não é preciso ir ao nordeste para saber que o jovem nordestino continua saindo de suas terras para trabalhar. As obras do metrô paulista é construída por jovens nordestinos. Continuam vindo cortar cana no interior paulista. colher frutas em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Basta dar uma olhadinha nas grandes favelas nas grandes cidades e verá que 90% dos moradores são nordestinos que saem de suas terras em busca de vidas melhores em outras terras. Essa situação só vai mudar com investimentos em tecnologia agrícola para o pequeno produtor nordestino produzir mais e tornar atrativo a permanência dos jovens nordestino no campo.

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