30 anos de luta por água limpa na roça

30 anos de luta por água limpa na roça

PORANGABA _ Para quem já nasceu em casa com água encanada e energia elétrica, pode parecer uma bobagem o que vou contar sobre a festa da “inauguração da água” neste domingo, no bairro dos Ferinos, em Porangaba, a menos de duas horas de carro de São Paulo.

Sou um ser urbano, mas, como tantos brasileiros, sempre sonhei em ter um pedaço de terra na roça. Cada vez que ia fazer uma reportagem no interiorzão do País, e foram centenas, mais pensava nisso. Ficava caçando anúncios nos jornais e, nas folgas de fim de semana, ia com a família ver sítios à venda em diferentes regiões.

No final dos anos 1970, um pequeno anúncio publicado nos classificados do Estadão me levou a um sítio abandonado, entre Porangaba e Bofete, bem na época em que estava lendo Os Parceiros do Rio Bonito, do professor Antonio Cândido, um dos grandes clássicos da sociologia brasileira.

Nas pesquisas para o livro, no começo da segunda metade do século passado, Cândido já encontrou aqui, às margens dos rios Bonito e Feio, uma população rural decadente, cidades diminuindo de população, o povo migrando para centros maiores em busca de uma vida melhor.

O cenário que encontrei, de fato, não era dos mais animadores: a estrada de terra se tornava intransitável nos dias de chuva, a centenária casa de taipa estava caindo aos pedaços e, em volta, nenhuma árvore ou plantação, um deserto. Não tinha água nem luz.

Os antigos donos sobreviviam vendendo lenha para a padaria de Porangaba. Quando a última árvore foi derrubada, resolveram vender a propriedade por um preço bem camarada. Era minha chance de fincar um pé na terra.

Acertei a compra na hora, sem assinar qualquer papel ou pagar um sinal. Demorei a voltar para fechar o negócio porque uma reportagem me levou a passar algumas semanas na Transamazônica que, na semana passada, por sinal, completou 40 anos. Outros interessados apareceram, mas os irmãos Silvano e Laurindo mantiveram o compromisso assumido comigo. Era o tal do fio de bigode.

Assim me tornei um pequeno sitiante e comecei a querer mudar a paisagem, como fazem todos os neófitos no ramo. Graças ao trabalho do incansável caseiro Zé Telles, que está comigo até hoje, e da Mara, minha mulher, plantamos milhares de árvores, fizemos lavouras de arroz, feijão e milho, criamos um gadinho leiteiro, porcos e galinhas, abrimos lagos, erguemos mais duas casas, e assim foi.

Primeiro, batalhei para que asfaltassem a estrada entre Porangaba e Bofete, ainda nos tempos de Paulo Maluf governador. Depois, fui atrás da energia elétrica, que acabou beneficiando todos os vizinhos, muitos deles urbanos como eu, que compraram as terras dos antigos lavradores.

Só ficou faltando a água encanada. Durante 30 anos, percorremos gabinetes da prefeitura, do Estado e da Sabesp. Recebemos promessas de todos os candidatos a prefeito e vereador, fizemos abaixo-assinados, orçamentos, projetos, tudo para nada.

Quando eu já havia perdido a esperança de um dia sair água limpa das torneiras, foi morar no Bairro dos Ferinos a grande figura do Zé Maria, um pedreiro aposentado que cuidou por muito tempo da fazenda da família de Ayrton Senna, em Tatuí, na região da Grande Porangaba.

Zé Maria começou tudo de novo. Para encurtar a história, em menos de seis meses ele conseguiu a bendita água encanada, graças ao empenho do prefeito Luiz do Deraldo, que não havia prometido nada, e de Edivaldo Peres, gerente de operações da Sabesp na cidade.

Vocês precisavam ter visto a alegria que foi quando jorrou água limpa de um cano junto ao telhado da casa do Zé Maria, que convidou todo o bairro para um churrasco, com direito a um banho coletivo. Era verdade: a água, finalmente, chegou!

Muitos vizinhos nasceram ali, às margens do Rio Bonito, e não se conformavam com as tubulações que passavam ao lado para abastecer a cidade, eles que nunca tiveram água tratada em casa, como antes também não tinham luz elétrica. Alguns vizinhos tinham velhos poços, outros puxavam água de um lago do meu sítio, mas era barrenta, não servia para cozinhar. Com metade dos seus 8 mil habitantes morando na zona rural, ainda tem muito bairro sem água tratada em Porangaba, tão perto de São Paulo, tão longe do que chamam de civilização.

Se o Brasil tivesse mais gente como o velho Zé Maria, que vai à luta em vez de ficar reclamando da vida, certamente acabaria o problema da falta d´água pelo Brasil afora _ e de muitas outras coisas. Demora um pouco, mas a gente acaba conquistando o direito à cidadania e à agua boa.

16 thoughts on “30 anos de luta por água limpa na roça

  1. Caro Kotscho, sou assessor de comunicação da Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de SP. Minha função me leva a diversos eventos pelo interior e você descreveu com perfeição o que vi quando fomos a inauguração de uma Estação de Tratamento de Água em um bairro rural de Capão Bonito. É uma alegria só. Inimaginável para quem mora na cidade. Escrevo para parabenizá-lo pelo texto e agradecer o espaço dedicado ao saneamento, por si só um tema esquecido, mais ainda na zona rural. Aproveito para informar que dentro dos esforços para universalizar o serviços de saneamento no Estado, ano passado foi criado um programa chamado Água é Vida que vai levar saneamento para comunidades isoladas, principalmente na zona rural. Esse programa teve início no Vale do Ribeira e Alto Paranapanema, que apresentam os índices de desenvolvimento mais baixos do Estado, mas em breve deve chegar nas outras regiões. Esperamos, portanto, que cenas como a que você descreveu se tornem rotineiras.

  2. Caro Kotscho,
    Desculpe, mas meu comentário não tem nada a ver com sua postagem. Eu gostaria muito, até pela proximidade de que você desfruta junto ao Presidente Lula, de saber sua opinião sobre a grave denúncia feita por Gilmar Mendes de que teria sido chantageado para postergar a votação do processo do “mensalão” em troca de blindagem na CPMI do Cachoeira.
    Estou, até agora, muito intrigado com essa história e acho que Lula deveria vir a público manifestar-se sobre ela; o ex-Ministro Nelson Jobim a negou peremptoriamente.
    Como alguém pode sofrer uma acusação dessas e ficar calado. Já diz o velho ditado: “quem cala, consente.”
    Um abraço

    1. Caro Ruy,
      ainda não consegui falar com o ex-presidente Lula. Só tratarei do assunto quando falar com ele. Não vou endossar versões publicadas por veículos sem credibilidade com denúncias jamais comprovadas.

      Abraços,
      Ricardo Kotscho

  3. Ainda falta muito para nos considerarmos um país de primeiro mundo. Saúde, educação, saneamento, cultura, não tem sido prioritários nas realizações de governos em quaisquer esferas. Só se fala nisso em campanhas políticas. Quando os candidatos assumem os governos de quaisquer esferas, não se preocupam mais com o assunto. Se um estado como São Paulo ainda tem regiões em municípios do interior não servidos por água da SABESP, imaginem em estados mais pobres qual é a realidade. Só para complementar o comentário do balaieiro Ruy Marcondes Garcia, fiquei pasmo com essa história da VEJA. Se não houver um pronunciamento urgente do Lula a esse respeito, esse assunto vai assumir proporções cujas consequências serão imprevisíveis. Se não houver comprovação do que foi denunciado pela VEJA, realmente serei obrigado a concordar com alguns balaieiros sobre o limite entre liberdade de imprensa e respeito ao cidadão. Muito grave essa denúncia.

  4. Kotscho, parabéns pela água, mas é lamentável que ainda tenhamos otários que ainda acreditam na famigerada Veja, mesmo depois do escandaloso esquema de corrupção da quadrilha Demóstenes/Policarpo/Cachoeira. E o mais esdrúxulo é que um tucanóide não confiam em outro, pois Nelson Jobim que já desmentiu tudo. E durma com um barulho desses !!!!

  5. Obrigado por sua resposta. Quero deixar claro que a considero a versão da revista Veja totalmente inverossímil. O que estava me intrigando era a falta de uma manifestação clara de Lula a respeito do assunto. Mas acabo de ver que sua assessoria já divulgou uma nota a respeito, o que deixa a todos nós menos ansiosos e com a certeza de que se trata de um ato de desespero de pessoas que conspiram, ainda impunemente, contra a democracia e os avanços progressistas dos governos de Lula e Dilma.

  6. Victor Hugo, voce realmente vai ficar sem dormir porque o barulho vai aumentar uma barbaridade se o Lula, ao invés de uma notinha como a que foi divulgada por sua assessoria, não tomar uma medida judicial mais drástica contra a revista VEJA. Essa revista tem uma tiragem de de quase 1.500.000 de exemplares semanais, sendo mais de 1.000.000 apenas de assinantes. Se considerarmos o efeito multiplicador que a notícia já ocasionou em outros veículos veremos que o numero de pessoas que tomaram ou tomarão conhecimento dessa “denuncia” será imenso. Se o Lula não partir para o ataque com tudo que a lei lhe faculta não vai haver Lexotan que vai te fazer dormir porque o barulho será ensurdecedor. Nunca subestime os estragos que a mídia pode causar a governos, partidos, empresas, pessoas etc. O mínimo que eu espero do Lula é uma atitude rigorosa e drástica dentro de parâmetros legais contra a VEJA e contra o Gilmar Mendes. Aliás esse último (que já foi pego na mentira com a história das escutas no STF que causou a demissão do então chefe da Abin delegado Paulo Lacerda com uma folha de serviços, até então, impecável) voltou a afirmar hoje 2a feira que foi “pressionado” pelo Lula. Não tente enganar a si próprio sobre esse assunto dizendo só “otários ainda acreditam na famigerada VEJA”. Voce não acredita, eu também não (a não ser que ela comprove a denuncia) mas muita gente acredita. Um abraço.

  7. Boa noite Ricardo!
    Boa noite amigos balaieiros!

    Impressionante saber que estamos em um país onde esse problema da água ainda é…problema! Outros países irrigam seus desertos, já até transportaram icebergs pelo oceano, dessalinizam a água do mar, constroem aquedutos, enfim, procuram resolver seus sistemas de forma a beneficiar a todos. Até na antiguidade, impérios construiram verdadeiras obras de engenharia para transpor vales e montanhas em aquedutos de pedra, perfuraram montanhas e enormes arcos foram edificados só para isso, trazendo o líquido de distâncias homéricas para a época. Já aqui, temos água por todos os lados, em cima, em baixo, dos lados, mas não conseguimos resolver o problema.
    O nordeste que desde a época de D pedro II, continua sendo uma questão “de honra”. Mas quem diria que mesmo em cidades tão próximas da fartura, ainda ocorra esse descaso. Água é vida! Parabéns a vocês por terem conseguido resolver essa questão.

    Robson de Oliveira

    http://ecoblog-blogeco.blogspot.com.br/

  8. Parabéns Jornalista RIcardo Kotcho,realizasse o sonho brasileiro.
    da pra ver na fóto a alegria do seu povo humilde cidadães da roça.
    gente buena uma barbaridade.
    de amizade tão simples singéla e pura.e são estas raridades da vida
    gente simples,nos toca tão profundo na alma o seu reconhecimento.
    com olhares deles de encanto e alegria por estar tão pertinho de você Ricardo kotcho pelo menos no fim de semana com as pessoas que te amam e te adoram de verdade.
    gente boa com ares de paz.
    parabéns!
    sabe,isso não tem preço esta tão digna honrada amizade.
    acho isto muitissimo gratificante.
    é uma bela notícia nos dias de hoje,onde a triste violência câmpea.
    q bom agora com agúa em abundancia fica muito mais verde o sitio.
    é verdadeiro o ditado”nos pequenos gestos se faz grandes amigos”.

    ATT-João Batista Da Silva
    SulPampa.blogspot.com

  9. A casa está comecando a cair…parece uma paródia da série de terror “Hellraiser”…depois que abriu a “caixinha”, nao tem mais volta…”Pinhead” virá do inferno para pegá-lo….Lula abriu a “caixinha”…

  10. Acorda, Kotscho… O mundo vindo abaixo por conta das contínuas baixarias de Gilmarzão Dantas e os Civitas e você sentado em cima da água da roça? Tudo bem, é um tema relevante, mas… jornalismo é momento. Obrigado.

  11. Enquanto isso na sala de JUSTIÇA…Lula se reune com ex-ministro da justiça e o atual membro do STF, para ditar o funcionamento do julgamento do mensalão

  12. Caro Ricardo… estava presente na comemoração da água, e só tenho a agradecer seus esforços por tudo que foi feito até hoje, e também ao seu Zé Maria, homem muito simples e humilde, Obrigado a todos!

  13. Parabéns pela constatação jornalística sobre a “chegada da água” no referido bairro, querido e admirável Ricardo, grande ícone do jornalismo brasileiro e do município porangabense. Mas como vereador em Porangaba, e fiscal dos atos do executivo, tenho por obrigação em usar do seu espaço para esclarecer a todos leitores/cidadãos que a “chegada” da água no referido bairro da zona rural, não é fruto de nenhum “milagre” ou esforço político (do pref. Luiz do Deraldo) nem administrativo (do Gerente da Sabesp Edivaldo). O que acontece, e afirmo categoricamente, que há um contrato (embora alguns distorçam e queiram divagar sobre…) de renovação de concessão do uso da água no município de Porangaba, em que a autarquia Sabesp, se obriga (por força contratual) em fazer investimentos da monta de cerca de 20 milhões de reais, em vários serviços, incluindo, em outras palavras, EXPANSÃO DA REDE DE ÁGUA NA ZONA RURAL, sendo portanto, tal ato de divulgação, mero ato de promoção política, o qual lamento que Vossa senhoria, tenha sido (afirmo novamente) vítima. Para maiores esclarecimentos, estou à disposição. Grande e fraternal abraço, do seu sempre admirador, Wendell.

  14. Favor me explicar porque o senhor Luiz do Deraldo quando prefeito não fez nada pela cidade e agora que estamos a beira de uma nova eleição para prefeito de nosso municipio ele vem dizer que expandiu a agua na area rural, quem ajudou muito nisto realmente foi o eis vereador ja falecido infelizmente João Bosco este sim lutou para levar agua da sabesp para as areas ruarais isto que publicaram nada mais é que uma jogada politica do sr. Luiz do Deraldo. Obrigado pela atenção e espero que nosso municipio cresça e se torne um local excelente para criarmos nossos filhos.

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