Viagem ao Brasil que não fala em crise

Viagem ao Brasil que não fala em crise

Com Otacílio Francisco Claro, 72 anos, no paiol do Sítio Santa Clara/Foto: Manoel Marques

MONTEIRO LOBATO (SP) _ Pelo título desta matéria, o leitor já notou certamente que não viajei para Brasília. Passei o final de semana num outro País, no chamado Brasil real, para fazer uma reportagem sobre a arte e a cultura popular paulistas que será publicada na próxima edição da revista Brasileiros.

O trabalho me levou a conhecer a família de duas brasileiras que não se queixam da vida: a figureira Maria Benedita dos Santos, a dona Lili, de 93 anos, em São José dos Campos, e a quituteira Maria Aparecida de Batista Claro, de 61 anos, em Monteiro Lobato.

Durante dois dias, não ouvi falar em crise e me diverti ouvindo as histórias de duas mulheres que ganham a vida com a sua arte. Em nenhum momento, nas longas horas que passei nas casas delas, cheias de parentes e amigos, saborosos quitutes sobre a mesa, alguém comentou qualquer coisa sobre base aliada, Lei Geral da Copa, Código Florestal, queda nos investimentos, Demóstenes Torres, Carlinhos Cachoeira, Gilmar Mendes, Ivan Sartori, prévias do PSDB e outros assuntos e personagens da semana.

Dona Lili e Maria nasceram na roça e viveram a vida toda nos mesmos lugares, no Vale do Paraíba, cercadas por famílias grandes, fogões a lenha, panelas de ferro, hortas, pomares e galinhas no quintal. Viram chegar a energia elétrica e a televisão, os telefones celulares e a internet, mas nunca mudaram suas rotinas.

Cada uma no seu ofício, ajudaram a preservar a cultura caipira. Elas acosturamara-se a viver com muito pouco, mas nunca passaram fome e em suas casas não falta nada.

“Sempre que forem lavar o rosto vão se lembrar de mim…”, diverte-se dona Lili, que nas horas vagas, quando não está fazendo suas figuras de barro, vendidas por 5 reais (as maiores chegam a custar 50 reais, dez vezes menos do que o preço cobrado nas lojas), agora também borda toalhas, presenteadas aos seis filhos, 11 netos e 11 bisnetos.

Ao lado do marido Otacílio Francisco Claro, 72 anos, que cuida da lavoura, e do irmão João Batista da Silva, o Zezinho, 63 anos, seu parceiro nas panelas em barracas de comida que montam em feiras, festas e rodeios, Maria prepara o tradicional almoço de sábado para a família reunida no velho sítio às margens da estrada entre São José dos Campos e Monteiro Lobato.

Feijão tropeiro e arroz carreteiro, preparados com as mesmas receitas dos bandeirantes, passadas de uma geração a outra, não podem faltar à mesa. Do fogão a lenha saem também torresmo, frango na panela de ferro, polenta, o cardápio da São Paulo de antigamente, que sobrevive nestas terras longe do noticiário catastrófico do Brasil de Brasília e das grandes cidades. Uma boa cachacinha, claro, não pode faltar, que ninguém é de ferro.

O queijo, a linguiça, as farinhas de milho e mandioca, e até o açucar são feitos lá mesmo no Sítio Santa Clara, no Bairro dos Ferreiras, onde as pessoas só discutem por causa de futebol ou do tempo que vai fazer amanhã. Otacílio pode passar horas ao lado do tacho de cobre apurando a garapa até virar açucar, como era no tempo dos escravos. Com a raspa do tacho, oferece às visitas de sobremesa a melhor rapadura do mundo. E fica feliz com os elogios. Não precisa de mais nada na vida.

Para quem anda desanimado da vida com tudo que lê, ouve ou assiste, recomendo fazer de vez em quando esta viagem para a gente não perder o contato com a realidade de um país de gente feliz que não aparece na mídia. Faz bem à alma, aos olhos e ao paladar.

Foto: Manoel Marques

Em tempo: para não dizer quer não falei de problemas, a nota triste da viagem foi o pernoite na pequena Monteiro Lobato, cidade de apenas 3.800 habitantes, que homenageia um dos maiores escritores brasileiros, nascido naquela região. Me lembrou muito uma das suas primeiras obras, Cidades Mortas, publicada em 1919, retratando o cotidiano das populações pobres do Vale do Paraiba, que viveram a derrocada da produção de café.

Monteiro Lobato virou apenas um caminho de passagem em direção a Campos do Jordão, São Francisco Xavier e o sul de Minas, a estrada SP-50 com suas carretas pesadas e barulhentas passando pelo centro da cidade, que fecha suas portas às oito da noite, quando os cachorros vadios ocupam a praça principal. Fosse vivo, Monteiro Lobato poderia escrever outro belo livro sobre as Cidades Mortas em Monteiro Lobato. Isso é triste, mas a vida continua.

 

23 thoughts on “Viagem ao Brasil que não fala em crise

  1. RK bom dia, peso que me perdoe , não me leve a mal sobre o que vou escrever, e não vou ficar chateado se vc censurar o meu cometário não tenho sangue de barata TAM pouco rabo preso com miguem, e inacreditável , dois dos poderes da republica pegando fogo, grampo ilegal bandido de toga dentro do congresso nacional , a mafia tomando conta das instituição e o senhor calado como se não tiveres nada a ver com isto , e lamentável jornalista, como as pessoas se acovardam na ora que gente do bem e o povo sem voz mas precisa de homens como o senhor

  2. É Sr: Kotscho este é sem duvida o pavor da Mídia/Oposição porque o Povão está cada vez mais vacinado contra a Manipulação Mídiatica que Endeusa os “Bonecos” do time deles e Demoniza os outros, o povo já sabe que na Globo é só novela, e na Mídia impressa e só denuncias e nada mais, então o melhor é tocar a vida porque ela é muito bôa apesar da Mídia.

  3. A crise é forjada por alguns líderes de partidos aliados do governo federal,para que possam tomar de assalto ministérios,estatais e etc,os mesmos,Sarney,Renan,Collor,Henrique Alves,parasitas que vivem de
    espoliar o povo humilde e pobre,o Brasíl tem que mudar essa cultura .

  4. Boa noite Ricardo!
    Boa noite amigos balaieiros!

    Ah que tempo bom, que lugares ótimos para aliviar a mente. Um pequeno riacho sombreado por bambus, os redemoinhos teimosos nas águas, casinhas de pau-a-pique com coberturas de sapê, fogão a lenha, apetrechos antigos e utensílios espalhados por armários de madeira antiga, rolos de fumo de corda, cães dormindo cansados após uma noite de caça, ao longe, mugidos, relinchos, mais perto, aves, galináceos, e uma paisagem montanhosa de tirar o fôlego.
    Esse teu texto Ricardo, me lembrou de lugares onde cresci próximo à nascente do velho Tietê. Conheci o local onde ele brota levantando uma pequena “areinha” e desce humilde para se transformar, se transformar, se transformar…
    Vi bonecos de barro, de madeira talhada tal qual aquela rosca enorme ao lado do armário de madeira. Faziam em duas peças, às vezes por duas pessoas diferentes, mas os artesãos sempre acertavam em cheio nas medidas um do outro.
    A pesca de vara simples com puçá, (nunca tive paciência pra isso, preferia largar a vara e ir passear pelo entorno).
    Pois é meu véio, Deus nos presenteia às vezes com momentos assim. Mas temos que lembrar com tristeza sempre depois, que esse, não é o nosso mundo. É desses privilegiados que não sentem falta daquilo que não tem, e portanto, são ao modo deles, felizes.
    Nosso mundo, também infelizmente é outro. Tão distante, mas ao mesmo tempo tão perto. Tão diferente, porém, com desejos no
    recôndito de nossas almas que se tornem iguais. Embora isso não seja possível, ainda podemos guardar na memória os sons, os cheiros, às audições dessa grande orquestra onde as simplicidades de seus instrumentos nos ajudam à lavar a alma de vez em quando.
    Estava com saudades desses posts.

    Robson de Oliveira
    http://ecoblog-blogeco.blogspot.com.br/

  5. Parabéns jornálsta Ricardo kotcho;
    viver este mundo digno, de gente simple, mesmo sendo por apenas um final de semana..penso ser é um grande previlégio! acredito que
    este é um belo exemplo que o mundo é bom que tem muita gente boa nesta vida
    e para a gente enontrar -la neste mundo tão bom basta apenas ser-mos uma pessoa humilde,intégra ,honesta.
    este olhar pra frente,atrai esperança de um mundo próspero e feliz.
    gostei da sua reportágem,uma bela reflexão sobre a verdadeira vida.

  6. (vinheta…)
    Balaio meu bom Balaio
    Balaio carrega o que ?
    Uns malas reacionários
    E a turma quente do PTêêêêêê…

    ( …locutor, com aquela voz de Roberval Taylor, personagem do Chico )
    …erres vibratos…
    RRRRRRRRÁDIO BALAIO…UMA RRRRRRRRADIO DOS K.RAIOS.
    ZYW 13, FALANDO PARA O MUUUUUNDO !!!
    O graaaaaaaande jornalista Ricardo Kotscho, superando a si mesmo, publicou em seu Balaio, o único blog que tem alma, um dos mais lindos textos do jornalismo brasileiro recente.
    Nele, o grande jornalista, mostra porque o grande PT, com o maior líder da história política deste país, o para sempre LULA, levantou a autoestima de nossa gente.

    RRRRRRRRRRRÁDIO BALAIO…UMA RRRRRRÁDIO DOS K.RAIOS.
    ( vinheta )
    Balaio meu bom Balaio
    Balaio carrega o que ?
    Uns malas reacionários
    E a turma quente do PTÊÊÊÊ !!!

  7. Caro Kotscho, o seu post me fez lembrar aquela música do Ataulfo Alves que fala sobre a vida simples das cidades do interior, que conta a história de um personagem desde a época de criança, que recorda dos dias na escola, da professorinha amada, do be-a bá, da Mariazinha e que no fim dizia no refrão; que era feliz e não sabia. Desculpem mas não lembro o título da música mas ela espelha esta experiencia do seu fim de semana. Realmente voce andou pouco, voltou aos tempos de antigamente e provou que ainda há pessoas felizes com o pouco que tem e viu, provou que a longevidade depende de poucas pretenções, não de riquezes acumuladas e que a vida tem seu começo, meio e fim e de nada adianta ficar como muitos nas cidades grandes lutando e construindo riquezas para seus decendentes que no final brigarão entre si por causa dos bens. As almas são livres para viver segundo o que lhes convém e usando o livre arbítrio e até tem gente que mesmo assim não encontram a felicidade que por sinal está dentro dela própria, é só parar e ver, sentir, como provastes com estes cidadãos do campo com sua vida bucólica, eles já sabem onde está a felicidade. Acho que o caminho é nós os deixarmos, aqueles da vida citadina, empunhando as suas armas e ao lado ficarmos inertes, só assistindo em volta, toda a loucura desenfrenhada a que se proponham realizar e se tivermos chances fugir de uma vez por todas para a vida do campo, das pequenas cidades onde nos fins de tarde, podemos sentar em cadeiras de vime na calçada e bater um papo com nossos vizinhos como nós, simples no corpo e na alma e contar causos, até de assombrações.

  8. Kotscho, adorei sua foto com o representante da arte e cultura popular. É o maior valor da matéria. É aquilo que fica aos nossos olhos, com seus belos comentários, coisa humana, que tem vida e desejos, medos e taras, não sei se defeitos, malfeitos, benfeitos, não importa, valeu sua viajem e a minha, abs, Dé

  9. Pois é Kotscho,antes do Lula, a minha cidade com cerca de 400 mil habitantes,tinha tres vôos diários ligando a cidade à capital,através de aviões turbo hélice de pequeno porte petencentes a uma única cia. aérea.Mesmo antes do Lula passar a Faixa Presidencial para a Dilma,uma empresa de grande porte colocou dois vôos diários,passando pouco tempo depois para tres e com aviões à jato de grande porte.Atualmente são ONZE vôos diários,através de tres cias. aéreas.Um detalhe,estão sempre lotados.Uma cia de ônibus regional tem vários horários no decorer do dia,ligando a cidade à capital,afora ônibus de outras grandes empresas que por aqui passam e complementam o transporte.Isso é uma das amostras do progresso do Brasil real,o Brasil que o PIG e muitos políticos desconhecem,pois vivem alienados em seus mundinhos surreais.

  10. Que delícia de reportagem Ricardo Kotscho: é a economia criativa do Brasil real que deixa a gente feliz da vida! Como é interessante ver como estas pessoas inventam para sobreviver num país tão grande! Vou ler a reportagem com muito interesse: o Brasil caipira que quase nunca é desvendado nas revistas, fora umas e outras.

  11. Kotshco, estou emocionado e arrepiado com este post. Não sei se esse comentário será lido por você, mas se for, ficarei feliz. Eu sou de Monteiro Lobato e hoje vivo em São José dos Campos e posso me refugiar para essa pacata cidade todos os fins de semana e viver um pouco desse Brasil ingênuo e vibrante, que não fala em crise. Por coincidência, neste mesmo fim de semana eu estava em Monteiro Lobato e aproveitando o tempo livre, escrevia uma resenha do seu livro “A Prática da Reportagem”, para um trabalho da faculdade. Estudo jornalismo na Universidade de Taubaté, e desde a leitura do livro, passei a conhecer ainda mais seu trabalho, e usá-lo como base para o meu. Suas histórias sempre me inspiram e o caráter humano que você reforça nelas, fazem o leitor viver aquilo que é contado. Se eu soubesse da sua passagem por Monteiro justamente no fim de semana que estava escrevendo sobre você, teria tentado a oportunidade de te conhecer de perto e poder dizer ainda mais a fundo suas qualidades como jornalista. Se possível, entre em contato comigo para complementar meu trabalho. Você ganhou ainda mais minha admiração. Estou ansioso para conferir a reportagem na revista Brasileiros. Abraços, Daniel Corrá;

  12. Kotscho, seu texto já me deu saudade da Brasileiros! Que história linda que só você sabe descobrir e contar. Você nos põem em contato com a verdadeira vida – não aquela das redes sociais. Um beijo, Deborh

  13. Querido Kotscho, fazia tempo que eu não vinha aqui no Balaio. Retornei hoje com a dica deixada no Facebook de uma amiga sobre este maravilhoso aperitivo que vc nos deixa sobre sua viagem ao Vale do Paraíba. Não vejo a hora de ler a matéria completa na Brasileiros.
    Mesmo sem ter um décimo do seu talento, também andei escrevendo sobra a deliciosa vida no interior. Tá lá no meu blog. Ficaria honrado com sua visita no meu humilde espaço: http://www.papillon.blog.br/2011/08/na-divisa-de-sp-com-mg-encontrei-a-minha-xangri-la-caipira/

    Abraços caipiras

    1. caro cláudio,
      acabei de conhecer com muito prazer o teu blog.
      recomendo aos demais leitores que entrem também para ver como a vida pode ser boa longe dos grandes centros.
      abraços,
      ricardo kotscho

  14. Parabéns pela bela matéria, isso é gente que faz com simplicidade mas muito amor!
    Achei infeliz seu comentário sobre a cidade de Monteiro Lobato, aqui temos um belo festival de literatura infantil, um povo hospitaleiro, uma boa comida, etc…talvez o sr. estivesse procurando uma “balada”, mas a cidade não é morta ela é uma cidade de cultura simples e povo humilde, não apropriada a seu perfil, portanto a cidade continuará linda e tranquila, ou como queira morta, mas com personalidade!
    Um abraço!

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