A volta de Jesus, 2011 anos depois

A volta de Jesus, 2011 anos depois

Conforme a ocasião, é melhor a gente passar a palavra para quem entende do assunto.

Neste Natal de 2011, meu presente para os leitores do Balaio é um belo texto sobre “A volta de Jesus” escrito pelo meu velho amigo Frei Betto, escritor e frade dominicano, que transcrevo abaixo:

A VOLTA DE JESUS

Frei Betto

 

Sem chamar a atenção, Jesus voltou à Terra em dezembro de 2011. Veio na pessoa de um catador de material reciclável, morador de rua. Comia prato feito preparado por vendedores ambulantes ou sobras que, pelas portas do fundo, os restaurantes lhe ofereciam.

Andava sempre com uma pomba pousada no ombro direito. Estranhou o modo como as pessoas bem vestidas o encaravam. Lembrou que, na Palestina do século 1, sua presença suscitava curiosidade em alguns e aversão em outros, como fariseus e saduceus.

Agora predominava a indiferença. Sentia-se, na cidade grande, um Ninguém. Um ser invisível.

Ao revirar latas de lixo à porta de uma faculdade, nenhum estudante ou professor o fitou. “Fosse eu um rato a remexer no lixo, as pessoas demonstrariam asco,” pensou. Agora, nada. Nem o percebiam. Ou consideravam absolutamente normal um homem andrajoso remexer o lixo.

Graças a seu olhar sobrenatural, capaz de apreender alma e mente das pessoas, Jesus sabia que eram, quase todas, cristãs…

Roubaram um carro defronte a faculdade. A vítima, uma estudante cirurgicamente embelezada, apontou-o como suspeito de cúmplice dos ladrões. A polícia, sem pistas dos criminosos, decidiu prendê-lo para aplacar a ira da moça, filha de um empresário.

O delegado inquiriu-o:
— Nome?

— Jesus.

— Jesus de quê?

— Do Pai e do Espírito Santo.

O delegado ditou ao escrivão:

— Jesus da Paz, natural do Espírito Santo.

A polícia conhece a diferença entre bandidos e moradores de rua. Tão logo a moça e seus pais deixaram a delegacia, Jesus foi liberado.

Saiu pela avenida, de olho nas vitrines das lojas. Todas repletas de enfeites de Natal. Tentou avistar um presépio, os reis magos, uma imagem do Menino Jesus… Viu apenas um velho de barba branca, gordo, com a cabeça coberta por um gorro tão vermelho quanto a roupa que vestia. O menino nascido em Belém havia sido substituído por Papai Noel. A festa religiosa cedera lugar ao consumismo compulsivo e à entrega compulsória de presentes.

Impressionou-se com os rápidos flashes coloridos dos televisores expostos nas lojas. A profusão de anúncios. Comentou com o Espírito Santo:

— Houvesse TV naquela época, teriam transmitido o Sermão da Montanha como um discurso subversivo e exibido no Fantástico a multiplicação dos pães. Se eu facilitasse, uma marca qualquer de cerveja iria querer me patrocinar…

Em busca de material reciclável, Jesus se surpreendeu com a quantidade e a variedade de lixo. Quanta coisa ele não conhecia! Como as pessoas consomem supérfluos! Quanta devastação da natureza!

Dormiu num banco de praça. Ao acordar, deu-se conta de que desaparecera seu saco repleto de latinhas e papéis. Possivelmente outro catador o levara. Pobre roubando pobre. Resignado, passou o dia revirando lixo para ganhar uns trocados e poder garantir a janta.

Tarde da noite, viu uma igreja aberta. Decidiu entrar. Os fiéis, ao vê-lo tão maltrapilho, torceram o nariz. Jesus preferiu ficar de pé no fundo do templo. A Missa do Galo se iniciava. Achou o padre com cara triste, como se celebrasse um ritual mecânico. O sermão soou-lhe moralista. Não sentiu que houvesse, ali, a alegria da comemoração do nascimento de Deus feito homem. Os fiéis se mostravam apressados, ansiosos por retornarem às suas casas e se fartarem com a ceia natalina.

Terminada a missa, Jesus perambulou pela cidade. Pelas calçadas, sacos de lixo estufados de embalagens para presentes, caixas de papelão, ossos de frango e peru, cascas de ovos… Observou os moradores de um prédio reunidos no salão do andar térreo. Comiam vorazmente, estouravam garrafas de espumantes, trocavam presentes, abraços e beijos. Nada ali, nenhum símbolo, que lembrasse o significado originário daquela festa.

Passou diante de uma padaria que fechava as portas. O padeiro, ao ver o catador, pediu que esperasse. Retornou lá de dentro com uma sacola de pães, fatias da salame e um refrigerante.

— É pra você comemorar o Natal – disse o homem.

Jesus chegou a uma praça semiescura. Havia ali uma mulher excessivamente maquiada. Buscou um banco e ali se instalou para poder comer. A mulher se aproximou:

— Ei, cara, tem o que aí?

— Pão, salame e refrigerante.

— Não comi nada hoje. E a noite tá fraca. Faz duas horas que estou aqui e nada de freguês. Acho que em noite de Natal os caras ficam com culpa de pegar mulher na rua.

Jesus preparou o sanduíche e estendeu-o à mulher.

— Se não importa de beber no mesmo gargalo…

— Tenho lá nojo de alguma coisa? – murmurou a mulher. ¾ Se tivesse, não estaria rodando a bolsinha na rua.

— Você não tem família?

— Tenho, lá na roça. Larguei aquela miséria pra tentar uma vida melhor aqui na cidade. Como não fui pra escola, o jeito é alugar meu corpo.

— Esta noite de Natal não significa nada pra você?

— Cara, você não imagina o que já chorei hoje lá na pensão. A gente era pobre, mas toda noite de Natal minha mãe matava um frango e, antes de comer, a família rezava um terço e cantava Noite feliz. Aquilo me deixava muito feliz. Não posso relembrar que as lágrimas logo inundam os olhos – disse ela puxando o lenço de dentro da bolsa.

A mulher fez uma pausa para enxugar as lágrimas e indagou:

— Acha que, se Jesus voltasse hoje, esse mundo iria melhorar?

— Não sei… O que você acha?

— Acho que ninguém ia dar importância a ele. Essa gente só quer saber de festa, e não de fé. Mas bem que ele podia voltar. Quem sabe esse mundo arrevesado tomava jeito.

— Eu não gostaria que ele voltasse. Não adiantaria nada. Há dois mil anos ele veio e deixou seus ensinamentos. Uns seguem, outros não. Se o mundo está desse jeito, a ponto de eu ter que catar lixo e você alugar o corpo, a culpa é nossa, que não damos importância ao que ele ensinou. Veja, hoje é noite de Natal. Jesus renasce para quem?

— No meu coração ele renasce todos os dias. Gosto muito de orar, não faço mal a ninguém, ajudo a quem posso. Mas, sabe de uma coisa? Eu gostaria de poder falar com Jesus, assim como nós dois estamos conversando aqui.

— E o que diria a ele?

— Bem, eu perguntaria se ser prostituta é pecado. Já vi um padre dizer que sim, e ouvi outro falar que não. O que você acha?

— Acho que Deus é mais mãe do que pai. E lembro que Jesus disse um dia aos fariseus que as prostitutas iriam entrar no céu primeiro que eles.

 

Frei Betto é escritor, autor do romance “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.

20 thoughts on “A volta de Jesus, 2011 anos depois

  1. Pois é…Muitas pessoas quando veem um mendigo na porta de um restaurante pedindo esmolas têm o costume de dizer:”vai trabalhar, vagabundo”!!!Às vezes penso se nesse momento não estaríamos sendo testados pelo ”velhinho” lá de cima e também imagino como seria se ”eu” fosse esse mendigo com fome pedindo ”um troquinho”, e me fosse negado…Isso é uma possibilidade que devíamos ter em mente pois a gente NUNCA SABE!!E todos sabemos que a vida dá muitas voltas!Bom Natal!!

  2. Kotschou, por meio do Frei Beto, você me deu o melhor presente de Natal que já ganhei em toda minha vida.
    O que Frei Beto escreveu é exatamente o penso sobre o Natal: enquanto uns se fartam com farta ceia, outros passam fone; enquanto crianças esbajam brinquedos sofisticados, outras não têm nem onde dormir.
    Por isto, o Natal para mim não é dia de festa, mas de reflexão.
    Um Feliz Natal para você.

  3. Não há nada melhor que um dia após o outro, as esperanças permaneceram e a empáfia foi embora, sinto-me rejuvenescido. Não gosto de misturar religião com politica, mesmo porque me parece haver mais oportunistas das crenças das pessoas que eles mesmos se convecerem dos seus pecados. São capazer de que diante de Deus dizer que não são pecadores e extremando o sentimento, renegar diante Dele, que pecado não existe. Mas o conto do Frei Betto é emocionante e relata a diferença que há entre os componentes da sociedade que prá mim ainda continua selvagem. Não queria mas vou colocar o que disse Jesus; “Não vim a este mundo trazer a paz mas sim a espada”. Ele, com toda a sua compreenção e sabedoria e amor disse isso porque já sabia da netureza cruel da humanidade e que chegou a expulsar os financistas daquela época de defronte o templo sagrado do Senhor dizendo que “lá, não era covil de ladrões”. E eu nunca iria imaginar que palavras ditas há mais de 2 mil anos fosse tão atual como agora. Alguns da humanidade, quando chega a época dos festejos natalinos esquecem do aniversáriante e suas lições de vida e caem na bebedeira como os moradores de Sodoma e Gomorra mas não tardará o dia em que chorarão lágrimas de sangue e rangerão os dentes porque perderam tanto tempo com futilidades. Mas ao pedirem perdão, o mestre lhes dirás; Já te faustastes nos seus dias com alegrias regradas de bebidas e grandes banquetes enquanto teus irmãos vagavam pelas ruas e portanto já ganhastes o que querias, agora, é a vez deles se rejubilarem porque as suas alegrias, serão eternas e as suas, acabaram no dia do fim dos seus dias.
    E confirmando o que já havia dito, olhando para a curra em volta da meretriz, dirá. Eu dei-lhes o livre arbítrio de “atirar a primeira pedra quem não tivesse pecados e eu novamente reafirmo que tentem de novo”. É difícil pensar isso? Não, não é porque o que faz hoje a humanidade, não teremos dificuldades nenhuma para sonhar que isto possa suceder. Mas Ele já vem vindo por aí e neste dia a Terra irá “tremer” e os ególatras, os insolentes, os prepotentes rangerão os dentes porque já divisarão o ajuste de contas. Que eu não esteja presente para ver isto porque com certeza chorarei.
    Um Natal cheio de bençãos ao democrata Kotscho e seus familiares e aos meus queridos amigos comentaristas indignados e um Ano Novo de muitas alegrias e realizações humanas e espirituais.
    Que o Senhor nos ilumine nas novas batalhas que virão.

  4. …depois da conversa com a prostituta, resolveu Jesus reunir todos os mendigos, catadores de lixo, moradores de rua, e os convenceu a entrarem em uma rica catedral em que um cardeal ministrava uma missa, para a fina flor da sociedade paulistana, não faltando a presença do religioso governador Ao ver aquela invasão, o governador telefonou para que a polícia vinhesse retirá-los. Jesus foi novamente preso e colocado num camburão entre dois ladrões, o da direita esbravejava por tão pequeno espaço ter mais um acupante, o da esquerda abraçõu Jesus protegendo-o. No caminho da delegacia, um filhinho de papai embriagado, perdeu o controle de seu poderoso carro, bateu na traseira do camburão, e, novamente Jesus morre, entre dois ladrões.

  5. Obrigada pela mensagem, Sr. Kotscho. Adorei. Engraçado, outro dia eu estava comentando que comemorar o natal perdeu a graça, pois as pessoas nem lembravam do aniversariante, talvez nem o por que da comemoração do natal. Quando eu era criança, fazíamos uma festa montando o presépio e visitando os presépios dos nossos vizinhos, mas hoje apenas enfeites coloridos e brilhosos, sem sentido.

  6. Boa tarde meu amigo Ricardo Kotscho e a todos os comentaristas.
    Deixo aqui a minha mensagem de natal, a qual repito todos os anos.
    ”Que neste Natal os humanos sintam a presença do Menino Deus e que Ele permita aos homens, toda sabedoria e inteligência para se comunicarem apenas por palavras, sem necessitar do uso de meios belicosos para ”se fazer entender”. A palavra, falada, escrita e até por meio de mímicas, é a maior ”força” do homem. Com ela se faz milagres, levanta uma pessoa, dá-lhe a auto-estima, pode até curá-la física e espiritualmente. A prova disso foi levada ao ar esta semana pela TV Record, na apresentação do ”Coral de Rua”, quem não assistiu perdeu uma grande aula. Por isso, vamos usar somente as palavras, jamais material bélico que apenas destroi. Só assim, poderemos conhecer o único caminho para uma vida de Paz, Amor e Felicidade. Feliz Natal e um Novo Ano agradecendo tudo o que Deus e a Natureza lhes concede.

  7. Kotscho e família (e frequentadores do Balaio),
    um fraterno e sincero abraço e um Natal de muita luz, reflexão e verdadeiro amor.

    Poema de Natal

    Entre luzes artificiais
    e jingles de Natal
    Entre a pressa das compras
    e o trânsito caótico

    Entre brindes e convivas
    e repetidos ritos
    Ficou esquecido
    em um canto qualquer

    um menino.

    (Afonso Caramano – dezembro/2011)

  8. …por falar em Jesus, me lembrei que, Deus, em sua suprema bondade, reservou um presente para todos nós brasileiros, um outro filho predileto: LULA O LIBERTADOR
    A ELE e a sua linda companheira D. LETÍCIA, lhes desejo um feliz natal e este presentinho :

    … a você Ricardo, o único blogueiro que tem alma, D. Mara, e a todos os malas que aqui frequentam, vai também os meus votos de bom natal.
    …e esta que encontrei ali e que achei bem legal, e que resolvi denominar de: ” olhai os lírios do campo ”

  9. Caro Ricardo Kotscho e todos os balaieiros. Desejo a todos, um feliz natal e um prospero ano novo. Que a estrela guia brilhe e ilumine os caminhos de todos para que não tropecem em nenhuma pedra. Quanto ao texto, confesso que não consegui ler tudo. Desconfio que estou ficando velho. Veio a minha mente, a minha mãe, a minha avó, o meu pai e os preparativos para os natais la na roça. Era tão bonito. alguns meses antes começava as novenas de casa em casa. Era realmente um preparativo para o nacimento de Jesus. O nosso banquete era simples. Arroz com frango que a minha mãi era mestre. Até hoje ainda falam no arroz com frango que a minha mai fazia. cherava longe, e famosa macarronada. A bebida era vinho que quase só o meu pai bebia, as crianças tomavam taubaina. O natal era muito mais emocionante. Hoje o natal é uma festa para os comerciantes encherem os bolsos.

  10. Aproveito para dar um Feliz Natal, Kotscho, a vc, sua família e a sua equipe e tb a todos os comentaristas do Balaio. Abraço a todos, que Jesus esteja sempre conosco!

  11. Feliz Natal a todos os participantes do Balaio do Ricardo Kotscho e ao próprio !!!!!!! E parabens ao ProfeGelson e Everaldo pelos comentários. Realmente, ProfeGelson, não basta negar ajuda aos pedintes. É preciso insultá-los e humilhá-los. E como bem lembrou o Everaldo, se possível, chamar a Polícia ou açular contra eles os cães. CONSIDERAMO-NOS humanos e Cristãos, mas SOMOS chacais !!!!!!

  12. Em tempo: Parabens, Kotscho, pela “homenagem” ao Frei Betto. Gênio !!!!! Quando lembro dos estupendos textos de Frei que li na “Folha de São Paulo”, chego a esquecer do desprezo que dedico a esses traidores (PIG) do povo brasileiro. Feliz Natal a todos !!!!!!

  13. Frei Beto ainda é um dos motivos da resistencia de minha fé, assim como voce, que me garante a crença em um jornalismo justo, honesto e verdadeiro….. Feliz 2012 Ricardo pra voce e os seus…..PAZ,SORTE E SAUDE……

  14. Neste natal e nos outros recentes, os restaurantes mais caros do Brasil estiveram cheios dos políticos com suas cortes. Parlamentares e membros do executivo que viajaram para fora do país, foram a restaurantes mais caros ainda. Todos gastaram os tubos, rios de dinheiro, e dinheiro.
    Não roubar. Não matar.
    Frei Betto conhece-os em toda sua desfaçatez e desonestidade. Esteve em meio a eles, trabalhou, almoçou e jantou.
    Mas, saiu. Deixou essa gente. Deve ter sido por nojo.
    Que Jesus lave nossos pecados.

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