Um dia como hoje: há vida sem conflito?

Um dia como hoje: há vida sem conflito?

Pode ser qualquer dia. Um dia como hoje, por exemplo. Na minha rua as pessoas andam apressadas para o trabalho de manhã e voltam apressadas para suas casas no final do dia.

Mal olham para os lados, não se falam, seguem sua rotina. Cada um só mira seu destino numa corrida de obstáculos que parece nunca ter fim.

Nas bancas de jornais e nos aparelhos de televisão ligados nos bares, nos telejornais ou nas telenovelas, o mundo está em permanente conflito, oferecendo disputas e desgraças variadas _ guerras, maracutaias, acidentes naturais e humanos, traições, prepotências, preconceitos, misérias, crises econômicas, conjugais e políticas, escândalos, disputas de poder, epidemias, fome, violência, injustiças, sacanagens, o de sempre.

E, no entanto, as pessoas seguem seus caminhos, nem felizes nem tristes, apenas seguindo em frente, esperando chegar o fim de semana, o final do ano, o Natal, o Ano Novo. E então tudo recomeça.

Após uma breve trégua, cada um vai novamente buscar seu espaço na calçada e seu lugar no mundo, sem saber como será o dia de amanhã.

A cada dia sua agonia ou sua alegria. Em casa, no trabalho, na escola, seja onde for, sabemos que novas dificuldades e soluções nos esperam ao voltar da praia ou da serra dos sonhos.

Será que haverá um dia vida sem conflito? Nesta época do ano, todo mundo fala em paz, fraternidade, amor, as pessoas se abraçam e se beijam mais, assim mais meio que por costume do que com convicção.

Tenho uma filha e um genro que são roteiristas de cinema e eles me explicam que uma história para ser boa e despertar a atenção de quem assiste ao filme tem que ter conflitos.

Sempre pergunto a eles se não poderiam um dia escrever uma história de amor com final feliz. Eles apenas sorriem, compreensivos com minha ignorância.

Velhos  amigos jornalistas repetem sempre que coisa boa não vende jornal, só notícia ruim. “Good news, no news”, defendem eles.

Nem preciso ir muito longe. Nestes meus cinco anos de escrever quase todos os dias um texto na blogosfera não demorei muito a descobrir que os leitores gostam é de assuntos polêmicos, querem discutir entre eles, adoram um conflito.

Temas como esse de hoje, falando das coisas simples da vida pedestre, eu sei que não rendem audiência nem comentários para o blog.

E, no entanto, de vez em quando, é preciso dar uma parada para pensar no que estamos fazendo e para onde estamos indo. E, no entanto, apesar de tudo, a gente vai levando, é a vida que segue.

Não precisa ser longa no tempo, mas plena enquanto acordarmos com disposição para ir à luta, vivendo um dia de cada vez, fazendo o que a gente gosta, gostando de quem nos quer bem e correndo o risco de ser feliz.

E, no entanto …Cada leitor que complete a frase como achar melhor.

A hipocrisia tucana

Mesmo num dia como hoje, por exemplo, em que acordei mais poético, não poderia deixar de registrar o flagrante da hipocrisia tucana publicado na “Folha” desta quinta-feira de final de 2011.

Ilustre desconhecido até outro dia, o deputado Duarte Nogueira (PSDB-SP), líder dos tucanos na Câmara Federal, notabilizou-se este ano por estar sempre de plantão diante dos microfones (desbancou até o impagável Álvaro Dias) para denunciar os malfeitos do governo.

Duarte Nogueira não perdoa: até ontem, já tinha feito 41 pedidos de investigação contra ministros e servidores públicos alvos de denúncias de irregularidades variadas.

Entre os denunciados, estava Pedro Novais, ex-ministro de Turismo, acusado de pagar com dinheiro público a empregada doméstica e o chofer da família. Ao pedir para Novais ser investigado, Duarte Nogueira caprichou na valentia:

“Uma denúncia de prática de ilegalidade ou imoralidade por um ministro de Estado é gravíssima e não pode ser deixada de lado pelos poderes constituídos para ser esquecida pelo tempo”.

Pois, sim, claro, o deputado tem toda razão. E não é que ele foi flagrado esta semana fazendo exatamente a mesma coisa?

Repórteres da “Folha” descobriram que José Paulo Alves Ferreira, mais conhecido como Paulo Pedra, contratado em julho como secretário parlamentar pelo gabinete do deputado tucano, está trabalhando em Ribeirão Preto como motorista particular da família Duarte Nogueira.

Leva os filhos da excelência ao colégio, à aula de inglês, aos ensaios de uma banda de música… Confrontado com os fatos, o bravo líder oposicionista, que é um leão na tribuna e diante dos microfones, virou um gatinho na hora de explicar o caso do secretário parlamentar transformado em chofer particular, dizendo “não ver nada demais nisso”.

Duarte Nogueira admitiu que Paulo Pedra, “às vezes dá uma cobertura”, mas ressalvou: “de forma alguma isso tem o sentido de ele descumprir o trabalho no escritório político”. Segundo o tucano, o secretário só atende seus filhos “fora do horário comercial”.

No mínimo, já que não vai acontecer nada mesmo com o deputado, o líder do PSDB deveria pedir desculpas à família de Pedro Novais.

 

A guerra das togas

Na mesma edição do jornal, ficamos sabendo que, ao ter seus poderes esvaziados pelos ministros Marco Aurélio Mello e Ricardo Lewandowski, o Conselho Nacional de Justiça estava investigando 216 mil magistrados e servidores do Juduciário, tendo encontrado 3,4 mil movimentações financeiras suspeitas.

Desde que a corregedora do CNJ, ministra Eliana Calmon, resolveu levantar a toga da Justiça, a cada dia o país é supreendido por novas revelações sobre o que se passa nos nossos tribunais. A imagem não é nada bonita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

11 thoughts on “Um dia como hoje: há vida sem conflito?

  1. Belíssima reflexão, Kotscho. Precisamos mesmo parar e considerar o que fazemos da nossa fulgaz vida. Sobre isto, não sei se vc conhece, mas indico a leitura do livro de Eclasiastes, do sábio Salomão. Escrito há 3 mil anos, é atualíssimo. E complete a leitura com um trecho do Evangelho de Mateus: capítulo 6, versículos 19 a 34. Propositalmente ou não, esta passagem foi parafraseada no seu texto.

  2. Pode ter certeza Kotscho, que leio sempre os seus textos. Esse então, é bom para pensarmos o que estamos fazendo da vida. E vale sem dúvida comentários de elogios aqui no seu blog. Compartilho sempre nas redes sociais o que vc publica e a aula de se fazer um bom jornalismo. Vc é um exemplo do bom e verdadeiro jornalista .

  3. Perfeita a observação sobre a hipocrisia tucana. O deputado Duarte Nogueira tem con seguido amplo espaço nos telejornais da Globo vociferando indignado e insolente com eventuais falhas éticas de membros do governo federal. Eis que ele é flagrado em uma insolente conduta de ausência ética: pagar com recursos so Congresso em Brasília, um auxiliar em Ribeirão Preto que atua também como chofer da família. Mas fora do horáiro comercial, segundo o deputado. Então, tá. Qual é o o horário comercial? As “crianças” são levadas para a balada? O chofer-assessor cumpre dupla jornada? Tudo isso pode ser até legal , mas é no mínimo imoral transportar os familiares do deputado as custas do Congresso. Depois dessa, os tucanos precisam reavaliar seus “indignados”. Depois dessa, espero que ele não seja reeleito. Antes de falar mal das despesas do executivo, o Congresso preciar reavaliar suas despesas.

  4. Três posts que nos levam ao raciocínio sobre a vida que levamos mas que atualmente eu nem gosto de exercitar. Ainda mais hoje que estou agre, numa empáfia danada e sem esperanças nenhuma, de nada na vida. Estamos vendo de cada lado uma disputa ferrenha onde a oposição não quer ser cognominada de corrupta com todas as provas que o livro do Amaury apresenta e o que se faz é tentar comprovar documentos que estão de todas as formas comprovando a pouca vergonha. Passam milhões de coisas na minha cabeça o dia todo sobre todos estes problemas da existência que às vezes penso nem valer a pena continuar nesta caminhada duríssima. Estou assim, num momento esperando que algo surja para dar um desfecho imediato nesta coisa toda, neste mar de lama, nessa chafúrdia toda. Natal porque, se até o espírito dêle nem há mais na humanidade e às vezes penso que é um dia qualquer e que o lenitivo é que se sabe que Jesus não nasceu exatamente no dia 24 para 25 e nem em dezembro mas lá pelo mês de Abril e o dia nem sei. O abatimento de um soldado guerreiro que às vezes é tomado pelo desânimo de tanto lutar e não ver resultado prático, apenas a força dos dedos digitando palavras que nem tem mais sentido para meu ego. Humanidade tacanha e infeliz porque para existir, precisa subir sobre os ombros dos que lutam destemidamente e ser conduzida como uma marajá sobre os ombros de um elefante todo enfeitado com cores berrantes como numa festa de casamento indú. Como é difícil enfiar cabeça adentro deste seres da sociedade se nem sabemos se existe realmente sociedade pois ser sócio há a necessidade que seja distribuida igualitariamente os frutos do trabalho em conjunto, coisa que nem se vê neste mundo neoliberal. O Direito a gente nem sabe se é realmente o direito que temos, rezado pela constituição onde a todo o momento rasgam-na sem o menor constrangimento e tudo pela prepotencia, pelo poder de alguns de querem estar sempre à frente na hora de colher os frutos do trabalho conjunto levando consigo os melhores frutos e os piores exatamente para quem mais trabalhou. A supremacia do forte sobre o mais fraco que provoca risos daquele quando este reclama dos seus direitos e justiça. Final feliz para esta humanidade sinceramente não há nada que me faça pensar assim, nenhum lenitivo e só espero a derrocada final, o armagedom do apocalipse e é isto que faz sorrir o que se ouve desta ilusão toda. Pois é caro amigo Kotscho, fui parar para pensar e deu nisto que acabas de ler, até parace um desabafo de quem nenhuma esperança resta mas que o momento, depois desta parada, recobra as fôrças por que a esperança nunca pode morrer. Desculpe as palavras ásperas exatamente neste período de festas mas é a realidade e dias piores virão.

  5. Ricardo,
    Talvez somos nós que estejamos envelhecendo. Os garotos mais jovens querem mudar tudo assim como já quisemos lá atrás.
    A hipocrisia no poder público continua. Veja esse exemplo citado no blog. Tomara que consigam fazer tudo que não fizemos. Hoje, assim como você, estou de saco cheio. Um abraço.

  6. Boa noite Ricardo!
    Boa noite amigos balaieiros!

    Pois é Ricardo, a vida se torna cada vez mais dinâmica e consequentemente mais competitiva, em função disso, mais conflituosa.
    Acredito que conflitos existem até no próprio ato de viver. Sabemos que algum dia não estaremos mais aqui, então, por que viemos?
    A filosofia tenta, a ciência se esforça, a religião determina, no entanto, esse vazio existencial sempre acaba por nos pegar na próxima esquina.
    Um dia temos plena convicção de nossa felicidade, no outro não temos tanta certeza, no outro, viramos de ponta-cabeça!

    A vida segue, as pessoas seguem juntas. Um rumo traçado, um objetivo ainda não totalmente compreendido por ninguém.

    Sabe Ricardo, eu mesmo notei que mudei bastante quase ao mesmo nível que seus assuntos postados. Antes, você contava histórias bonitas, com pessoas de belezas e simplicidades cativantes. Hoje, o que dá ibope são mesmo as “polemidades” !
    Todos desejamos boas festas, no entanto, tudo volta ao normal logo depois. Seguimos com nossos conflitos, nossas incompreensões e também nossas esperanças de que algum dia em algum tempo possamos entender realmente a finalidade de tudo isso!

    Eu desejo a todos um felicíssimo natal, e que se lembrem mais das presenças do que dos presentes. Apertem forte aqueles que amam, e se deixem apertar por aqueles que “lhe” amam.
    Não contenham as lágrimas se elas vierem. A expontaniedade é tudo!
    É tudo aquilo que já fomos um dia quando crianças e em algum lugar qualquer, acabamos perdendo.
    Tem um amigo aqui no baláio que sabe o que estou falando.

    Grande abraço a todos…

    Deixo o outro assunto para “depois”, assim, não estrago tanto essa maravilhosa reflexão meu amigo!

    Robson de Oliveira

    http://ecoblog-blogeco.blogspot.com/

  7. De tudo que vem acontecendo no Brasil, no período mais recente, o que mais me preocupa é o cinismo e a hipocrisia. Como no caso mencionado do deputado sdo PSDB, de Álvaro Dias, descoberto como sonegador por esconder uma casa no valor de milhões de reais, de Serra, que tem fama de enriquecimento ilícito desde que foi Secretário de Planejamento de Franco Montoro, de FHC, ao falar em assassinato de reputação, ao se referir ao livro de Amaury Jr!…Sem esquecer dos jornalistas que repetem mentiras, meias-verdades,usam e abusam de eufemismos etc..Isso me deixa apreensiva pelo grau de corrosão do caráter, pelo que representa no processo de deseducação da sociedade.

  8. Caro Ricardo, quisera ser você poeta o quanto é repórter. Parabéns! E Feliz Natal. E que 2012 venha, e seus conflitos. Aqui na beira da praia, contente do mar, eles são quase imperceptíveis. Abraço do fã e amigo, Ivan Quadros

  9. Caro Kotscho.
    Lembro aqui aos exaltados justiceiros geradores de conflitos. A nossa justiça, em grau máximo, acolhe a tese da ”árvore envenenada” a qual consiste no entendimento de que, se uma investigação tem origem ilícita, TODA PROVA QUE DELA DECORRER, MESMO QUE NÃO ILÍCITA EM SI, NÃO PODERÁ SER ADMITIDA, POIS JÁ ESTARÁ CONTAMINADA.
    ”Toda e qualquer prova nessa situação não pode sequer, ingressar nos autos e se entrar , deve ser excluída”.

  10. As cenas mostrando os Norte Coreanos chorando copiosamente a morte do ditador me faz lembrar o que disse certa feita, o grande Nelson Rodrigues:
    ”Outrora, o remador de Bem-Hur era um escravo, mas furioso. Remava mais de 20 horas por dia, porque não havia outro jeito e, por causa das chicotadas. Mas, se pudesse, botaria veneno no café dos tiranos. Em nosso tempo, o socialismo inventou outra forma de escravidão:– A CONSENTIDA E ATÉ AGRADECIDA.”

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