Tempo de plantar, tempo de colher

Tempo de plantar, tempo de colher

Manhã de domingo. Sei que o título acima não é dos mais originais para cativar o leitor, mas foi o que senti sentado sozinho na varanda da casa velha ao olhar em volta e ver o tempo passado.

Trinta anos atrás, comecei a plantar um sítio numa terra abandonada e deserta, com um cemitério de pés de café, à beira do rio Bonito, em Porangaba, no interior paulista. Não tinha água, não tinha luz, não tinha nada, a não ser uma casa de taipa caindo pelas tabelas. Quando chovia, a gente não conseguia chegar lá.

Na verdade, quem plantou e construiu tudo neste sítio, que hoje está uma beleza, foi a minha mulher Mara, o caseiro Zé Telles, comigo até hoje, e seu filho Lourival.

Sempre gostei mais de ficar na rede da varanda, reparando nas mudanças da paisagem a cada nova visita, os patos brincando no açude, a revoada dos tucanos e o gado caminhando sem pressa pelo pasto, enquanto não chegava a hora de acender o fogo para o churrasco, meu único compromisso nestas folgas de fim de semana.

Com o passar do tempo, tudo foi-se ajeitando. Veio a luz, abrimos um poço, depois um pequeno lago, mais tarde o açude, plantamos milhares de árvores em vários bosques e pomares, erguemos duas casas, arrumaram e depois asfaltaram a estrada de Porangaba para Bofete, outros vizinhos foram chegando e o bairro ficou muito bonito.

O velho Sítio Ferino virou uma pequena fazenda-modelo que não faria feio nas revistas e programas rurais onde já trabalhei. Seus antigos moradores ficariam contentes em ver o que fizemos com a terra deles, mas já morreram, assim como as primeiras árvores que plantamos.

O tempo passa depressa, como sabemos. Ficam os momentos de felicidade como este que vivo nesta manhã de domingo de sol, ouvindo o vento e pensando no que falta fazer. Pois, para o meu gosto, não falta nada. Para mim, já está tudo bom demais, não posso reclamar da vida.

Acontece que as filhas, os genros e os netos estão cheios de planos para o sítio e já começou uma pequena revolução na paisagem, com terra revirada, materiais de construção empilhados, cercas arrancadas. É o ciclo da vida. Quando imaginei que estava tudo pronto, agora vai começar tudo de novo.

Pode até ter chegado o tempo de colher para mim, mas para eles é tempo de plantar. No sítio, como na vida, nada fica pronto, sempre é tempo de construir, recomeçar, sonhar com novidades.

Só a minha velha rede, a preguiça, a churrasqueira e a cachacinha continuam no mesmo lugar. E está na hora de acender o fogo.

Bom domingo a todos.

12 thoughts on “Tempo de plantar, tempo de colher

  1. Lindo texto, Ricardo… Saber observar a passagem do tempo, e entendê-la, é sinal de grande sabedoria. Um forte abraço e ótima semana a todos os Balaieiros.

  2. Kotscho, meu querido amigo.
    Digo amigo porque me encontrei contigo uma única vez (para entrevistá-lo para a Folha Universitária há alguns anos), mas te acompanho desde que estudava comunicação no início dos anos 90. Você, Mino Carta, Caco e mais um pequeno número de jornalistas brasileiros me serviram como modelo não só de reportagem, mas de caráter.
    Amigo, como é bom num domingo como esse ler um texto que celebra a vida. Seus textos, pelo menos todos que li até hoje (não li os de futebol porque não me interesso muito pelo assunto) nos faz refletir e oxigena nosso pensamento. Sua forma de encarar a vida, seu talento no trato do texto, sua postura e conduta ao longo de tanto tempo nos faz ter gratidão a Deus por existir alguém como você. Muito obrigado por mais uma vez conduzir a mim e seus leitores ao teu sítio e refletir um pouco sobre a beleza da natureza e a grandeza da vida. Gostaria de terminar meu texto reproduzindo um trecho da benção sacerdotal descrita na bíblia. E espero que essa benção continue representada e sua vida e daqueles a quem você ama: O Senhor te abençoe e te guarde; “O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; o Senhor levante sobre ti o seu rosto, e te dê a paz.”
    Um Forte abraço
    Manuel Marques

  3. Caro amigo Kotscho
    Muito obrigado por esse teu lindo post de domingo !!!
    Adorei !!! É poético !!!
    Me fez lembrar de uma canção belíssima embora pouco conhecida do publico urbano “acabrestado” pela industria fonografica “fazedoras” de “Rock in Rio”.
    Trata-se de “Quem planta colhe” do mestre Juraildes da Cruz, maravilhoso musico e poeta de Tocantins. Não encontrei video desta musica mas te envio a letra que parece que foi composta INSPIRADA EM TI meu bom amigo. Leia e diga se não tenho razão:

    Eu nem imaginava
    Que a vida fosse me trazer histórias
    Que nem sonhava ouvir
    Ou me atrevesse a contar

    Eu nem imaginava
    Que aparecesse tantos becos
    Quase sem saída mostrando que na vida
    Tem que se virar, se virar como a terra
    Que não derrama o mar, que não desvia os rios
    Nem os trilhos do lugar
    Se virar pra colher o que foi plantado
    E receber o seu fardo
    Ou o brilho de um reino encantado

    Eu nem imaginava
    Pelos caminhos que andei
    O espinho e o pranto
    Aprendi do tanto que amei
    E eu que imaginava
    Que a vida fosse uma charada
    Pensei que sabia tudo
    Sem saber da estrada
    Hoje sei que a vida é uma semente
    Quem planta colhe o perfume da flor
    Ou o veneno da serpente

    Eu nem imaginava girar como a terra
    Que não derrama o mar, que não desvia os rios
    Nem os trilhos do lugar
    Se virar pra colher o que foi plantado
    E receber o seu fardo
    Ou o brilho de um reino encantado
    Eu nem imaginava

  4. Kotscho, sempre senti que há uma sombra caminhando comigo e não é minha nem problema psíquico mas notei que voce também tem uma sombra que o acompanha desde o começo desta reforma do seu sítio. ” A sombra Tucana”. No seu sitio tem tucanos? Fazem revoadas? E já não basta a perseguição que eles te fazem aqui na cidade grande e no blog? Na cidade porque já governam por quase 20 anos e não fizeram nada, no blog porque nunca reconhecem que o governo do PT favorecem até eles e não aceitam esta verdade. É…vejo que cada paulista tem um tucano no seu encalço toda vez que vão subir no trem do metro e amanhã começa o sofrimento de novo na hora do “rush”. Haja fígado para aguentá-los.

  5. Tempo de plantar, tempode colher.
    Falei exatamente ésta frase para a minha mulher ao ouvir o festival de sabias laranjeira cantar la no meu sitio no municipio de Tatui onde estivemos neste final de semana. Lembrei da minha infancia. Eu era bem pequenininho mas, ia ajudar o meu pai na plantação de arros. O meu pai e o meu irmão mais velho ia na frente fazendo as covas com a enxada e os outros irmãos iamos jogando a semente e enterrando com os pezinhos num sitema bem primitivo. Com o tempo tudo foi se modernizando O meu pai comprou uma capinadeira puxada por burro e passou a riscar a terra, ai era só jogar a semente e cobrir com os pes. Depois veio a maquininha de mão em que uma pessoa plantava dez tarefas de arroz ou feijão. Hoje está muito facilitado mas, naquele tempo era dificil. O lavrador trabalhava muito. Eu e a minha mulher gostamos muito do sitio. Agora está muito mais bonito doque na minha infancia. Naquele tempo não tinha tantos animais selvagens. Com a proibição da caça os animais aumentaram. O tatu que naquele tempo era raro, porque, quando aparecia um, os caçadores davam em cima até matar, agora tem bastante. De manhã. Quando o dia começa a clarer começa um verdadeiro festival de passaros cantando. É uma coisa maravilhosa. Aquela estrada que eu fiz um desabafo no outro blog ainda, agora asfaltaram de verdade. Está melhor do que Castelo Branco.
    Bom final de semana a voce e todos comentaristas.

  6. Caro Ricardo. Sem demagogia. Você não precisa de título original para cativar leitor. O que interessa é o texto simples e objetivo. Quem é do interior sabe das alegrias e tristezas de ter um sítio. No sítio,como na vida,nada fica pronto. Só essa frase já vale o domingo. Parabéns! Parabéns! vava

  7. Isso aí Ricardo, eu como não tenho sitio observo o mar na baixada, e nossa Sampa uma selva de pedra só asfalto impermealizando a cidade e ajudando o aquecimento global, alem das nuvens cinzas e de cinzas a poluição, temporais e alagamentos.
    Nossa Sampa tem de tudo, a capital mais capitalista do Brasil, pode até dar uma rima, e poesia.

  8. …( falando sòzinho )…que coisa mais bela este texto, poesia pura !!! são destas coisas que os deuses se alimentam…ainda bem que há pessoas como este Véim que sabem como cultivar, preparar e servi-las.

  9. “É o ciclo da vida. Quando imaginei que estava tudo pronto, agora vai começar tudo de novo”

    Que maravilha, Kotscho. E como é bom envelhecer com saúde e dignidade servindo como exemplo e paradigma para as novas gerações. Ninguém é perfeito, somos humanos; mas você é especial…
    PS: Fico até constrangido em elogia-lo publicamente, o que é desnecessário; e também me preocupo com as reações do Velho, do DUM e do OROMAR sempre preocupados em ver coisas negativas em tudo que aqui é elogiado…

  10. Opá bom dia Ricardo,

    Adorei sua matéria “Tempo de plantar, tempo de colher”.
    É isso ai começamos tudo em nossas vidas e quando pensamos que esta td concluído no ponto desejado, sonhado, eis que surgem nossos filhos, genros, noras, netos que desejam começar td de novo sob uma visão do mundo morderno, e assim aceitamos os novos tempos com sabor de vitória! Parabéns.

    Aproveitamos a oportunidade para solicitar autorização para publicar na integra no JN BOFETE.

    Abraços,

    Joni Braga

    1. joni braga,
      está autorizado. basta citar a fonte: publicado originalmente no portal R7.
      grato pelo teu comentário. apareça sempre.
      bom final de semana.
      ricardo kotscho

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