A imprensa também pode ser autoritária?

A imprensa também pode ser autoritária?

Caros leitores,

a pedidos, reproduzo abaixo a palestra que fiz na tarde desta terça-feira no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo dentro do Ciclo de Debates sobre Direitos Humanos promovido pelo Instituto Vladimir Herzog junto com a Escola de Comunicações e Artes.

“O PAPEL DO JORNALISMO NO COMBATE ÀS VÁRIAS FORMAS DE AUTORITARISMO”

Bom dia ou boa tarde para quem já almoçou.

É a terceira vez este ano que venho fazer palestra na ECA, onde eu estudei nos anos 60 do século passado.

Fui da primeira turma, mas até hoje não concluí o curso, embora nele já tenha dado aulas.

Nem sei se ainda tenho alguma novidade para contar a vocês depois de tantas vezes que voltei aqui nestes anos todos.

Como não sei falar de improviso, trouxe apenas algumas breves anotações sobre o tema de hoje porque é muito chato alguém ficar lendo a palestra e mais chato ainda ouvir uma palestra lida.

Sobre o tema que me foi dado hoje, além de todas os fatos que vocês certamente já conhecem dos livros de História sobre o papel do jornalismo na época da ditadura militar no Brasil, gostaria de levantar um aspecto polêmico.

De tanto combater as várias formas de autoritarismo, parece que a imprensa passou também a praticar algumas delas _ a começar pelo pensamento único, que obriga todo mundo a rezar pela mesma cartilha conservadora, partidária e preconceituosa de muitas empresas da chamada grande mídia nacional.

A estrutura hierarquizada, a disciplina, os interesses e os dogmas das nossas grandes redações só podem ser comparados aos que vigoram nas Forças Armadas, que na época estavam do outro lado do front.

Pertenço à geração que combateu o Ato Institucional nº 5, também conhecido por AI-5, e hoje noto, com tristeza, em alguns manuais de redação e práticas profissionais, que tem muita gente ainda pensando e agindo como na época em que mandava quem podia e obedecia quem tinha juízo.

O pior é que a maioria dos profissionais aceita passivamente o prato feito do pensamento único, imposto de cima para baixo, sem discussão. Nem é preciso dizer o que pode e o que não pode ser feito em determinado veículo para conseguir e garantir o emprego. Está implícito.

É claro que me refiro ao espaço do noticiário e não à parte editorial, que é onde cada empresa pode e deve expor sua opinião.

Pois, no momento, temos dois tipos de autoritarismo: o das empresas, que querem editorializar o noticiário, de acordo com as suas preferências políticas e ideológicas, e a atitude arrogante de muitos jovens e velhos jornalistas, mais preocupados em dar e impor suas opiniões aos outros do que em contar o que está acontecendo.

O leitor fica sem saber até onde vai o noticiário e onde começa a opinião. Ainda bem que inventaram um negócio chamado internet para quebrar estes oligopólios dos donos da verdade e do saber.

A internet, que transformou todos nós em emissores e receptores de informações, é a melhor forma de combater as várias formas de autoritarismo dos velhos ditadores, como estamos vendo no mundo todo, e de democratizar a circulação de notícias e opiniões.

Formadores de opinião hoje somos todos nós e não apenas aqueles que vivem nos aquários das redações.

Sorte de vocês que não tiveram que enfrentar a ditadura militar e poderão agora desfrutar deste novo tempo de democracia e liberdade. Aproveitem.

Como conselheiro do Instituto Vladimir Herzog, símbolo daqueles tristes velhos tempos, cumprimento os organizadores deste encontro e me coloco à disposição de vocês para o debate.

Muito obrigado.

11 thoughts on “A imprensa também pode ser autoritária?

  1. Boa tarde meu amigo RK. Tristes tempos foram aqueles. O direito da força, fazia sucumbir a força do direito. Mas, posso confessar que mesmo assim, tive lampejos de esperança e entusiasmo, quando colocaram ao alcance da população o programa chamado MOBRAL, que era transmitido pelo rádio nos mais longinquos rincões deste nosso tão querido Brasil. Pensava com meus botões: No ano 2000 a sociedade mais instruida, enxergando um pouco mais além…Diminuirá a violência, dando lugar à cidadania que hoje não tem vez. Os anos se passaram…aflorou a minha grande decepção, estamos no ano 2011 e vejo os 30 anos que trabalhei como policial, (hoje estou na reserva) dedicando-me sempre aos menos favorecidos, foi em vão, a violência campeia muito maior que naqueles tempos, os direitos do povo mesmo dentro da democracia, são sarceados e corrompidos por alguns maus políticos que detem o poder nas mãos.
    Mas, tenho que aplaudir a volta da democracia, caso contrário, não poderia fazer este comentário então, proibido pelo ”direito da força”.
    Que nunca mais volte aqueles tempos.

  2. Deixe esclarecer: Não me refiro à presidencia da república, que no meu entender, é melhor que outros idos, mas, àqueles que vivem de oratórias vazias, sem nada realizar, pensando somente no próprio umbigo.

  3. Ricardo,

    Autoritarismo é um tema amplo e contém em determinado ponto um ar de interpretação pessoal.
    .Dentro do meu ponto de vista, o autoritarismo vem do intimo de quem comanda ou tenta comandar preservando a sua posição no controle basicop de pessoas, mentes e idèias.
    Impor suas idéias é um dos modos mais comuns de autoritarismo.
    Não somente nas empresas ou no governo ou na imprensa este fator se fez ou se faz presente.
    No lar, na família, na educação dos filhos, no modo de tratar pessoas são fatos que merecem de todos nós uma reflexão pois é da família que surge muitas coisas.
    O AI5, obra prima do Gen. Golbery a qual foi representado pelo nanigo Gen Costa e Silva em um momento que os militares donos do poder se sentiram fragilizados e com medo de existir uma revolta através dos intelectuais, estudantes e jornalistas com fortes tendênciuas a levar todo o povo junto.
    Sim, passamos por negros períodos principalmente quem estava atrás dos teclados, a frente de sindicatos de ponta como os Maritimos aqui no Rio e os Metalurgicos ai em São Paulo. Me lembrei agora do tempo da TIA CIATA onde o violão era proibido e até surgiu uma cantiga de roda ironizando o fato que é:”PAI FRANCISCO ENTROU NA RODA TOCANDO SEU VIOLÃO, VEM DE LÁ SEU DELEGADO PAI FRANCISCO VAI PARA A PRISÃO…” . Creio que este fato foi o primeiro ato do autoritarismo como também, contemporâneo a este fato o JOÃO CANDIDO, nosso almirante negro, que lutou contra o autoritarismo da Marinha Brasileira, que até hoje ainda dura ( não conheço um oficial da armada negro!). Mas, o que discutir um governo militar se o proprio fato de ser militar já vem implicito o autoritarismo?
    Gente, este fato se foi, este governo se foi e com o advento Lula, colocou uma pá de cal neste defunto.
    Mas, como bem falou, nas redações ainda existem aqueles que não conseguem se libertar do fantasma e continuam agindo como no tempo do tesourão brasileiro.
    A i9mprensa, nunca pode dizer que tal fayo ou coisa é isso, tem que mostrar os fatos e deixar quem quiser julgar. Mas mesmo assim ainda existem maneiras e maneiras de e xecutar este princípio.
    Olha, gostei de saber que você não terminou seu curso. Você é a prova viva que jornalismo não se aprende nos bancos de uma faculdade. Mas sim, no campo, nas ruas indo de encontro a notícia o fato.
    Me debato muito com o autoritarismo que muitos jornalistas estã querendo limitar o emprego ou o registro de jornalistas a aqueles que possui um diploma. E nas cidades que não possuem um cuso superior de jornalismo? Como ficarão estes profissionais?

  4. Parabéns pelo comentário, Kotscho. Somente com a implantação do Conselho Federal de Jornalismo e a instalação de mecanismos que permitam a este Conselho a análise prévia das informações a serem publicadas, é que teremos uma imprensa isenta, livre de mentiras e manipulações dos poderosos barões.
    LEY DE MEDIOS JÁ!!!

  5. Caro Ricardo. O PT é um partido que não gosta de criticas e gosta de impor censura. Aqui em Osasco nós tinhamos dois jornais que davam espaço para o leitor se manifestar, elogiar, criticar, dar opinião. Tinhamos o jornal Primeira Hora do filosofo Roberto Espinosa onde quase toda semana eu tinha uma carta publicada. Criticava, elogiava e dava opinião. Tinhamos o jornal Diario de Osasco, hoje diario da região que dava espaço para os leitores se manifestar. Critiquei muito a adminiostração do prefeito Francisco Rossi. Critiquei e elogiei a administração Celso Giglio. Veio a administração do PT, elegeu o meu amigo Emidio de Sousa. Trabalhei nas duas campanhas dele mas. Nem po isso vou deixar de criticar aquilo que acho errado. Pois o jornal Diario da Região cortou o espaço do leitor. Não publica mais nada do leitor. Com serteza foi Censura imposta pela administração petista.
    João Leite

  6. Parabéns Kotcho pela alma iluminada que tem e poder nos apresentar tão brilhante conclusão. Devagar, mas acontecendo, esses mesmos senhores vão perdendo a “credibilidade” perante a sociedade. Valeu!

  7. ASSIM FALOU ZÉ DE TUSTRA :
    ” Pior que um país sem imprensa, é um país com uma imprensa totalmente desacreditada “,
    …como esta o nosso.

  8. Escrevo para lhe dizer que estive presente na palestra que você ministrou na ECA e que ela foi de grande importância para mim. Anotei muitas informações no debate e, coincidentemente, as duas perguntas que eu lhe faria, a respeito dos rumos da comunicação em meio à rapidez proporcionada pela internet, os professores presentes acabaram fazendo.

    Agradeço a chance de poder conhecê-lo pessoalmente, pois, há algum tempo, acompanho seu trabalho em inúmeros veículos de comunicação e também li sua autobiografia “Do golpe ao planalto – Uma vida de repórter”, livro que eu me dei de presente de aniversário de 18 anos! Sou aluna do curso de Letras da USP, mas a minha grande vontade é de trabalhar na área jornalística. São pessoas como você que me inspiram a querer fazer carreira nesta área, mesmo com uma formação diferente.

    Abraços!

  9. A chamada grande imprensa há muito tempo esqueceu o que é jornalismo. Basta ver o que sobra da leitura diária dos jornais. O mesmo vale para os jornais televisivos e radiofônicos, assim como para as revistas. Você tocou no ponto central do problema que é a mistura de informação com opinião. Outro ponto tão grave quanto este é a omissão da informação conforme a conveniência ou mesmo do “cala-boca” dado às empresas. Faltou a menção à concentração de mídias numa mesma empresa e o verdadeiro oligopólio que existe na televisão o que acaba por reforçar a ditadura de certos meios de comunicação.

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