O FUTURO DO JORNALISMO

O FUTURO DO JORNALISMO

SINDICATO DOS JORNALISTAS/AUDITÓRIO DA UNA

Boa noite,

 

quero, em primeiro lugar, agradecer aos amigos do Sindicato dos Jornalistas que me convidaram a estar aqui hoje; aos organizadores do debate, em especial à Carla Queiroz; aos colegas de mesa e a todos vocês que vieram até o auditório da UNA.

 

É sempre bom poder voltar a Belo Horizonte, cidade hospitaleira em que tenho muitos amigos e de onde guardo boas lembranças.

 

Como vocês já viram, ainda não aprendi a falar de improviso, apesar da longa convivência com o presidente Lula. Por isso, peço licença para ler este texto que preparei sobre o tema “O futuro do jornalismo”. Sei que é chato, mas não tem outro jeito. Tentarei ser breve.

 

No meu caso, até pelo tempo de estrada já percorrido, seria mais lógico falar sobre “o passado do jornalismo”, já que desconfio ter menos tempo pela frente do que aquele deixado para trás.

 

Antes de responder às três questões centrais que os organizadores me deram, quero começar deixando bem claro que acredito no futuro do jornalismo e dos jornalistas, e acho que o mundo não vai acabar.

Sim, temos futuro, como diria o Obama.

 

Ao contrário de muitos colegas de profissão, sou otimista quanto ao nosso destino. Se tivermos juízo, o jornalismo vai continuar sendo um produto de primeira necessidade.

 

O mundo que restar de pé vai precisar cada vez mais de bons e honestos jornalistas, capazes de avaliar, organizar e dar sentido aos tsunamis de informação que afetam as nossas vidas.

 

Todo mundo pode jogar bola mesmo sendo perna de pau, se não depender do futebol para ganhar a vida. Todo mundo pode ser cantor de karaokê mesmo sem saber cantar. Todo mundo pode ser um pouco economista, médico ou apenas maluco, meio jornalista ou meio astrólogo, abrir um blog ou pegar uma onda.

 

Na internet, todo mundo hoje pode ser ao mesmo tempo emissor ou receptor de informações, e isso é bom para a democracia, porque acaba com esta bobagem de formadores de opinião.

Para exercer o jornalismo profissionalmente, porém, três “cês” continuam fundamentais: é preciso ter conhecimento, caráter e credibilidade.

 

A natureza do jornalismo não mudou desde que comecei neste ofício no inesquecível ano de 1964, quase meio século atrás. Não importa a plataforma ou o veículo, tanto faz se impresso ou eletrônico, seja qual for nosso cargo ou função: nós somos aqueles que fazemos perguntas para contar aos outros o que foi que aconteceu.

 

Vivemos hoje, com a explosão da internet, apenas o início da maior revolução nas comunicações humanas desde que aquele alemão, o Johannes Gutenberg, inventou a imprensa, faz mais de 500 anos.

 

Os jornais impressos vão precisar se reinventar para sobreviver, mas não estão condenados à morte. Cada vez mais gente no mundo todo tem acesso à internet _ no Brasil, já somos mais de 70 milhões conectados à grande rede. O consumidor de informações deixou de aceitar o prato feito da grande mídia e resolveu pensar por conta própria. Onde vamos parar? Como o mundo vai se comunicar daqui a dez anos? O que falta inventar?

 

Quem souber as respostas a estas questões pode ficar milionário… Eu vou me limitar a falar sobre as três perguntas que vocês me fizeram.

 

Primeira pergunta: Quais os desafios da prática jornalística na contemporaneidade?

Resposta: Com tanta oferta de informações e opiniões, com tanta concorrência, o grande desafio é encontrarmos, tanto os veículos como os profissionais, uma novidade para contar _ uma histórica que os outros não têm para poder surpreender os nossos leitores, ouvintes ou telespectadores. O desafio é encontrar um diferencial, sair da mesmice. E não é só contar, mas tentar entender e explicar o que está acontecendo. As novas e as velhas mídias, os impressos e os eletrônicos, não podem tratar das mesmas notícias da mesma forma. Para mim, este é o maior desafio para quem trabalha e quer continuar no ramo do jornalismo.

 

Segunda pergunta: Qual o papel do jornalista no contexto das novas configurações socioeconômicas brasileiras?

Resposta: Sem escapar do trocadilho, posso dizer que tem papel para todo gosto, dos mais nobres aos mais canalhas, sem falar do papel de bobo. O nosso país e o nosso mercado de trabalho cresceram tanto nos últimos anos que não dá mais para definir um papel único para o jornalista profissional _ digo profissional porque jornalista hoje todo mundo pode ser. Com a proliferação das assessorias de imprensa, públicas ou privadas, hoje temos muito mais jornalistas fora do que dentro das grandes redações, que eram o sonho de todo mundo, e praticamente o único mercado de trabalho, quando eu iniciei minha carreira.

O sonho de muita gente hoje é ter seu próprio negócio, ter um trabalho independente, sem chefe nem patrão. Acho que, diante de tanta variedade de oferta, o mais difícil é o jovem que está começando na profissão definir onde ele se sente melhor, o que ele mais gosta e sabe fazer, e sentir prazer no que faz, se possível. Para isso, tem que ir à luta, não tem outro jeito.

Em qualquer idade, só não pode ter desculpa para ser infeliz. Uma vez o grande médico Adib Jatene me disse numa entrevista: o que mata o homem não é trabalhar muito. É não fazer o que gosta e ser obrigado a fazer o que não gosta. O que mata o homem é a raiva, disse-me ele.

 

Terceira pergunta: O que significa fazer jornalismo na era da convergência de mídias e das práticas colaborativas?

Resposta: Se bem entendi a pergunta, não se trata propriamente de práticas colaborativas, mas de práticas impostas pelas grandes empresas multimídia para que o profissional trabalhe ao mesmo tempo para vários veículos do mesmo grupo.

Mas não tem jeito, não dá para brigar com os fatos. Hoje em dia, todo mundo tem que ser profissional multimídia, full-time e online, quer dizer, tem que estar apto a exercer qualquer função em qualquer veículo de comunicação a qualquer hora.

Só não precisam ser todas as funções ao mesmo tempo… Até porque, se você não for mágico, não dá para fazer direito várias coisas ao mesmo tempo. Nós podemos ser bons músicos, capazes de tocar vários instrumentos, mas não somos uma orquestra.

O que não dá mais é o sujeito dizer que só aceita fazer um único tipo de trabalho dentro de determinado horário e não trabalhar fim de semana. Nesse caso, só trabalhando por conta própria.

No meu caso, trabalhei a maior parte da vida em jornais e revistas, depois na televisão e, mais recentemente, na internet.

Ocupei as mais diferentes funções, de repórter a diretor de redação e, agora, blogueiro, tendo também exercido o cargo de Secretário de Imprensa nos dois primeiros anos do governo Lula.

Nas horas vagas, escrevi vários livros. Este que estou lançando aqui hoje, “Vida que segue”, é um livro de crônicas, o vigésimo da minha coleção.

Segundo o mineiro Humberto Werneck, um dos mais brilhantes jornalistas com quem trabalhei, sou o único brasileiro que ele conhece que já escreveu mais livros do que leu… Maldade dele, claro, não é bem assim…

Para mim, é tudo a mesma coisa. Tanto faz para que tipo de veículo estou escrevendo. Se eu tenho uma boa história para contar, a tela do computador ou o papel têm a mesma serventia. A maior prova é este livro: é uma seleção de textos escritos originalmente para o meu blog, o “Balaio do Kotscho”. Pois é: os posts tirados da internet, a mais revolucionária forma de comunicação, viraram capítulos do livro de papel, a forma mais antiga que conhecemos.

 

Vou parando por aqui porque esta introdução ao debate já está ficando muito longa. Só queria terminar dizendo que, para mim, o jornalismo continua sendo a melhor profissão do mundo. E o nosso velho Brasil é o melhor país que conheço para se ganhar a vida como jornalista. Para quem não estudou, tá bom demais… Não posso reclamar da vida…

Obrigado por terem vindo. Vamos ao debate.

Belo Horizonte, 25 de março de 2011

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