Vida de repórter: 40 anos de estrada A reportagem como gênero literário

Vida de repórter: 40 anos de estrada A reportagem como gênero literário

FEIRA DO LIVRO DE SÃO JOAQUIM DA BARRA

Antes de mais nada…

agradecer à Prefeitura de São Joaquim da Barra o convite para participar desta Feira do Livro e poder conversar com vocês… Vou fazer uma breve introdução ao tema proposto para este encontro e em seguida

Meus parabéns à iniciativa de abrir este espaço para um encontro entre leitores e escritores, à dedicação do Zé Renato, e a todos os que tornaram possível estar aqui com vocês hoje.

Em outubro, completo 46 anos de profissão. E é sempre uma alegria renovada poder falar do meu ofício de repórter, a melhor profissão do mundo. Acabei também virando escritor, mas sou acima de tudo um contador de histórias apaixonado pela sua gente e pela sua terra.

 

Vamos à palestra. Como não sei falar de improviso, preparei um pequeno roteiro.

 

  • A primeira vez que ouvi falar em “jornalismo como gênero literário” foi no início da carreira./ Foi uma bronca que levei:
  • “O que é isso? Está pensando que vai escrever um livro?”, os editores perguntavam…. Reclamavam muito do tamanho das minhas matérias.

 

  • Escrevia muito, não respeitava tamanhos, brigava por espaço, era o terror dos editores/ Eu tinha só 18 anos, mas até hoje não aprendi a escrever pouco…
  • Um caso que me marcou/ Naufrágio de barco de pescadores no Espírito Santo/ Moisés Rabinovici/ corremos risco de vida/ foi uma correria para chegar a tempo no jornal/
  • Daria para escrever um livro, mas a página já estava fechada/ Me deixaram só 40 linhas para escrever/ Nem apareci no dia seguinte/ fui trabalhar no JB/ Rossi foi me buscar de volta…
  • A inspiração dos anos 60 –  revista Realidade e Jornal Tarde/ grandes repórteres/grandes textos/ foi uma revolução no jornalismo brasileiro/
  • Contraste: trabalhava no “Estadão”, conservador, cheio de regras, normas, proibições… Tinha a história do lead, da pirâmide invertida/ Jornal da Tarde subverteu tudo…
  • Eu já gostava de ler histórias bem contadas, com começo, meio e fim/ histórias bem escritas… Queria fazer igual…
  • Cada reportagem era escrita de um jeito, um estilo diferente do outro/  era jornalismo de autor, que surpreendia o leitor/ exatamente o contrário do “realizou-se ontem” do Estadão, e do que lemos hoje na nossa imprensa fast-food…
  • Gay Talease/modelo de todos na época/  Livro “Aos Olhos da Multidão”/ Reportagem é contar as histórias das histórias de como chegamos até ela…
  • O que quer dizer isso? É levar o leitor junto, descrever o lugar, cheiros, personagens/ o oposto do jornalismo burocrático daquela época feito de textos telegráficos inspirados nas agências internacionais…
  • Não importava qual fosse a editoria/ Queria escrever do meu jeito/ No futebol, por exemplo: torcida/vestiários/o clima fora do estádio/ o entorno do espetáculo/ o resto o cara podia ver na televisão…
  • Festivais de música da Record/ coxia/bastidores/platéia/ sempre em busca de personagens/ não de celebridades
  • Até na Política/Costa e Silva/ Horto Florestal/ Repórter do pipoqueiro…
  • Essa história de grande reportagem…/ as histórias é que eram grandes/ Precisava de espaço/ A abertura da Transamazônica/A grande epopéia de Itaipu/ O Sindicato do Crime no nordeste/ Vale da Fme do Jequitinhonha/ Foram séries publicadas em séries de 10, 12 páginas/ Não dava pra escrever em 40 linhas
  • Correspondente na Alemanha/ como repórter de geral/ até porque não entendia muito de política internacional… /Tudo era novidade/ velhinhas contrabandistas da Alemanha Oriental/ carnaval/ terrorismo, o medo nas ruas, histórias do cidadão comum…
  • Na volta, novos cenários, novos personagens/ ABC/Lula/
  • Campanha das diretas/ prefácio do Ulysses/palanque/platéia/ retratos do Brasil/ virou livro
  • Antes, virei jornalista escritor por acaso/ Boris vetou matéria sobe conflito do Araguaia-Tocantins/ Caio Graco/ Brasiliense/ primeiro livro/ quando saiu a matéria, muitos personagens já tinham morrido, quem estava preso foi solto…/ O livro Massacre dos Posseiros – o conflito de terras no Araguaia-Tocantins até entrou na lista dos mais vendidos,  e foi traduzido em vários países…
  • Na mesma época da publicação, por coincidência… cobertura de conflitos em Salvador/ onde está esse repórter? Em Conceição do Araguaia ou na Bahia? Bons tempos… Hoje está na redação… ou em casa…
  • Reportagens foram virando livros/ Depois saiu  Serra Pelada – uma ferida de ouro aberta na selva/ Resultado de várias viagens ao garimpo/
  • Jornal, revista, televisão, internet tanto faz/ Jeito de escrever é o mesmo: serve para contar histórias, conversar com o leitor ou telespectador como se fosse um velho amigo/ Rodeio: no Jornal do Brasil e no SBT Repórter, a mesma reportagem…
  • Querem ver uma coisa? Peguem uma reportagem do Fernando Morais publicada no Jornal da Tarde dos anos 1970/ Depois, escolham a olho trechos de algum dos livros publicados pelo mesmo autor/ Sem identificar os textos, peçam pra alguém dizer o que saiu no jornal e o que saiu no livro.
  • Qual a diferença? Pra mim, nenhuma/ O que quero dizer é isso: não vejo diferença em escrever uma reportagem ou escrever um livro, trabalhar na revista Brasileiros ou manter um blog no portal iG. Tanto que muitas reportagens minhas acabaram sendo publicadas em livros sem que eu tivesse que mudar nada. Este ano ainda, sai mais um. É o 20º _ uma seleção de crônicas publicadas no blog.
  • Hoje em dia há muitos rótulos, mas continuo achando que só tem dois tipos de texto: o bom e o ruim…
  • Como dizia o nosso velho Shakespeare, escrever ou é fácil ou é impossível.
  • Acho que é por isso que ultimamente estamos lendo muitas coisas impossíveis de entender na nossa imprensa…

 

Muito obrigado. Agora vamos ao nosso papo.

 

14 de agosto de 2010

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