COMO O BRASIL ENXERGA E PAUTA O BRASIL RURAL?

COMO O BRASIL ENXERGA E PAUTA O BRASIL RURAL?

Brasília, 25/03/2010, Centro de Convenções. FENAJ/SDT/MDA

Bom dia para todos.

Antes de mais nada, gostaria de agradecer o convite para participar com vocês hoje deste debate organizado pela nossa velha Fenaj, da qual já fui vice-presidente, em algum período do século passado… E aproveito para cumprimentar os organizadores pela feliz e oportuna escolha do tema.

É sempre bom poder falar sobre os rumos da nossa profissão e do nosso país. Faço isso praticamente desde que comecei a trabalhar como repórter, em 1964, ou seja, mais de 45 anos atrás, quando a maioria de vocês ainda não tinha nascido.
Vivemos neste momento uma grande contradição: é o melhor momento da vida dos brasileiros neste quase meio século e, ao mesmo tempo, o mais complicado da nossa profissão, que está numa encruzilhada.

Tem até gente prevendo o seu fim, em razão das novas tecnologias, que transformam todo mundo em emissor e receptor de informações online. Não bastasse isso, hoje qualquer um pode ser jornalista, depois que a Justiça acabou com a regulamentação da profissão.

Mas, a meu ver, não são a internet e a falta de leis que ameaçam o futuro da imprensa, tal qual a conhecemos desde que foi inventada por Gutemberg, uns 500 anos atrás.

É, sim, a pobreza cada vez maior do conteúdo que explica a constante queda de
circulação e de audiência dos veículos jornalísticos.

Não importam as plataformas utilizadas pela velha ou pela nova mídia. Em qualquer uma delas, predominam hoje a mesmice, o pensamento único, a repetição de pautas e de fontes, a falta de ousadia, a preguiça, a subserviência, o gosto doentio pelos escândalos e pelos gabinetes, pela vida das celebridades e do mundo fashion.

A grande imprensa não está apenas de costas para o mundo rural, como li no texto de apresentação deste encontro, mas de costas para o Brasil real _ este imenso país de quase 200 milhões de habitantes e 8,5 milhões de quilômetros quadrados, onde todos os dias acontecem coisas novas que nós, nos grandes centros urbanos, nem ficamos sabendo.

A maior parte de toda a matéria prima da indústria da informação, em qualquer mídia ou latitude, no papel ou na tela, continua sendo produzida por apenas três grandes agências: Folha, Globo e Estadão. Ocorre que as equipes de repórteres destas três empresas estão concentradas no eixo Brasília-Rio- São Paulo, num raio de poucos quilômetros das suas redações.

Eventualmente, cada vez mais eventualmente, estes jornais mandam enviados especiais para outras regiões do país, geralmente quando acontece alguma desgraça, uma catástrofe natural ou uma tragédia social. Fora isso, só para a produção de cadernos especiais.

Esta concentração da produção e geração do noticiário nacional agravou-se nos últimos anos com o progressivo fechamento das redes de sucursais e correspondentes. Hoje, se alguma coisa acontece fora do eixo, só a rede Globo de Televisão, com sua rede de afiliadas, tem condições de, rapidamente, colocar uma equipe no local dos fatos. Mas, como o noticiário da TV hoje está focado principalmente em política e economia, é cada vez menor a participação dos repórteres de outros centros na rotina do dia a dia.

Em conseqüência, costumo dizer que temos hoje Brasília demais e Brasil de menos nos nossos jornais, rádios, revistas, redes de TV e mesmo nos portais da internet, que só de uns tempos para cá começaram a montar equipes próprias de reportagem. Este monopólio da informação é quebrado apenas pelas redes sociais na grande rede, o que explica a multiplicação dos formadores de opinião, em lugar da meia dúzia de sábios que antes decidiam em quem a gente devia votar, o que é bom ou ruim para nós, para onde vão o Brasil e o mundo.

Como a gente costuma sentir e pensar conforme o lugar onde a gente pisa, de olhos e ouvidos bem abertos, para saber o que está acontecendo, criou-se um fosso entre os veículos e a sua freguesia, ou seja, entre os geradores e os consumidores de informação.

A grande mídia hoje trata de assuntos que geralmente não interessam à grande maioria da população. Está falando sozinha para uma platéia cada vez mais reduzida. Pendurados nos telefones ou apurando matérias no “São Google”, freqüentando sempre os
mesmos ambientes e gabinetes com ar condicionado, com medo de sujar os sapatos, os repórteres já não conseguem surpreender nem seus chefes, com suas matérias burocráticas, previsíveis, repetitivas, quanto mais os simples mortais.

São os filhos da pauta, que se limitam a cumprir a pauta no horário estabelecido, sem brigar para trabalhar, e ir até onde for preciso, para descobrir uma história inédita, novos personagens, algo que faça o leitor, ouvinte ou telespectador comentar com quem está a seu lado: “você precisa ver isso aqui!”.

Cada vez que eu saía da redação para fazer o que chamava de “reportagem externa”, brincando com os colegas _ como se fosse possível fazer reportagem sem sair da redação _, voltava com mais duas ou três matérias que me atropelavam pelo caminho. Diziam que eu tinha muita sorte para garimpar boas histórias, mas se ficasse só no telefone ou na internet
não haveria jeito de descobri-las.

Certa vez me dei conta de que alguma coisa estava mudando na relação entre o jornalismo e sua excelência, o leitor, que nos garante o salário. Estava no interior do Ceará, na cidade de Redenção, fazendo uma reportagem para O Globo. Lá pelas oito da noite, eu e o fotógrafo procuramos algum lugar com televisão para ver o telejornal, poucas semanas antes da eleição presidencial de 2006.

No boteco que encontramos, chamado “O Gatinha”, estava todo mundo assistindo ao novo DVD do Reginaldo Rossi, o Roberto Carlos do Nordeste. Perguntei ao Gatinha se não dava para ele ligar na televisão só pra gente ver o jornal. Ele até se assustou com meu pedido:
_ O senhor tá maluco? Se eu fizer isso, a freguesia me mata, vai todo mundo embora do bar…

Voltei ao Ceará no ano passado para fazer uma série de reportagens para a edição de aniversário da revista Globo Rural, onde já tinha trabalhado, quando a publicação foi lançada, em 1985. Ali deu para ver como o Brasil tinha mudado nestes últimos anos e eu não sabia, ninguém tinha me contado.

Em Juazeiro do Norte, sertanejos que haviam migrado para o Sul Maravilha nos paus-de-arara de tantas secas, estavam de volta, lavrando em terras irrigadas, com assistência técnica, e morando em casas confortáveis.

Em lugar dos jegues, andando a esmo, abandonados nas ruas da cidade, eles agora montavam modernas motocicletas. Quando meu laptop pifou, me informaram no hotel que havia uma lan-house ali ao lado. Só que todas as máquinas estavam ocupadas e havia fila de espera…

Brotou um novo e bonito Brasil nas pobres terras nordestinas de antigamente _ e só a imprensa não viu. O Nordeste hoje cresce em ritmo chinês, você vê obras por toda parte, cacimbas onde não havia água, antenas parabólicas onde antes não havia uma lâmpada. No Mato Grosso, vi enormes máquinas colheitadeiras trabalhando noite adentro nas plantações de soja. Em Foz do Iguaçu, no Paraná, no entorno do grande lago de Itaipu, encontrei uma fartura de alimentos nas terras de pequenos agricultores, nas colônias de pescadores, por toda parte.

Poderia passar o resto do dia aqui contando histórias de um Brasil que não está na mídia, que não fala em crise, que desistiu de saber das notícias de Brasília, invariavelmente assustadoras, e que prefere ver o DVD novo do Reginaldo Rossi numa televisão de plasma, tomando uma cervejinha, que ninguém é de ferro.

O problema é que a grande maioria dos meus colegas jornalistas deixou de freqüentar as quebradas do Brasil real _ lá aonde a cotação da soja chega logo cedo pela internet, e dá para saber o que aconteceu com na abertura da Bolsa de Hong Kong.

Se os jornais só vão dar estes números no dia seguinte, e não falam do mundo em que vive o brasileiro que não é celebridade, nem cometeu algum crime, para que eles servem então? Em qualquer região deste interiorzão do Brasil, há mil histórias esperando por um repórter para ser contadas, mas matérias feitas de gente e não só de números de safra e de exportação. Se a gente não vai lá, como saber?

A imprensa de papel só não vai acabar se ela for capaz de se reinventar, de redescobrir este Brasil real, onde as coisas estão acontecendo. E voltar a falar do que realmente interessa aos freqüentadores dos botecos de Redenção, aos jovens que sonham com uma banda larga
em casa, aos idosos que hoje viajam de avião para visitar suas famílias, aos milhões de
brasileiros que não se vêem retratados em nenhum lugar da mídia.
Apesar de tudo, gosto deste meu ofício _ não sei viver de outro jeito, não sei fazer
outra coisa. É muito bom poder ganhar a vida como jornalista neste tempo e nesta terra em
que vivemos. Ainda temos muita história pra ser contada. Basta querer ir atrás, brigar pela
pauta e pelo espaço para publicar. Vale a pena.
Mas já vou logo avisando: dá trabalho e não faz bem para os cabelos…
Muito obrigado.

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