RELAÇÃO DA MÍDIA COM O PODER E AS EMPRESAS: OS DOIS LADOS DO BALCÃO

RELAÇÃO DA MÍDIA COM O PODER E AS EMPRESAS: OS DOIS LADOS DO BALCÃO

HOSPITAL ALEMÃO OSWALDO CRUZ

 

PALESTRA NO DIA 16/9/2009

 

Boa noite.

Como de costume, vamos começar pelos agradecimentos.

Obrigado a todos por terem vindo a este encontro.

Agradeço também à Diretoria Clínica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz o convite para estar aqui hoje com vocês.

E agradeço sobretudo à família do grande Sergio de Souza por ter lembrado do meu nome para participar deste ciclo de palestras.

Mesmo já não estando entre nós, o velho Serjão continua reunindo pessoas para discutir suas grandes paixões, além da Lana, claro: o jornalismo e os rumos do Brasil.

Propus como tema para esta noite o tema “Relação da mídia com o poder e com as empresas – os dois lados do balcão”.

E peço licença para ler o texto que preparei para o nosso encontro, pois até hoje não aprendi a falar de improviso, apesar da longa convivência com o presidente Lula…

 

Por não se tratar de uma ciência exata, não dispondo de receitas e fórmulas prontas, aprendi que o debate é sempre a melhor maneira de esclarecermos dúvidas e descobrirmos novos caminhos para o nosso trabalho. Por isso, em seguida me colocarei á disposição de vocês para responder às perguntas.

 

Eu sei que a mídia não gosta de discutir a mídia. Basta ver os nossos veículos, que fogem do assunto como o diabo da cruz.

Mas, como profissionais de comunicação, nós temos o dever de prestar contas à sociedade, que é quem nos paga o salário e garante a sobrevivência do nosso ofício.

 

Vivemos neste momento a maior revolução nas comunicações humanas desde a invenção da imprensa por Johann Gutemberg, há mais de 500 anos.

A diferença é que agora tudo acontece muito mais rapidamente, num processo alucinante de mudanças que ainda está só começando, e ninguém pode prever onde vai parar.

De uma hora para outra, parece que viramos todos emissores e receptores de informações on-line, full-time, sem um guarda de trânsito que nos oriente neste cipoal de notícias e opiniões.

 

Há até quem preveja que a imprensa vai acabar, pois, se todos podem produzir e consumir notícias, então o jornalista torna-se dispensável, algo obsoleto, inútil.

Penso exatamente o contrário. Vamos precisar cada vez mais de jornalistas bem preparados dos dois lados do balcão _ tanto nas redações como nas assessorias de imprensa _ para ordenar esse fluxo contínuo de informações e nos ajudar a entender, afinal, o que está mesmo acontecendo.

 

Há um enorme paradoxo nesta explosão do noticiário eletrônico globalizado via internet que está levando a grande mídia a viver uma profunda crise existencial.

Ao mesmo tempo em que se multiplicaram os meios e as fontes, a verdade é que todos os veículos de todas as mídias foram-se tornando cada vez mais parecidos uns com os outros.

Em lugar da diversificação, o que temos hoje, cada vez mais, é a mesmice, a repetição das mesmas informações por diferentes meios em moto contínuo.

 

Querem ver? Basta pegar as manchetes nos principais sites de notícias durante o dia.

Vocês verão as mesmas manchetes na escalada dos telejornais desta noite e nas primeiras páginas dos jornais impressos de amanhã.

Esta indiferenciação dos produtos afeta principalmente a imprensa diária de papel, que deixou de ser o principal arauto das novidades, vindo hoje a reboque do noticiário on-line e das manchetes da televisão.

Dá sempre a impressão de que já vimos todas aquelas notícias que antes nos surpreendiam nos jornais de papel durante o café da manhã.

 

Isso quer dizer que a imprensa escrita está com seus dias contados, como não se cansam de anunciar os profetas do apocalipse midiático?

Não, ao contrário _ e é aí que reside o paradoxo. São as redações dos nossos grandes jornais que ainda produzem mais de 90% de todo o noticiário que alimenta os sites e as pautas dos meios eletrônicos, sem falar nas colunas revendidas pelo país afora.

Nunca tivemos uma concentração tão grande do noticiário em tão poucas mãos.

Acabaram-se praticamente as redes de sucursais e correspondentes que alimentavam o noticiário fora do eixo São Paulo-Rio-Brasília.

A conseqüência disso é um noticiário cada vez mais padronizado em todas as regiões do país, centralizado nos gabinetes dos três poderes.

Os fatos da vida real costumam passar ao largo da nossa imprensa, com suas redações cada vez mais distantes da realidade dos seus leitores, ouvintes e telespectadores.

Criou-se um verdadeiro abismo entre o Brasil oficial da imprensa e dos políticos, e o Brasil real dos seus habitantes nas diferentes regiões do país. Por isso, costumo dizer que temos Brasília demais e Brasil de menos no noticiário.

 

A fonte primária de quase toda notícia nacional _ em qualquer site, blog, rádio ou televisão do país _ vem de uma das nossas três grandes agências: Estado, Folha e Globo.

Os principais veículos regionais alimentam-se nestas mesmas fontes. Criou-se um noticiário circular em que você já não sabe o que é fato de hoje e o que é fato de ontem, o que é fato de verdade e o que é mera especulação, quem disse o quê e aonde.

 

Vai levar algum tempo até a gente começar a entender o que está acontecendo, mas já dá para vislumbrar alguns sinais positivos desta nova ordem _ ou desordem _ da comunicação humana:

 

  • Opinião pública deixou de ser sinônimo de opinião publicada. Alguns velhos amigos meus não se conformam, mas a opinião de meia dúzia de veículos e de colunistas já não faz a cabeça do brasileiro _ e as eleições presidenciais nos Estados Unidos no ano passado deixaram isto muito evidente.
  • Os receptores de informação já não se comportam de forma passiva, bovinamente aceitando qualquer prato feito oferecido pela imprensa. Isso fica evidente nos comentários enviados não só às redações, mas aos sites e blogs, contestando notícias e opiniões, colocando em dúvida as informações publicadas.
  • A opinião pública hoje se forma a partir de um caleidoscópio de fontes, ainda não devidamente catalogadas, que incluem de tudo, das rádios e televisões comunitárias aos twitters e blogs pessoais, passando por publicações de todo tipo editadas por igrejas, sindicatos, entidades ligadas a índios ou sem-terra, serviço de alto-falantes, o diabo a quatro, até chegar ao boca a boca.
  • Em São Paulo, já há serviços especializados em aferir a imagem de empresas neste crescente mundo da comunicação-fora-da-grande mídia, em especial na internet, num trabalho de informação e contra-informação.
  • Multiplicam-se nas bancas as publicações especializadas dirigidas a públicos específicos e ganha espaço crescente a chamada imprensa popular, incluindo aí os jornais que são distribuídos gratuitamente. Sem entrar no mérito sobre a qualidade destas publicações, o fato é que se está criando um novo leitorado, conquistando novos públicos que antes estavam fora do mercado de impressos.
  • Se, de um lado, a grande mídia apresenta-se cada vez mais concentrada, como disse antes, de outro está havendo uma saudável universalização do fluxo de informações, de baixo para cima e para todos os lados, com novos atores ocupando o palco com novas linguagens e temáticas.

 

Diante desse quadro mutante, entendo que devemos também mudar nossas cabeças. Vale a pena gastar mais do nosso tempo discutindo como nos preparar para tirar o melhor proveito possível destas mudanças que estão ocorrendo. É mais produtivo do que continuar analisando e lamentando cada coisa que a grande mídia publicou ou deixou de publicar.

Nos dois anos em que trabalhei como secretário de Imprensa do presidente Lula no Palácio do Planalto eu discutia muito isso com meus colegas de governo.

Nossa relação com a imprensa, de qualquer latitude, deveria ser de convivência e não de confronto _ mais ou menos como é necessário estabelecer uma forma de convivência no Congresso Nacional _ gostemos ou não de quem são nossos interlocutores, sejam eles políticos ou jornalistas.

Por uma razão muito simples: brigar com a imprensa é geralmente uma luta inglória porque ela vai ficar sempre com a última palavra. De outro lado, não devemos ficar apenas atendendo às demandas da imprensa, adotando uma posição defensiva de ficar dando explicações.

O novo desafio é criar uma estrutura e montar equipes com profissionais qualificados que possam produzir informações confiáveis e esclarecimentos úteis à sociedade, nas mais diferentes plataformas, antecipando-nos às cobranças.

A notícia que já foi para o ar ou para a banca, não tem volta. Precisamos sempre pensar nas próximas notícias, nas edições seguintes.

Criamos no governo federal, ainda em 2003, um site de caráter jornalístico para divulgar todas as ações da Presidência da República, o “info.planalto. gov.br”, que vem prestando bons serviços a todos os cidadãos, e não só aos jornalistas.

Dividimos a redação da Secretaria de Imprensa em editorias para atender às diferentes mídias. Esta estrutura foi mantida e aprimorada pelos que me sucederam, mas é claro que nada substitui o contato direto da autoridade, seja ela pública ou privada, com os jornalistas.

Foi à medida em que o presidente Lula e seus ministros passaram a falar mais freqüentemente com os jornalistas e com os donos dos meios, graças ao ótimo trabalho do Franklin Martins, que houve uma significativa melhoria nas relações do governo com a mídia.

Fora os casos extremos de má-fé, que devem ser levados às ultimas conseqüências, inclusive à Justiça, prefiro sempre o caminho do diálogo, em todos os níveis da estrutura dos veículos.

Para isso, precisamos ter uma equipe de comunicação bem montada, com objetivos claros sobre os caminhos a serem seguidos, tanto para a divulgação dos atos de governo como do lançamento de um novo produto ou programa.

Um detalhe importante: isso só será possível, no governo ou nas instituições públicas e privadas, se os responsáveis pelo setor de comunicação puderem participar diretamente das diferentes instâncias de decisão e não só na hora de apagar incêndios.

Chico Buarque, vocês devem se lembrar, sugeriu certa vez que se criasse o Ministério do Vai dar Merda.

É um pouco esse também o papel de quem cuida da área de imprensa, pois a informação tem que circular em duas vias. Não basta falar apenas. É preciso aprender a ouvir para saber o que está acontecendo fora dos palácios e alertar seus ocupantes. É preciso reservar uma boa parte do nosso tempo para conversar com jornalistas, principalmente com quem pensa diferente de nós.

 

Todos aqueles que pela natureza do seu trabalho devem prestar contas sobre seus atos à sociedade, por meio dos jornalistas, devem-se preparar antes de falar, informando-se sobre o veículo, a pauta e os objetivos do jornalista. Municiar-se previamente de dados é fundamental para não ser surpreendido durante a entrevista ou falar o que não deve. O objetivo da maioria dos jornalistas é apenas arrancar o máximo de informações dos seus entrevistados. Cabe às fontes só falar só daquilo que pode ser de interesse público.

 

Não faço parte daqueles que vêm um complô ou conspiração da imprensa toda vez que o noticiário negativo predomina, seja em assuntos da esfera pública ou de uma empresa ou entidade privada.

O que ocorre na maioria das vezes é o contrário: a partir da denúncia feita por um determinado veículo, os concorrentes correm atrás para fazer a próxima denúncia e então se estabelece o espírito de manada _ uma verdadeira gincana para ver quem consegue publicar a próxima denúncia, mais bombástica do que a anterior.

 

Para quem já conheceu os dois lados do balcão _ ou seja, o trabalho em redações ou assessorias de imprensa _ posso garantir a vocês: muitas vezes aquilo que se imagina tratar de fina estratégia não passa de mero improviso. E o acaso freqüentemente é muitas vezes o fator decisivo, para o bem ou para o mal. Se tivermos bom senso, na maioria das vezes será para o bem.

Qualquer que seja o jornalismo do futuro ou o futuro do jornalismo, só uma coisa não vai mudar: a natureza do nosso ofício, quer dizer, contar o que está acontecendo – da forma mais honesta possível, a serviço do conjunto da sociedade e não de interesses particulares.

Como nem todo mundo pensa assim, é preciso que a sociedade tenha instrumentos para se defender da imprensa, a começar pelo direito de resposta que precisa urgentemente ser regulamentado.

Todos aplaudimos o fim da Lei de Imprensa criada pela ditadura militar, mas são necessários instrumentos que possam impor limites éticos a empresas e profissionais _ o jornalismo não pode ser uma terra de ninguém. Assim como os médicos têm seus conselhos profissionais e os advogados a OAB, defendo o mesmo para os jornalistas.

 

Pouco me importa saber quais serão as plataformas do futuro _ tudo dependerá sempre do conteúdo que formos capazes de produzir. Até porque, hoje, por exemplo, trabalho ao mesmo tempo para um portal da internet, o iG, onde escrevo o blog Balaio do Kotscho, e faço reportagens para uma revista mensal de papel, a Brasileiros.

Em qualquer lado do balcão ou veículo, empresa ou governo onde esteja trabalhando, os objetivos são os mesmos: produzir informações que possam ser úteis à sociedade.

Em outubro agora, vou completar 45 anos de trabalho como jornalista e não me arrependo da escolha que fiz ainda menino.

Que me perdoem os médicos, mas o jornalismo é para mim a melhor profissão do mundo _ e não existe país melhor do que o Brasil para exercê-la.

Já falei demais. Vamos ao debate.

Muito obrigado.

 

São Paulo, 16 de setembro de 2009

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