ÉTICA NA COBERTURA DA CAMPANHA ELEITORAL

ÉTICA NA COBERTURA DA CAMPANHA ELEITORAL

TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DA BAHIA

SALVADOR – 31/7/2008

Bom dia,

Sr. Presidente do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia,

 

em nome de quem cumprimento as demais autoridades presentes,

Meus caros colegas jornalistas e radialistas.

 

A princípio, confesso que estranhei o convite para estar com vocês hoje, aqui no Tribunal Regional Eleitoral da Bahia, para debater o tema “A mídia e as eleições”.

Já fiz palestras em tudo quanto é lugar _ universidades, sindicatos, igrejas, empresas, clubes, Congresso Nacional, assembléias.

Mas é a primeira vez que eu sou convidado para falar num tribunal…

Por isso, antes de mais nada, quero agradecer ao meu velho amigo Carlos Navarro Filho e aos demais organizadores deste evento.

É sempre uma alegria poder voltar a Salvador.

Como não aprendi ainda a falar de improviso _ mesmo depois de tantos anos acompanhando o presidente Lula… _, vou inicialmente ler o texto que preparei para este encontro e, em seguida, me colocar à disposição para o debate.

 

Vem bem a calhar o tema deste encontro no momento em que o Brasil dá a largada a mais uma campanha eleitoral.

Justiça e imprensa têm, a meu ver, as mesmas responsabilidades para zelar pela lisura da campanha, para que a democracia se exerça na sua plenitude.

São estas duas instituições, afinal, que podem coibir os abusos do poder econômico, denunciando o que está errado e fiscalizando os candidatos nas próximas eleições municipais.

Nossas atividades são complementares, uma está umbilicalmente ligada à outra.

De um lado, a imprensa cobre as ações da Justiça Eleitoral; de outro, a imprensa pode, com suas reportagens, provocar a ação de juízes e promotores no combate às irregularidades denunciadas pela mídia.

 

É mais difícil para nós, jornalistas, fazer a cobertura das eleições para prefeitos e vereadores do que as eleições gerais para a prsidência da República, os governos de Estado e o Congresso Nacional.

Acredito que a mesma coisa pode-se dizer dos integrantes da Justiça Eleitoral.

Por uma razão muito simples: sabemos todos que, quanto menor o município, maiores são os controles da imprensa e as pressões sobre o Poder Judiciário.

Nas eleições gerais, os candidatos caminham com a imprensa no seu pé e a Justiça sempre atenta aos seus passos.

Mas o mesmo não se pode dizer das eleições municipais num país das dimensões do Brasil, com seus quase seis mil municípios.

Faltam-nos pernas e, muitas vezes, iniciativa e disposição para ver o que acontece nas campanhas pelos grotões do Brasil, onde a imprensa ainda está atrelada a grupos políticos oligárquicos habituados a agir fora e acima da lei.

 

O coronelismo em nosso país ainda não acabou _ apenas mudou de métodos, mas continua forte em largas regiões do Brasil.

Em recente palestra no IV Congresso Brasileiro de Publicidade, o jornalista Ancelmo Góis, meu colega colunista de “o Globo”, listou as quatro pragas que afligem a imprensa brasileira.

Entre elas, falou do poder das famílias de políticos que controlam os meios de comunicação em seus Estados, e do crescente poder das igrejas evangélicas nas emissoras de rádio e televisão do interior do país.

O “coronelismo eletrônico” daí decorrente gerou verdadeiros monopólios da informação em vários Estados, como se pode constatar com o domínio dos Collor, em Alagoas; dos Sarney, no Maranhão; dos Franco e dos Alves, em Sergipe; dos Magalhães, aqui na Bahia, e por aí vai.

Poder político, poder econômico e poder da comunicação costumam andar de braços dados principalmente nos períodos eleitorais quando estão em jogo interesses de toda ordem, exacerbando um quadro de abusos e privilégios.

Como fica o jornalista nesta história?  Como falar em independência editorial e liberdade de expressão? Como exigir “ética na cobertura do processo eleitoral”, tema da minha palestra?

 

Lembro-me de um episódio emblemático que aconteceu comigo na campanha presidencial de 1989.

Eu sempre procurava marcar as entrevistas coletivas do então candidato Lula logo para a chegada dele nos aeroportos, preocupado com o horário de fechamento dos veículos.

Em Maceió, quando vi que não havia nenhum jornalista esperando o candidato, cobrei a falha o companheiro responsável pela comunicação do PT em Alagoas.

Nunca vou me esquecer da singela resposta que ele me deu:

__ Companheiro Kotscho, eu avisei todo mundo como você me pediu… Mas aqui não vai ter jeito… O homem _ referindo-se a Collor _ domina tudo aqui. É quase tudo dele, e o que não é dele é de gente que tem medo do homem ou deve favor pra ele …

Se numa eleição presidencial já era assim, vocês podem imaginar o que acontece neste momento em Cabrobó de Dentro ou Quixeramobim de fora.

Muitas vezes, não se trata nem do atrelamento político-partidário que coloca jornais e emissoras a serviço do poder municipal.

Trata-se de uma simples questão de sobrevivência já que as Prefeituras são os principais _ e muitas vezes únicos _ anunciantes destes veículos. Quem ousaria criticar o prefeito que financia a emissora ou o jornal?

No caso de aparecer algum maluco nestes pequenos municípios do interior, disposto a praticar o chamado jornalismo independente, o cabra ainda corre o risco de ir preso e ser processado, como vira e mexe ainda acontece nos fundões do nosso Brasil.

 

Esta é a realidade em que vivemos, goste-se dela ou não. Como repórter, posso brigar com todo mundo, menos com os fatos.

Outro fato que desequilibra as campanhas no interior e torna menos democrático o processo eleitoral é o instituto da reeleição.

Na maioria dos municípios brasileiros, fora dos grandes centros, os candidatos não têm acesso ao horário gratuito do rádio e da televisão, a melhor forma que encontramos para que todos possam apresentar suas propostas.

Some-se o controle das Prefeituras sobre os meios de comunicação locais ao enorme poder do chefe do executivo candidato à reeleição para termos uma idéia de como é cada vez mais difícil a vida dos candidatos de oposição.

Um exemplo disso eu tive outro dia numa cidade do litoral de São Paulo.

O prefeito candidato à reeleição foi pessoalmente tirar satisfações com o dono de um pequeno armazém, querendo saber porque o comerciante estava falando mal dele.

Assustado com a braveza da autoridade, o coitado prometeu votos e fidelidade eterna ao prefeito. Caso contrário, como sabemos, no dia seguinte certamente os fiscais da Prefeitura descobririam alguma irregularidade para multar ou fechar o boteco.

Num sistema em que tudo depende do prefeito, desde conseguir uma vaga na escola ou no hospital, uma licença para empurrar um carrinho de cachorro quente ou para fazer um puxadinho na tua casa, o instituto da reeleição é uma arma poderosa contra o princípio democráticos de igualdade de oportunidades.

Já nem falo dos agrados habituais que a expectativa de mais quatro anos de poder para quem já está no poder pode oferecer aos eleitores: telhas, remédios, sacos de cimento, dentaduras, botinas, conserto das estradas, empréstimo de máquinas para arar a terra nos roçados, etc.

Minutos depois desta coluna entrar no ar, mais de cem leitores de diferentes regiões, de quase todos os Estados do país enviaram comentários relatando episódios semelhantes ou piores em suas cidades.

Em sua coluna da última segunda-feira, o colega Ruy Castro, da “Folha de São Paulo”, elencou alguns dos crimes que ele levantou no cardápio de centenas de políticos candidatos à reeleição.

Vejam que beleza:

  • desvio de dinheiro público
  • sonegação fiscal
  • falsidade ideológica
  • estelionato
  • peculato
  • apropriação indébita
  • formação de quadrilha
  • improbidade administrativa
  • lesão corporal
  • prevaricação
  • corrupção ativa
  • corrupção passiva
  • crime ambiental
  • crime eleitoral
  • crime contra a ordem tributária
  • crime contra o sistema financeiro
  • lavagem de dinheiro
  • declaração falsa de imposto de renda
  • porte ilegal de arma
  • extorsão
  • gestão fraudulenta
  • compra de votos
  • crime de prevaricação

Deve ter outros crimes não lembrados, mas o Ruy Castro parou por aí.

 

A Justiça, eu não sei o que poderia fazer para impedir que estes candidatos sejam eleitos.

Mas, se os colegas jornalistas me perguntarem o que é possível fazer diante desta situação, tenho algumas sugestões a dar.

Afinal, não basta a nós, repórteres, fazer o diagnóstico. Precisamos fazer uma autopsia, revelar o que está escondido, contar o que está acontecendo.

 

De que jeito?

Em primeiro lugar, levantando a bunda da cadeira e colocando o pé na estrada.

O nosso jornalismo, no país inteiro, lamento dizer, anda muito preguiçoso, burocrático, previsível.

Trabalha com pratos prontos que lhe são oferecidos como aconteceu recentemente com a lista dos candidatos de “ficha suja” produzida pela Associação dos Magistrados Brasileiros, a AMB.

Listas, dossiês, fitas _ os repórteres se habituaram a esperar para divulgar o que já chega pronto a eles, sem exigir apuração, investigação, transpiração.

Quando digo que é preciso largar o telefone e o google e sair da redação para descobrir coisas novas, costumo ouvir uma resposta desanimadora: “ah, mas fazer reportagem custa muito caro, a empresa não tem recursos para isso”, aquelas histórias conformadas de sempre.

Bem, se assim é, melhor seria que as empresas fechassem as portas e nós fossemos trabalhar em outro ramo.

Em primeiro lugar, não é verdade que o problema seja apenas financeiro.

Vou dar um exemplo.

Quanto custa mandar um repórter durante uma semana para qualquer região do interior do Bahia onde estejam acontecendo abusos na campanha eleitoral? Numa só tacada, poderiam levantar várias reportagens.

Repórter e fotógrafo podem ir com o carro da empresa, os hotéis e restaurantes do interior são baratos, enviar matérias ou fotos pelo notebook custa quase nada.

Quem se arrisca? O perigo é o repórter tropeçarem numa grande história e o jornal ou a emissora se ver obrigado a divulga-la para desgosto de seus acionistas ou amigos.

Para não falar só de problemas, gostaria de dar uma sugestão a todos, juízes, promotores e jornalistas.

Se é que isso já não vem sendo na Bahia, trata-se de uma iniciativa bem simples: a Justiça Eleitoral e os meios de comunicação poderiam colocar à disposição dos cidadãos telefones 0800 do tipo disque-denúncia.

Depois é só ir atrás para checar e investigar as denúncias e escrever ou tomar providências na área judicial.

Sem querer ensinar o Pai Nosso aos vigários, não queria sair daqui sem que a gente discuta alguma proposta viável sobre o que é possível fazer para tornar esta campanha mais democrática.

Sempre é possível interferir na realidade, mudar o rumo do que parece destino, sem solução.

Caso contrário, a nossa profissão perderia a razão e o sentido.

Da minha parte, como jornalista, recomendo mais reportagens fora dos gabinetes e mais perto da vida real, até para que a Justiça Eleitoral possa fazer as correções e punições necessárias.

Sou do tempo em que ser jornalista era correr risco de vida e brasileiro não podia votar para presidente da República.

Hoje, vivemos o mais longo período de liberdades públicas da história recente do Brasil.

Por isso, acho que temos a obrigação de contribuir, cada um na sua área e dentro dos seus limites, para que a democracia seja não apenas de fachada, mas uma razão de vida na busca de uma vida melhor, mais justa e mais fraterna para todos os brasileiros.

Cada eleição, afinal, é uma nova oportunidade que ganhamos para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.

Já falei demais. Agora, vamos ao debate.

 

Muito obrigado.

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