A PRODUÇÃO DA INFORMAÇÃO NOS DIAS ATUAIS E O LIVRO REPORTAGEM

A PRODUÇÃO DA INFORMAÇÃO NOS DIAS ATUAIS E O LIVRO REPORTAGEM

 

SESC CARMO

SÂO PAULO/ 11.9.2007

 

Boa noite,

 

antes de mais nada, queria agradecer a presença de vocês e o convite para falar sobre o meu trabalho como jornalista, que por acaso também virou escritor.

 

Como o tema da nossa conversa é reportagem, posso garantir a vocês que o faço com muito prazer e fico feliz em descobrir que muitos jovens também se dispõem a discutir o nosso ofício.

 

Como vocês já perceberam, não sei falar de improviso. Por isso, vou apenas fazer uma breve introdução sobre o tema proposto para podermos dedicar mais tempo ao debate a seguir, que costuma ser a melhor parte desses encontros.

Como não estamos tratando de ciência exata, se vocês convidarem 50 colegas para vir aqui eles darão 50 depoimentos diferentes. Da mesma forma, cada platéia com a qual converso tem pensamentos e interesses bem diferenciados. Daí a riqueza do debate e a pouca utilidade dos monólogos.

 

No nosso ramo, graças a Deus, não há verdades absolutas nem donos da verdade. Para mim, repórter é aquele que pergunta. Quer dizer, é o sujeito que tenta descobrir o que está acontecendo para poder contar aos outros.

Quanto mais ele se sentir inseguro diante de cada novo trabalho, melhor. Quando ele achar que já sabe tudo e não precisa mais falar com ninguém antes de escrever, então é melhor virar colunista…

É por isso que o jornalismo impresso tem hoje mais colunas do que a Grécia Antiga.

Sai mais barato, dá menos trabalho, você pode escrever o que te dá na cabeça, sem nenhum compromisso com os fatos.

Também já escrevi colunas, cometo minhas crônicas ainda hoje, mas nunca parei de pegar o carro ou o avião para ir lá onde as coisas estão acontecendo. Não posso conceber que as colunas ocupem cada vez mais o espaço que era da reportagem nos nossos jornais e revistas. Jornalista que não sai da redação _ ou, pior ainda, que não sai de casa _ pode ser qualquer coisa na vida, mas não é repórter.

E sem repórter não existe imprensa, vira um negócio indiferenciado e chato, o que ajuda a entender porque nossos veículos de mídia impressa vendem cada vez menos e despertam cada vez menos o interesse dos leitores, deixando de ser um produto de primeira necessidade para quem quer se informar sobre o que está acontecendo.

 

Além da praga das colunas, creio que outros três males atingem hoje o trabalho do repórter: a ditadura da pauta, os manuais de redação e as teses criadas pelos editores.

  • Não existia pauta quando comecei a trabalhar. Cada um tinha que se virar para achar assunto dentro de uma determinada área de cobertura. A pauta surgiu em meados dos anos 70 e foi ganhando cada vez mais importância e espaço a ponto de dizer quem o repórter deve ouvir e até o que ele deve ouvir do entrevistado. Quer dizer, viramos caçadores de aspas, gravadores ambulantes.
  • Uma coisa está ligada à outra: com os manuais de redação que procuraram padronizar tudo, da apuração à edição das matérias, passando do pensamento único para o estilo único, todos os veículos ficaram muito parecidos uns com os outros. E os repórteres foram perdendo sua identidade.
  • Para completar o quadro, amarrados pela pauta e enquadrados pelos manuais, os repórteres viraram meros instrumentos dos editores para justificar suas brilhantes teses cultivadas nas redações. Determina-se de antemão o que vai acontecer, como e quando vai acontecer. Se os fatos contrariarem as teses, danem-se os fatos.

 

Por tudo isso, tem duas ou três coisas que vocês já se cansaram de ouvir e continuarão ouvindo dos jornalistas mais velhos quando entrarem numa redação – ou antes mesmo, ainda nas escolas:

 

  • Uma delas é: a reportagem está morrendo. Participei de um debate com o Zé Hamilton Ribeiro, há mais de 30 anos, na Associação Brasileira de Imprensa, no Rio e o tema era exatamente esse: “A reportagem está morrendo?”. Outro dia, no ano passado, encontrei-me com ele num novo debate no Rio, e demos boas risadas ao lembrar daquele conversa dos anos 70, da morte eternamente anunciada. Nós dois, pelo menos, continuamos vivendo da defunta reportagem até hoje… E não reclamamos da vida…
  • A outra é: os jornais estão desistindo de fazer reportagem porque custa muito caro e estão todos em crise financeira. Além disso, reportagem ocupa muito espaço, leva tempo pra ficar pronta e o leitor não tem mais tempo pra ler textos longos, quer só notícias curtas, tipo fast-food.

 

Acontece que não concordo e não aceito nada disso como fato consumado.

Existe uma crise existencial da mídia escrita _ é claro, ninguém vai negar _, mas que não é causada apenas pela concorrência das novas tecnologias ou falta de dinheiro em caixa.

Vivemos hoje a maior revolução nas comunicações humanas desde a descoberta da Imprensa por Gutemberg, há mais de 500 anos, e é preciso repensar qual será o nosso papel nessa nova etapa da história.

Eu vim aqui para dizer a vocês exatamente o contrário das teses de burocratas de redação e acadêmicos frustrados.

Quero provar a vocês que a boa e velha reportagem é ainda o melhor caminho para a imprensa de papel sair desse atoleiro em que se encontra, para diferenciar um veículo do outro e assim garantir seu espaço na selva midiática.

Descobrir e contar bem contado uma história original que o teu concorrente não tem é o jeito de sair da mesmice das colunas, do resumo do noticiário que todo mundo já viu na internet e nos telejornais da noite, devolvendo ao jornal um papel que é dele: levantar novos assuntos, apontar tendências, explicar o que se passa.

O livro reportagem, pelo menos no meu caso, é conseqüência do trabalho que fiz em jornais e revistas. Como o espaço da imprensa escrita é cada vez mais reduzido, o livro se tornou o escoadouro natural de jornalistas que fazem um trabalho de fôlego mais longo.

Para isso, é preciso ousar, correr riscos, apostar na criatividade, inovar nos assuntos, no estilo, na apresentação gráfica.

 

O jornal precisa voltar a ser feito da rua para a redação, ou seja, o repórter é quem tem que levar as novidades para os editores. É ele quem pode surpreender o leitor, invertendo o processo que se vê hoje em que a realidade é pautada por meia dúzia de sábios nas redações. Jornalismo é novidade _ se não tiver novidade, é papel velho, não serve pra nada. Livro é para ficar.

 

A melhor prova do que estou dizendo é que, apesar de tudo, a reportagem sobrevive. Tem cada vez menos hoje em dia, é verdade, virou um produto raro como mico leão ou caviar de esturjão, mas a reportagem sobrevive graças a meia dúzia de teimosos em cada redação.

Se a cada dinossauro desses se juntar meia dúzia de jovens dispostos a fazer do jornalismo uma opção de vida e não apenas uma opção profissional, a reportagem vai sobreviver, vai fazer a diferença.

Em qualquer redação, em qualquer canto do país, vocês ainda vão encontrar gente disposta a brigar para trabalhar, que é o que os repórteres de verdade precisam fazer sempre.

Nossa função é encher o saco mesmo, provocar, contestar, não aceitar os manuais e os pratos feitos da pauta como uma determinação divina que ninguém pode questionar.

 

Escrever bem também ajuda, claro, mas é apenas uma ferramenta de trabalho importante pra gente se fazer entender.

Nosso velho amigo Shakespeare já dizia que escrever ou é fácil ou é impossível.

Muito mais importante é o caráter do profissional, é o sentimento que o move, a sua disposição de levar seu ofício às últimas conseqüências _ é fazer com prazer e gosto o trabalho de informar para transformar. Como dizia Samuel Wainer, é encontrar no trabalho do dia a dia no jornalismo nossa razão de viver.

 

Acredito tanto nisso que, junto com dois velhos colegas de redações da vida, o Hélio Campos Mello e o Nirlando Beirão, estou trabalhando numa nova revista mensal de reportagens, que se chama “Brasileiros” e já está no terceiro número.

O nosso objetivo é dar espaço para personagens e lugares que não estão na mídia. Não percam…

 

Pra variar, prometi uma breve introdução e acabei escrevendo e falando demais. Mas quando já ia encerrar este texto de abertura, chegou um e-mail que me deixou muito feliz e quero partilhá-lo com vocês.

Quem enviou a mensagem foi Fernanda Serpa, jovem de 17 anos, caloura de Jornalismo da PUC do Paraná, que tinha acabado de ler meu último livro sobre a vida de repórter. Vejam que beleza a paixão desta menina pelo jornalismo:

“Vou me apoiar nesta tua vida de jornalista, e correr atrás da minha, porque é isso que quero para mim, apesar de meus pais não me apoiarem muito. Eles deixaram eu escolher o que queria para o vestibular e eles sabiam que queria jornalismo desde os 9 anos, e não sei de onde que eu tirei esta idéia.

Um dia me deu um click e eu pensei comigo: eu vou ser jornalista. Mas eu quero partir pra área de impressos. Eu sei que a gente começa pequeno, devagar, mas eu quero chegar à edição ou ser uma excelente redatora, sei lá… Pensando bem, eu quero ser tipo bom-bril, fazer de tudo um pouco, estar pronta pra tudo, aquela pessoa que mete a cara e confia no próprio taco. Pronto, me decidi! É isso que eu vou ser! Agora é correr atrás, ralar na faculdade, ralar por um estágio, brigar por uma vaga no mercado de trabalho!

 

É isso aí. São jovens como a Fernanda que mantêm viva nossa fé na profissão e não dão a ninguém o direito de entregar os pontos diante das primeiras dificuldades.

 

Agora vamos ao debate.

Muito obrigado.

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