SOBRE LIBERDADE DE IMPRENSA

SOBRE LIBERDADE DE IMPRENSA

 

PALESTRA/ ANJ

II CONFERÊNCIA LEGISLATIVA

BRASÍLIA _ 8/5/2007

 

Bom dia,

 

Caros colegas de mesa, autoridades presentes e participantes desta conferência.

 

Antes de mais nada, gostaria de agradecer o convite da direção da ANJ para estar aqui com vocês hoje participando em tão boa companhia deste encontro que vai discutir a quantas anda a liberdade de imprensa no nosso continente.

Já perdi a conta de quantos debates iguais a esse participei para discutir o mesmo tema, mas é a primeira vez que eu sou convidado pela Associação Nacional de Jornais, o que muito me honra.

Vou me ater a falar do Brasil, que eu conheço um pouco melhor.

Quero prestar inicialmente minha homenagem ao amigo Octavio Frias de Oliveira, não apenas um defensor, mas um entusiasmado praticante da liberdade de imprensa em seu jornal e no nosso país como pude testemunhar nos longos anos em que com ele tive o prazer de trabalhar.

E ao colega repórter Luiz Carlos Barbom Filho, de 37 anos, assassinado na noite do último sábado, no interior de São Paulo, após ter denunciado um esquema de aliciamento de menores envolvendo vereadores e empresários da cidade de Porto Feliz.

*

Vamos ao tema que nos trouxe aqui.

Lembro-me dos primeiros debates sobre liberdade de imprensa de que participei ainda nos anos 60 do século passado, quando um pequeno grupo de jornalistas rodava o país a convite de universidades, igrejas e sindicatos para simplesmente contar o que estava acontecendo _ e os jornais estavam proibidos de publicar.

A imprensa vivia sob censura prévia e corria-se o risco de sair do debate direto para as prisões do governo militar. Falar e escrever, naqueles tempos, era muito perigoso.

Parece que foi ontem, mas muita gente finge que já se esqueceu. Vira e mexe ouço alguém falando que a liberdade de imprensa está novamente ameaçada em nosso país, como se esta não fosse uma conquista de toda a sociedade brasileira _ e que não tem volta.

Riscos ao exercício da profissão, como nos mostra a morte do jovem repórter Barbom, sempre haverá, mas isso não ameaça a instituição nem deve nos impedir de discutir francamente os rumos da imprensa brasileira e do que estamos fazendo com a liberdade conquistada.

*

Como não sou um teórico nem especialista no assunto, vou fazer apenas uma breve introdução do ponto de vista bem prático de um velho repórter que continua apaixonado pelo seu ofício e aprendeu no dia a dia do trabalho a enfrentar os obstáculos colocados entre os fatos e o leitor.

Por isso, a primeira pergunta que faria é bem singela: liberdade de imprensa para quem?

Para nós, jornalistas, podermos escrever tudo o que nos vem à cabeça, mesmo sem sair da redação?

Para os empresários da comunicação poderem divulgar qualquer coisa que seja vendável a qualquer preço?

Ou é a liberdade de imprensa um direito que a sociedade tem de ser corretamente informada sobre todos os assuntos que sejam de seu interesse?

Liberdade de imprensa, para mim, é algo tão sagrado que a discussão sobre o seu exercício não pode se limitar aos próprios jornalistas, aos empresários da mídia e aos eventuais donos do poder de qualquer latitude.

 

Por coincidência, estava lendo estes dias o novo livro de Frei Carlos Josaphat sobre “Ética e Mídia” que será lançado hoje à noite em São Paulo.

Ao tratar da liberdade de imprensa, ele escreve:

“A liberdade foi a primeira e continua sendo sempre a necessária conquista da mídia. Mas, nessa marcha e nessa luta da mídia, a liberdade se vê convidada, se não intimada, a não resvalar no individualismo do capricho e da ambição, a ter o sentido do dever e do direito, a se afirmar com responsabilidade. É a sua forma plena e perfeita de se realizar. A liberdade é indispensável, mas não basta”.

Pouco importa o nome que se dê a isso, mas, como em qualquer outra atividade que envolve o interesse público, precisamos respeitar determinadas regras do jogo, que devem valer tanto para profissionais como para empresários do setor.

Liberdade absoluta não existe nem na casa da gente e a imprensa não pode ser uma terra de ninguém em que cada um faz as suas próprias leis.

Precisamos acabar com esta história de que quem não estiver satisfeito que mande uma carta à redação, vá se queixar ao bispo ou entre na Justiça _ e qualquer crítica que se faça a um jornalista ou a um veículo vira logo uma ameaça à liberdade de imprensa.

Se muitas vezes nem o direito de resposta é respeitado por boa parte dos veículos, que só publicam cartas de leitores contestando alguma informação, quando e como bem entendem, como é que o cidadão comum vai se defender do poder da imprensa?

Sem falar na celeridade da nossa Justiça…

 

O fato é que a mesma mídia que tudo discute e tudo questiona se recusa sequer a debater o estabelecimento de normas ou marcos regulatórios em defesa da sua própria atividade, como os publicitários já fizeram há muito tempo com a criação do CONAR.

Ou há bem mais tempo fizeram os advogados, com a OAB, e os médicos, com seus conselhos regionais e o nacional de Medicina.

Fizeram isso não só em defesa da sociedade, mas também, é claro, dos seus próprios interesses para preservar a dignidade e a credibilidade no exercício dos seus ofícios.

Cuidam de questões fundamentais para isso, como a formação acadêmica, o acesso e o exercício profissional.

Em seu livro já citado, Frei Josaphat, do alto dos seus 83 anos, após pesquisar e escrever sobre o tema a vida toda, ainda tem dúvidas, e pergunta:

“Será que a mídia deixaria que se falasse dela? Permitirá que se tome distância para vê-la e apreciá-la de corpo inteiro, na complexidade e na originalidade única de sua influência, a mais abrangente e constante?”.

*

Empresas e profissionais sérios só teriam a ganhar se tomassem a iniciativa de abrir este debate para toda a sociedade.

Tive a oportunidade de dizer isso pessoalmente ao Nelson Sirotsky quando trabalhava como Secretário de Imprensa da Presidência da República, em 2004.

Propus a ele que começasse a discussão pela Fenaj, a Federação Nacional dos Jornalistas, com quem a ANJ não mantinha qualquer diálogo. Por coincidência, Sirotsky e Sergio Murilo, o presidente da Fenaj, eram recém-eleitos, jovens e gaúchos.

Não sei no que deu a conversa dos dois, mas continuo defendendo um amplo debate sobre as relações da mídia com o poder e com a sociedade, até se chegar aqui ao parlamento, que é o lugar certo para decidir as regras do jogo.

Como aconteceu no início da minha carreira, só que agora em pleno regime de liberdades públicas, continuo achando que precisamos levar este debate a todos os setores representativos da sociedade civil _ ou seja, à nossa freguesia, aos que consomem nossos produtos informativos.

O que mais ameaça hoje o futuro da nossa atividade, neste momento em que, com a disseminação das novas mídias eletrônicas,  passamos a ser ao mesmo tempo emissores e receptores de informações?

É o risco de nos tornarmos supérfluos, deixando de ser um instrumento de primeira necessidade, que é vital para a democracia, para nos tornarmos apenas mais um ingrediente no imenso balaio de versões e opiniões despejado on-line na cabeça do pobre freguês.

Deixamos de ser os donos da verdade, os grandes formadores da opinião pública, o que até acho bom… Por isso, devemos ter a humildade de discutir abertamente com a sociedade o que pretendemos ser no futuro, que papel nos caberá quando todo mundo tiver seu próprio blog, site, orkut, o diabo a quatro.

Quaisquer que sejam as plataformas, devemos é nos preocupar mais com o conteúdo dos nossos produtos, de forma a torná-los novamente indispensáveis, diferenciados, atendendo às novas demandas informativas da sociedade.

 

Vivemos uma profunda crise existencial em todos os setores da mídia, mas noto pouca iniciativa ou disposição para virar o jogo, ousar, buscar novos caminhos _ como tantas vezes na vida fez o “seu” Frias, sempre começando e recomeçando, nunca satisfeito com o que já havia feito.

 

O que nós estamos fazendo hoje com a nossa liberdade?

Estamos indo mesmo até o limite dela para contar o que está acontecendo na nossa cidade, no nosso país, no mundo?

Estarão a grande imprensa brasileira e as suas entidades representativas em sintonia com a realidade vivida fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília?

Ou temos Brasília demais e Brasil de menos no nosso noticiário, a ponto de muitas vezes sermos surpreendidos e atropelados pelos fatos?

Nossos leitores estarão satisfeitos com os assuntos da nossa pauta cada vez mais voltada para o mundo oficial do que para a vida real?

 

Repórter, como vocês sabem, é aquele que pergunta.

Por isso, deixo aqui mais dúvidas do que afirmações para não acontecer com o nosso ganha pão uma situação dramática que encontrei muitos anos atrás num circo de domingo à tarde, em Caraguatatuba, no litoral norte paulista.

Na hora de começar a função, quase não havia ninguém no circo. Fui saber o que estava acontecendo. Os artistas continuavam em seus camarins assistindo ao programa do Silvio Santos na televisão, fazendo o mesmo, provavelmente, do que a distinta platéia em suas casas.

Quer dizer, estavam dando audiência ao seu algoz, ao homem que estava tirando o público do circo.

Hoje, quando vejo repórteres saindo da reunião de pauta direto para o telefone ou para a internet esta imagem me vem sempre à lembrança.

Nós só vamos sobreviver se formos capazes de descobrir e contar histórias novas que irão realimentar os Google da vida, e certamente não será no conforto das redações e nos gabinetes, ouvindo sempre as mesmas fontes, que vamos encontrá-las.

O que está lá nos arquivos da internet é notícia velha, que já foi publicada em algum lugar. Precisamos ir atrás de novidades, investir em reportagens, esplicar os fatos, que é para isso que nos pagam os leitores _ até para justificar as amplas liberdades de que desfrutamos hoje.

 

Muito obrigado.

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