Cultura, Mídia e Poder

Cultura, Mídia e Poder

Encaminho hoje apenas alguns tópicos para o nosso encontro em Fortaleza. Tudo no Brasil muda tão rapidamente que só costumo preparar minhas palestras na véspera de fazê-las para não correr o risco do meu texto ser superado pelos fatos e ficar vencido como o jornal de ontem.

Alguém poderá alegar que “Cultura, Mídia e Poder” constituem três pilares permanentes da identidade nacional, que independem da conjuntura e das circunstâncias do momento vivido, mas não é bem assim, como tentarei demonstrar.

 

  • A cultura brasileira hoje é, acima de tudo, um fenômeno de mídia. Se não está na mídia, não existe. É a mídia que determina o que é bom ou ruim, o que é sucesso ou é fracasso, o que você deve ver, ler e ouvir _ ou não.
  • Da mesma forma, é a mídia que determina quem vai para o trono do poder ou não vai, quem é a bola da vez, quem sobe e quem desce, qual o pensamento único que todos devem adotar.

 

  • As duas afirmações acima, tomadas como dogmas pelos chamados formadores de opinião, que fazem e vivem da mídia, por vezes são contestadas pela realidade, como vimos ainda recentemente na grave crise política que assolou o país.
  • Longe se vai o tempo em que a imprensa era chamada de quarto poder e se contentava com isso. Algumas publicações brasileiras se arvoraram durante a crise ser o primeiro, talvez único poder, que investiga, denuncia, julga e condena.
  • Se a mídia tivesse mesmo a força que imagina ter _ e ninguém pode negar que em certas regiões circunstâncias ainda tem mesmo esse poder _, o governo Lula já teria caído há muito tempo.
  • O que terá acontecido então que o governo não só não caiu como o presidente Lula _ dado como “pato manco” ou mesmo morto no final do ano passado _ tenha sobrevivido à crise e, mais do que isso, apareça neste momento como favorito na corrida eleitoral de 2006?
  • Alguma coisa mudou _ e a mídia não se deu conta. Talvez isso explique a queda na circulação dos principais jornais brasileiros, que perderam um terço do seu leitorado nos últimos cinco anos, e da audiência dos telejornais. Ou terá acontecido o contrário, como na história do biscoito que vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?
  • Faço muitas perguntas porque não sou dono da verdade e gostaria de discutir no seminário as razões destas mudanças nas relações entre Cultura, Mídia e Poder. O fato inegável é que houve uma democratização do fluxo de informações Brasil nestes últimos tempos.
  • Isto se deu não só em razão da entrada em cena das novas tecnologias, dos sites e dos blogs, aumentando o número de emissores e receptores de informação, mas também pela disseminação de publicações segmentadas que hoje contemplam desde sem-terra a índios, passando por igrejas, sindicatos e ONGs em geral.
  • A grande mídia já não é dona exclusiva da formação da opinião pública que elege ou derruba governos nem do gosto da freguesia no consumo da cultura _ o que pode explicar também o sucesso popular de fenômenos ignorados ou mal vistos pelos sábios dos segundos cadernos. Prova disso, por exemplo, é o que acontece com a música sertaneja ou brega como alguns preferem.
  • Como não se trata de ciência exata, o tema é aberto a discussões e pode gerar um bom debate. Por isso, proponho aos organizadores que, em seguida à minha fala, o público seja convidado a fazer perguntas e dizer o que pensa.

São Paulo, 6 de março de 2006

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