ASSESSORIA DE IMPRENSA E O JORNALISMO NO ATUAL MOMENTO POLÍTICO BRASILEIRO

ASSESSORIA DE IMPRENSA E O JORNALISMO NO ATUAL MOMENTO POLÍTICO BRASILEIRO

ENCONTRO NACIONAL DA FENAJ/RIO

 

Rio, 22.9.2005

 

Caro amigo Sergio Murilo, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas,

demais dirigentes sindicais,

meus caros colegas

 

Boa noite,

 

Antes de mais nada, gostaria de agradecer o convite de vocês para estar aqui nesta noite.

É sempre bom a gente poder parar um pouco de escrever, sufocados pelas notícias do dia a dia da crise política, para debater os rumos da nossa profissão.

Para um repórter que, há mais de  40 anos roda por este país em busca de boas histórias, nada melhor do que poder encontrar os colegas de ofício _ não apenas para falar, mas também para ouvir.

Por isso, como faço sempre, vou apenas levantar alguns temas para o nosso debate, que costuma ser a parte mais importante e gratificante destes encontros.

 

Alguma coisa está mudando no Brasil _ e mudando para melhor em nosso campo de trabalho. Continuo otimista, apesar de tudo. Ouso dizer que nunca se discutiu tanto a questão ética no nosso país e na nossa profissão, e nunca se combateu tanto a corrupção como agora.

Sei que os pessimistas dirão que a ética nunca foi tão maltratada e nunca houve tanta corrupção, exatamente porque hoje há uma percepção muito maior do problema.

 

Como o jornalismo não é uma ciência exata e não há fórmulas prontas nem verdades absolutas neste ofício, prefiro partir de algumas experiências pessoais para falar da complexidade do tema, quando se trata da ética no exercício da profissão de jornalista _ em qualquer função, cargo ou empresa, seja numa redação ou numa assessoria de imprensa. Esta é uma questão para mim vital, com ou sem crise política.

 

Primeiro caso: em meados dos anos 80 do século passado, recebi uma denúncia de um professor de escola de periferia. Seus alunos, disse-me ele, estavam dormindo em sala de aula porque eram obrigados a trabalhar durante a madrugada numa olaria.

Quer dizer: era o absurdo dos absurdos obrigar crianças a trabalhar à noite em locais altamente insalubres. Fui lá checar a informação. Em poucas horas, levantei a história e confirmei as denúncias do professor. Era tudo verdade.

 

Só que tinha um pequeno detalhe: quem obrigava estas crianças a trabalhar na olaria eram os próprios pais, que recebiam por produção e assim podiam aumentar seu rendimento. Além disso, estas famílias moravam sem pagar aluguel em casebres espalhados junto à olaria.

Fui falar com o dono do negócio. Ele me explicou que há muitos anos era assim _ era esta a única maneira que encontrou de manter a olaria funcionando. O proprietário era pobre também. Se tivesse que cumprir as leis trabalhistas,  registrando seus empregados em carteira e proibindo o trabalho infantil, seria obrigado a fechar a fábrica de tijolos e mandar as famílias embora.

 

 

 

No caminho de volta à redação, fui pensando nas conseqüências da publicação da matéria. Os fiscais da Delegacia Regional do Trabalho certamente fariam uma blitz no dia seguinte e a olaria seria interditada. As crianças não trabalhariam mais de madrugada, é verdade. Mas, em compensação, seus pais perderiam as casas onde moravam e a fonte do seu sustento.

Tentei dividir minhas angústias com o chefe de reportagem, que não teve dúvidas: mandou-me escrever a história completa, e bem rápido, porque estava na hora do fechamento do jornal.

 

No dia seguinte, com a denúncia publicada no jornal, não deu outra: os fiscais foram lá, multaram o dono, a olaria foi fechada e, as famílias, despejadas.

Até hoje, sempre que participo de uma discussão como a de hoje me lembro deste episódio _ e ainda não sei dizer se agi corretamente ao escrever e publicar a reportagem.

 

O nosso país é tão injusto, as desigualdades sociais são tão gritantes, as leis muitas vezes tão distantes da realidade, que, diante de uma situação como essa, você fica sem saber o que fazer _ o que é certo e o que é errado. Gostaria depois de saber a opinião de vocês.

 

O segundo caso que queria contar aconteceu durante uma das grandes greves dos metalúrgicos no ABC paulista, quando me vi diante de um dilema ético de outra natureza. Durante um almoço com líderes do movimento, fiquei sabendo que a greve deveria terminar no domingo seguinte porque não havia mais condições de prolongá-la.

 

Era uma notícia importante _ com certeza, seria a manchete do jornal de domingo. Mais dia, menos dia, a greve terminaria de qualquer jeito, mas a publicação desta notícia no dia da assembléia dos metalúrgicos poderia precipitar o desfecho, criar um fato consumado.

Até que ponto pode o jornalista influenciar os fatos ou ele deverá se limitar a divulgar fatos já consumados? A manchete saiu e, até hoje, como no outro caso, tenho dúvidas sobre a decisão tomada.

 

Gosto de falar de casos concretos porque, no dia a dia da nossa profissão, é com eles que nós precisamos lidar e não com belas teorias que aprendemos nos livros e nas salas de aula, mas que não nos ajudam muito na prática.

 

Por isso, digo sempre que, embora defenda uma ética coletiva e regras do jogo claras que valham para jornais e jornalistas, a verdade é que, na maioria das vezes, é a ética individual que fica com a última palavra. Como gostava de dizer o mestre e amigo Cláudio Abramo: a ética do jornalista deve ser a mesma do marceneiro. Ou seja: antes de mais nada, é preciso ser honesto.

 

Tenho participado de muitos debates pelo país, depois de deixar o governo Lula, no final do ano passado. Durante dois anos, como vocês sabem, tive a oportunidade e a honra de exercer o cargo de Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República.

Ao mesmo tempo gratificante e sofrida, esta experiência me deu a certeza de que na nossa profissão não importa a função que você esteja exercendo no momento. É o profissional que faz a função e não o contrário _ seja onde for.

 

Em certo sentido, nós, jornalistas, somos todos servidores públicos, na medida em que nosso trabalho deve ser sempre um serviço prestado para o público. Quer dizer, nós trabalhamos para o conjunto da sociedade _ independentemente de quem nos paga o salário _ seja num veículo de comunicação, ou numa assessoria de imprensa, pública ou privada.

 

Procurei trabalhar no governo exatamente como fiz a vida inteira como repórter, editor ou diretor nas redações. Nosso objetivo final é sempre o mesmo: apurar e divulgar todas as informações que possam ser de interesse público.

 

A cada dia, nós precisamos ir até o nosso limite para que a população seja informada sobre os fatos que podem afetar a sua vida. Pouco importa se você é repórter, editor ou assessor.

Metade do resultado daquilo que produzimos depende do nosso trabalho, do esforço e do talento. A outra metade, em qualquer setor de atividade, depende da forma como divulgamos o nosso trabalho, ou seja, de como vendemos o nosso peixe. Em comunicação, não importa só o que temos a dizer, mas de que forma os outros recebem aquilo que nós apuramos e divulgamos.

 

*

Discute-se muito ultimamente se assessor de imprensa é ou não jornalista. Teve até gente defendendo que eu pedisse licença do sindicato enquanto estivesse ocupando um cargo no governo.

 

Também já tive, confesso, este preconceito em relação à assessoria de imprensa, quando comecei minha carreira. Hoje, tenho certeza de que é possível fazer um trabalho decente e prestar um serviço honesto ao público dos dois lados do balcão, como se diz _ tanto numa redação, como numa assessoria de imprensa. As duas atividades podem e devem ser complementares, uma ajudando a outra.

O que deve prevalecer sempre é a ética, coletiva ou individual, o sentido que cada um dá ao seu trabalho _ quaisquer que sejam os códigos, manuais de redação, estatutos ou portarias.

Entendo que precisamos ter uma espécie de marco regulatório que sirva para todos _ empresas, governos e profissionais. Defendo alguma forma de regulamentação para o exercício da nossa atividade, a exemplo do que existe em outras profissões. Por isso, sou a favor da criação do Conselho Nacional de Jornalistas, tema que discutimos em todos os congressos da Fenaj nas últimas duas décadas.

Sei que o assunto é polêmico e estou aqui disposto a debatê-lo. Para mim, empresas e profissionais, que colocam a ética acima dos seus interesses particulares, só teriam a ganhar com isso. É preciso sempre lembrar e deixar bem claro: este é um assunto que não interessa só a nós profissionais de comunicação, mas ao conjunto da sociedade porque o nosso trabalho afeta a todos _ para o bem ou para o mal.

Em Brasília, participei do encontro dos dirigentes da Fenaj e dos sindicatos estaduais com o presidente Lula, quando reivindicamos que o Ministério do Trabalho desse andamento aos estudos para elaboração do projeto de lei propondo a criação do CNJ.

Hoje, reconheço que o assunto não foi bem encaminhado nem entre a categoria nas redações, nem entre as lideranças no Congresso nacional. Faltou mais negociação, mais debate. Mas nada justifica o massacre que sofremos por parte da grande imprensa. A nossa imprensa, simplesmente, se recusa a discutir a imprensa. Perdemos uma batalha, mas não devemos desistir do projeto.

 

Da mesma forma, não devemos esperar por uma lei maior para fazer aquilo que nossa consciência determina, de acordo com o caráter e a formação profissional de cada um.

Nem tudo o que quis fazer na carreira eu consegui _ acho que ninguém consegue. Mas, nunca, em lugar nenhum, alguém me obrigou a fazer algo que fosse contra os meus princípios. Podem não publicar tudo o que escrevo, mas não escrevo nada que não quero, não publico nada que não acredite ser verdade.

A natureza da nossa profissão é uma só. E qual é essa natureza?  É simples e clara como um copo d´água: checar exaustivamente os fatos, até se convencer da sua veracidade, e divulgá-los ao público. Ponto. Podem até dizer que isso é muito romântico, utópico, mas é assim que penso e estou velho demais para mudar de idéia.

Isto vale tanto para o repórter iniciante numa pequena redação de jornal de bairro, onde eu comecei a trabalhar em 1964, como para quem esteve todo dia trabalhando ao lado do presidente da República, como aconteceu comigo durante dois anos.

Encontro hoje poucos colegas da minha época de repórter trabalhando nas grandes redações, cada vez mais reduzidas em conseqüência da crise financeira que atinge o setor.

Nem por isso, nem o mundo, nem a profissão vão acabar. Ao contrário: nos últimos anos, diversificou-se de tal forma nosso mercado de trabalho que arrisco afirmar: nunca tivemos tantas opções para ganhar nosso sustento, sem ter que mudar de ramo e sem ter que abrir mão dos nossos princípios éticos.

A informação se democratizou de forma horizontal. Qualquer sindicato, empresa, igreja, entidade, ong, órgão público, fábrica ou hospital, câmara municipal ou escritório da ONU não vive hoje sem jornalistas para poder se comunicar com a sociedade.

Multiplicam-se por todo o país jornais locais, rádios e televisões comunitárias, blogs e sites informativos, publicações de sindicatos, igrejas, associações de classe, de sem-terra e até de índios.

 

Precisamos estar abertos a esses novos desafios e encarar a nossa nova função de profissionais multimídia, quer dizer, profissionais capazes de trabalhar em qualquer veículo, em qualquer lugar do país, sem preconceitos.

*

Peguei 20 anos de ditadura, com censura prévia, torturas e toda ordem de perseguição a jornalistas _ uma história que todos vocês conhecem, pelo menos de ouvir falar.

Agora, já vivemos há 20 anos numa democracia. Posso assegurar a vocês que nunca tivemos tanta liberdade e tanta diversidade no mercado de trabalho da mídia como agora.

Se cada um de nós, esteja onde estiver, cumprir corretamente seu papel, certamente a sociedade será melhor servida de informação, esta matéria básica vital numa democracia.

*

A história não será escrita pelos que desanimam diante da primeira porrada, que vivem se lamentando pelos cantos, que não acreditam na própria capacidade de transformar o que acham errado e construir um destino novo.

É escrita pelos que não se vexam a dar murro em ponta de faca e a remar contra a maré, não desistindo nunca de acreditar nos seus ideais, sem abrir mão dos seus princípios.

Ninguém é obrigado a concordar comigo. Cada um tem o seu próprio jeito de ver as coisas, de viver a sua vida e a sua carreira.

Gostaria apenas que vocês pensassem um pouco nas imensas oportunidades abertas para todos num país tão grande e tão generoso como o nosso, onde quase tudo ainda está por se fazer, principalmente na nossa área.

Calma, estou terminando…

Só não queria perder esta oportunidade para reafirmar a minha fé na nossa profissão e no nosso país, apesar da séria crise política que estamos vivendo neste momento.

Não é a primeira, não será a última. De todas as crises, saímos mais fortalecidos. Pode parecer ingênuo o que vou dizer, mas eu sempre acreditei numa coisa: o que será do nosso futuro só depende de cada um de nós _ e da nossa capacidade de transformar sonhos individuais em sonhos coletivos, ética individual em ética coletiva.

É para isso que estamos reunidos aqui hoje. Mais uma vez, muito obrigado pelo convite e vamos ao debate.

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