IMPRENSA E PODER

IMPRENSA E PODER

PALESTRA/SEMINÁRIO 80 ANOS DE “O GLOBO”

RIO DE JANEIRO/30.6.2005

RICARDO KOTSCHO

 

Boa tarde,

Antes de mais nada, muito grato pelo honroso convite para estar aqui hoje.

É sempre bom poder falar sobre os rumos da nossa profissão num jornal que completa 80 anos, ao lado de colegas como Luiz Garcia, Merval, Moreno e Mineiro.

 

Sobre o tema proposto _ Imprensa e Poder _ dá para falar durante alguns dias, talvez semanas, mas prometo ser breve nesta introdução porque o importante mesmo é o debate que virá a seguir.

O jornalismo tem esta vantagem: por não se tratar de ciência exata, dispensa apresentação de fórmulas, receitas e verdades absolutas, posto que se trata de um ofício em permanente processo de debate e construção.

 

Basta lembrar que no ano em que “o Globo” nasceu, o jornal _ quer dizer, a imprensa de papel _ era praticamente a única fonte de informação numa sociedade em que o rádio engatinhava, de televisão nem se falava e internet era coisa de maluco sonhador.

Hoje, para discutir as mil relações entre Imprensa e Poder não precisa ser jornalista. Este é um assunto que interessa a toda a sociedade _ e todos têm a sua  própria opinião, ainda mais em momentos de grave crise política como estamos vivendo agora.

Para começar a conversa, não resisto ao lugar comum: cada vez mais, imprensa é poder.

E não só no sentido do poder que as empresas jornalísticas exercem no nosso mundo globalizado das comunicações, mas também no plano individual. Dispor de informações é um instrumento de poder em todas as latitudes, em qualquer área de atividade.

 

Já desconfiava, mas tive certeza disso nos dois anos em que trabalhei no Palácio do Planalto como secretário de Imprensa do presidente Lula.

Aos meus colegas de governo, sempre que reclamavam de um veículo ou de uma notícia, e muitas vezes com razão, eu repetia um velho mantra: é bobagem brigar com a imprensa. No fim, você sempre sai perdendo.

É melhor conversar sempre. Apresentar nossos argumentos. Tentar corrigir uma informação, quando necessário. Visitar redações rotineiramente. Retornar todas as ligações de jornalistas. Apurar as informações que nos solicitam.

 

Sei que isso pode parecer meio idealista, romântico demais, mas os fatos nos provam que não tem outro jeito. Se você tratar bem e tiver uma boa relação com a imprensa, o governo vai apanhar do mesmo jeito porque a crítica é da natureza do jornalismo.

Agora, se tratar mal, vai apanhar muito mais.

É mais ou menos como acontece nas relações entre o Executivo e o Legislativo: é necessário aprender a conviver com a realidade. Ponto. Imprensa, Congresso e Governo são poderes independentes. Embora se diga que constituímos o quarto poder, o fato é que, em muitos episódios, a imprensa age como se fosse o primeiro e único poder _ ao mesmo tempo, polícia, juiz e promotor, dispensando o advogado de defesa.

De fato, a imprensa pode muito, pode quase tudo, só não pode brigar com os fatos.

Por isso, não sou daqueles que, diante da primeira denúncia, justa ou não, pensam logo em complô da imprensa e coisas do gênero.

Até porque, a imprensa é altamente competitiva e não creio que combinar o jogo com os concorrentes seja um bom negócio _ a não ser que seja uma concorrência de cartas marcadas, o que não é bom para ninguém.

 

Não é complô, é uma gincana. Estamos assistindo agora à mesma gincana que se repete sempre nestas horas: a partir do primeiro furo, da primeira denúncia, os diferentes veículos atiçam seus melhores profissionais para dar a próxima denúncia, descobrir um novo dossiê, uma fita devastadora, uma secretária indiscreta _ qualquer coisa que mantenha a cobertura na ofensiva.

Na corrida desembestada, pode-se cometer injustiças, precipitações, pré-julgamentos. Mas a vida é assim. Se conspiração há, trata-se de uma conspiração dos fatos.

 

Mas é fato também que a dimensão e a intensidade da cobertura na atual crise gerada por denúncias generalizadas de corrupção é bem maior do que vimos em outros episódios semelhantes _ como na compra de votos da reeleição, por exemplo, quando a “Folha” ficou praticamente falando sozinha no assunto.

Até recentemente, quando um veículo dava o furo, os outros fingiam que o fato não existia _ “para não passar recibo”, como se costumava dizer.

Neste ponto, estamos mais civilizados, até citando o nome do concorrente que deu a matéria primeiro.

 

De outro lado, sem negar a gravidade dos fatos, nem brigar com eles, não custa lembrar a enorme responsabilidade dos veículos de comunicação e de seus profissionais para não tornar a crise maior do que ela já é por si mesma.

Querendo ou não, dependendo do grau de equilíbrio mantido na cobertura, a imprensa pode ficar a serviço de interesses de terceiros, sejam eles políticos ou econômicos.

O grande perigo que corremos é sair do pensamento único para o noticiário único. Ou seja, concentrando todos esforços e espaços na cobertura das denúncias de corrupção e deixando de cobrir outros assuntos igualmente de interesse da sociedade. Nem falo de notícias positivas ou negativas para o governo. Refiro-me ao leitor, ao conjunto da sociedade.

A saturação e a competição pela quantidade de denúncias, a qualquer preço, pode levar o cidadão leitor a uma ojeriza tal a todo o sistema político que o efeito pode ser devastador para a democracia. De uma hora para outra, dá a impressão de que é tudo a mesma porcaria, ninguém presta, nada vale a pena.

 

Outro fato que constatei na minha temporada em Brasília é a superconcentração de profissionais na cobertura dos três poderes. Há um congestionamento de bons repórteres, ás vezes até do mesmo veículo, que travam uma disputa entre si, especialmente no Palácio do Planalto e no Congresso Nacional.

Já antes da atual crise, notava que, em conseqüência desta distorção, temos Brasília demais e Brasil de menos nos nossos veículos, de uma forma geral.

É muito gabinete, muito bastidor, muita futrica, muito jornalismo declaratório e pouca reportagem para contar o que está acontecendo _ de bom ou de ruim _ no restante do país.

 

Nunca fui adepto do “bad news, good news”, nem no pior momento da ditadura militar, que ameaçava não só a nossa sobrevivência profissional, mas física também.

Não é possível que num país do tamanho do nosso, com seus 180 milhões de habitantes, só tenha coisa ruim acontecendo todos os dias em todos os cantos e setores da vida nacional. Será que não tem nada dando certo, ninguém fazendo alguma coisa que preste, nenhuma história que faça o leitor rir, se emocionar, se sentir feliz por estar lendo aquela notícia?

Na quinta-feira passada, por exemplo, o “Financial Times” publicou uma alentada reportagem sob o título “Agricultores brasileiros fazem tremer o mundo da agricultura”.

Escreve o venerando jornal inglês que o Brasil não é só terra da propina, mas também “um campo de oportunidades”, um “campo dos sonhos”. Há quanto tempo não lemos nada semelhante na imprensa brasileira?

 

Com isso, os jornais vão ficando cada vez amargos e mais iguais _ da pauta á edição. No jornalismo de pauta única, acaba faltando a necessária diferenciação no cardápio oferecido ao leitor.

E a melhor maneira de buscar este diferencial ainda e sempre é a boa e velha reportagem. Sem deixar de cobrir o factual e, se possível, explicar o que e porque está acontecendo, é necessário descobrir novas tendências, personagens, lugares, histórias. Para isso, os repórteres precisam largar o telefone, sair das redações e dos gabinetes, e cair na vida real do país, espalhando-se por este Brasilzão afora para descobrir as histórias que ainda não foram contadas.

 

Se, em muitos setores da imprensa progredimos nos últimos anos, neste houve um retrocesso: todos os veículos já tiveram uma cobertura mais nacional, mais distribuída, com correspondentes e sucursais em quase todas as regiões do país, e enviados especiais emendando uma viagem na outra.

Penso que a crise econômica que atingiu o setor na última década não pode ser a única responsável por isso.

São vários os fatores que levaram a esta deformação _ decisões editoriais equivocadas, espírito de manada, que leva todo mundo a fazer o que todo mundo faz, acomodação do reportariado e o medo de levar furo em lugar da ousadia para dar furos.

 

Os muitos prêmios de reportagem que “O Globo” ganhou nestes últimos anos provam que este é um dos melhores caminhos para se buscar a almejada diferenciação. Outro é investir num variado e qualificado elenco de comentaristas e colunistas, como este jornal também faz. De tudo o que já se falou de Roberto Marinho, a marca mais forte que ficou, pelo menos para mim, foi o de sempre se cercar de bons profissionais, tanto no jornal como no seu prolongamento, a TV Globo _ e bota prolongamento nisso…

 

Não tem segredo. Octavio Frias de Oliveira, o “Seu Frias”,  veterano “publisher da “Folha”, com quem aprendi muito, gostava de repetir uma frase singela que diz ter ouvido de Nabantino Ramos, antigo proprietário do jornal:

“Um bom jornal se faz com bons jornalistas”.

É isso. Quem tiver os melhores profissionais vai fazer o melhor jornal, independentemente das conquistas tecnológicas e da excelência dos parques e projetos gráficos. O mundo, para mim, cada vez mais se divide entre profissionais e amadores. O resto é poesia. E não há mais lugar para amadores nem no jornal, nem na TV, nem no governo, nem em lugar algum.

 

Com bons e honestos profissionais dos dois lados do balcão, as relações entre Imprensa e Poder só podem melhorar _ e quem ganha com isso é a sociedade. Embora a natureza das duas instituições seja distinta, elas não devem ser antagônicas. Ao contrário: uma imprensa forte e livre é fundamental para que a democracia possa sobreviver a crises como a que estamos vivendo, desde que cada um de nós tenha consciência do seu papel e da sua responsabilidade nesta história.

Parabéns aos amigos de “O Globo” pelos 80 anos de jornal e por esta iniciativa de abrir suas portas para discutir o nosso trabalho com aquele que é o principal interessado, nossa razão de ser: o leitor.

Muito obrigado.

 

Ricardo Kotscho

Rio, 30.6. 2005

 

 

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